A alegria do Natal



Tem sido difícil viver o costumeiro clima do Natal. Existe algo artificial neste clima, algo de não plenamente autentico. As lojas estão enfeitadas, preparamos presentes, trocamos abraços e participamos de comemorações. Recebemos cartões que dizem: Feliz Natal e Próspero Ano. Votos sinceros, cordiais, calorosos de saúde, paz, alegria, que revelam a precariedade dos nossos afetos mesmo quando trocamos presentes. Celebrações e encontros festivos lotam nossa agenda. Famílias se reúnem, e todos os conflitos camuflados estão lá entre os brindes e as brincadeiras. Uma sensação às vezes embaraçosa de lidar com boas maneiras e etiqueta. Palavras que não alcançam nossos sentimentos. E lá no fundo muita gente é tomada pela angustia, a euforia das festas de fim de ano ultrapassam a realidade da vida e deixa um grande vazio.

Como reencontrar a alegria verdadeira, genuína, simples sem os estímulos da decoração, da comida e da bebida e do consumo desenfreado? Provavelmente é por isso que alguns procuram a igreja com algum tipo de esperança escondida sob as cinzas de uma vida cansada, desiludida, rotineira, sem sonhos, sem paixão. Ah com gostaríamos que algo acontecesse, algo novo, que pudéssemos reencontrar esta alegria verdadeira e simples.

A principal festa do cristianismo no ano litúrgico não é o natal, mas a Páscoa. O natal começa aparecer no final do século III. Passados tantos séculos perguntamos como celebrar hoje esta festa? Como encontrar Deus nesta festa secularizada e mercantilista?

O relato do natal nos Evangelhos nos surpreende pela discrição acerca da criança na manjedoura. Não tem ninguém dizendo: olha que gracinha, que bonitinho, ou dizendo qualquer coisa sobre ele, nem que chorou, mamou, muito menos com quantos quilos. Nem mesmo que nasceu pobre. Nada se fala sobre a criança.

Ele é Verbo encarnado, o Senhor do universo, o menino Jesus é o centro da narração. No entanto, por ocasião de seu nascimento os evangelistas nos contam muito mais dos outros personagens desta história singular.

Há notícias sobre José e Maria, seu encontro, a visita dos anjos, a gravidez, a viagem. Fala-se também da corte real, e do recenseamento Depois fala dos pastores, dos céus se abrindo e anjos cantando.

No meio disto tudo está o Deus menino, silencioso, quase imperceptível, no entanto presente. Ele está no centro da vida de José e Maria, está no centro dos acontecimentos dos pastores, está no centro do anuncio angelical. Ele é o que atrai tudo para si, na sua descrição desconcertante.

Ele é a essência desta história, tudo se concentra nele, tudo está com ele, vem dele e se volta para ele. No entanto ele é todo fragilidade e vulnerabilidade. Um Deus que se deixa cuidar e nutrir por um seio humano.

Penetremos neste mistério da encarnação do Verbo. Pensemos no presépio, onde todos personagens estão voltados para ele, seus pais, os pastores, os animais, os anjos. Jesus, portanto, está no centro, mesmo que se fale pouco ao seu respeito, é ele que dá significado a tudo que acontece ao seu redor. Deus discreto, silente, enfaixado numa manjedoura, numa aldeia na periferia do império romano.

Ele se revela primeiro aos pastores, gente simples, com expectativas modestas, essenciais. A eles veio o anuncio: Lc 2.8-15 (Chouraqui)

Pastores estavam lá, naquela região;
Viviam nos campos e guardavam
Nas vigílias da noite seu rebanho.
E eis um mensageiro de Jeová
Apresenta-se a eles.
A glória de Jeová resplandece ao redor deles
Eles estremecem com grande estremecimento.
O mensageiro de Jeová lhe diz:
Não estremeçais, Sim, eis
Eu vos anuncio uma grande alegria
Que será para todo povo:
Hoje vos nasceu um salvador.
É o Messias de Jeová, na cidade de Davi.
Tal é para vós o sinal:
Achareis um recém-nascido
Envolvido em faixas, deitado numa manjedoura.
E repentinamente, eis junto ao mensageiro
A multidão da milícia dos céus.
Eles louvavam Eloim e dizem:
Gloria a Eloim nas alturas,
E paz na terra aos homens de bom grado!

E assim, quando os mensageiros vão embora
Para longe deles em direção ao céu,
Os pastores dizem um ao outro:
Vamos a Beit-Lehem
E vejamos o acontecimento que ocorreu,
E que Jeová nos fez conhecer.

Um convite à alegria é a primeira nota do anuncio angelical. O contentamento, a esperança, a coragem para viver. Uma grande alegria, que ultrapassa as pequenas satisfações imediatas e circunstanciais.

Alegria de todo povo: o coletivo, a amizade, a comunhão, o encontro, a solidariedade. Alegria porque hoje se vos nasceu um salvador. É o Messias de Jeová.

Os pastores, não discutem, não postergam, não buscam explicações, simplesmente dizem um ao outro vamos a Bei-Lehem. Ouvem o coração falar. Suas mentes poderiam pensar: céu se abrindo, Deus nos visitando, criança na manjedoura, isto não combina é inverossímil. Mas eles ouvem seus corações. Intuindo que Deus é imprevisível e nos surpreende, e sua revelação é maior que a lógica humana. Os pastores são simples e tementes a Deus. E são convidados a participar deste grande acontecimento.

Jesus Cristo ao nascer coloca-se no meio dos nossos acontecimentos banais, da nossa vida cotidiana. Este é anuncio que fazemos no natal. Deus está no meio de nós. O Logos se tornou carne. Armou sua tenda entre nós. Contemplamos sua glória como filho único diante do Pai, plena de bem querer e de verdade, nos diz João. É Emanuel Deus presente.

Ele é Emanuel, Deus conosco, dando significado aos gestos simples do quotidiano. Quase imperceptível, algo secundário no fluxo dos grandes acontecimentos do mundo. No natal vislumbramos o mistério de Deus, que aquilo que é pequeno, pobre, frágil, marginalizado, na verdade está no centro.

Assim professamos uma fé que proclama que nas coisas pequenas se revelam as grandes, que Deus está presente no pão e no vinho, que Deus nos abraça e vem ao nosso encontro em todas as nossas circunstancias humanas. Mesmo as mais infelizes, nas perdas, nos desencontros, nas doenças, ele está sempre presente, e com ele o amor e a esperança, a presença do Espírito Santo. Uma luz que penetra nossas trevas, ajudando-nos a viver uma vida diferente.

Desde início Jesus nos ensina sobre a humildade, a simplicidade, a dependência, com uma atração cativante para aqueles que discernem o mistério da criança na manjedoura. Ensino que ele concluirá na cruz, entregando sua vida por nós.

No natal vemos Deus abraçando a periferia, nos convidando a entrar no estábulo para contemplá-lo. Em outras palavras Deus nasce numa favela. É o Rei que deixa seu palácio celestial e nos visita no nosso barraco tosco e maltrapilho. Só assim podemos vislumbrar a magnitude deste acontecimento.

Há uma desproporcionalidade imensa entre o anúncio no céu e a realidade na terra. De um lado o anuncio de que Deus se faz carne, anunciado pelos profetas, aguardado pelos homens e cantado pelos anjos. O maior acontecimento da história humana. O céu invade a terra, o divino se faz homem, o eterno se faz efêmero, Deus nos visita. Do outro a precariedade de um casal oprimido pelo império, obrigado a se deslocar para um censo. Uma grávida que não encontra lugar para dar a luz. Um menino enfaixado uma manjedoura num estábulo. Ali a história humana vive seu momento decisivo e determinante. Ali daquele bebê depende o destino de toda a humanidade.

Pensamos em Deus como infinito, onipotente, eterno, o todo poderoso do qual esperamos benefícios imediatos e materiais. Do menino Jesus aprendemos que Deus se coloca perto do homem, e que compartilha com ele as necessidades, os sofrimentos, a solidão, a exclusão, as dores, a pobreza. Ele se esvazia de seu poder e glória e se faz vulnerável e frágil. Este Deus que é grandioso, majestoso, poderoso, extraordinário, mas ao mesmo tempo humilde, recatado, aceita deitar num caixote onde se dá de comer aos animais. Um Deus capaz de se dar sem reservas.

Não há necessidade de grandes produções ou consumo para se estar satisfeito. Basta participar da alegria de José, Maria, dos pastores e dos anjos ao redor da simplicidade da criança na manjedoura. Alegria esta escondida nas dobras profundas de nosso coração, longe das luzes e artificialidade de uma festa comercial. Ali naquelas dobras profundas onde se esconde a misteriosa e discreta presença de Jesus Cristo. Ali onde uma alegria indizível toma conta do nosso ser, enchendo-nos de coragem para viver, uma alegria que venha substituir todas as preocupações e ansiedades por tantas coisas inúteis e efêmeras.

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