_____________________ ENSAIOS DOS
LEITORES # 22/04/2007
------------------------------------------ O príncipe que quer conservar o seu domínio é forçado às vezes a praticar o mal.
Isto de certo modo explica a truculência do aparelho policial na atualidade que deixou de ser treinada oficialmente para esta prática, mas não foi reorientada para se posicionar de acordo com o modelo de uma sociedade que ressurgia após a ditadura. Porém continuou atendendo interesses escusos de uma elite política para qual continuou serviçal, determinando o seu perfil na atualidade. Atualmente, diante da violência urbana intensa e explícita que se assiste diariamente, cada dia mais, o discurso oficial das autoridades governistas e técnicas têm sido de investimentos no aparelho repressivo, ou seja, munir cada vez mais a polícia com mais armas e possivelmente com grandes tecnologias. Todos os dias prendem-se e matam-se “bandidos” nas ruas das cidades brasileiras. Exibe-se com grande orgulho, inclusive em campanhas eleitorais, o aumento de presos, que se multiplica nos presídios construídos a grandes custos financeiros. Toda essa preocupação, ação e investimento não superam a evidência do aumento da violência além das proporções dos investimentos. Interesses escusos em jogo Parece que há aí uma “encenação” para justificar os gastos de acordo com os interesses escusos e inescrupulosos de determinados segmentos de poder na sociedade, até porque sabemos – e não adianta disfarçar que não sabemos – que quem esta violência urbana atinge mesmo maciçamente é a classe menos favorecida da sociedade, sendo inclusive o próprio “bandido operacional”, aquele que apenas executa os serviços, oriundo desta classe. Todos sabem que as organizações criminosas no Brasil, de modo geral, direta e/ou indiretamente, têm a participação de diversas autoridades oficiais, que supostamente estão muitas vezes no próprio combate ao crime. Neste caso, isto quer dizer que os investimentos nesta política significam investimentos também no próprio crime. No Brasil, as forças opressoras do estado oficial são de modo geral constituídas por pessoas que fazem parte do estado real e isso tem dois sentidos, o próprio contingente do aparelho policial é o próprio povo oprimido e a opressão também é sobre o próprio povo para os interesses de uma pequena elite política e econômica. Morrer de fome ou morrer no crime Na prática, a política ostensiva de combate ao crime tem sido direcionada aos “bandidos operacionais” que, de modo geral, entraram para o crime por circunstâncias das condições sociais e faltas de oportunidades de buscar uma vida digna e cidadã, portanto fazendo do “crime um meio de sobrevivência”. Estes têm apenas duas alternativas: Morrer de fome ou morrer no crime. Isto não pode ser entendido como uma justificativa para a tolerância da violência, mas como uma justificativa para se combater efetivamente as causas dela. Estes bandidos não vão desaparecer enquanto o crime e o poder, inclusive político, estiverem associados, porque é esta combinação que obriga quem poderia ser cidadão a tornar-se bandido. Talvez seja estranho dizer isto, mas aquele indivíduo que empunha uma arma nas ruas das cidades brasileiras para assaltar um cidadão, às vezes até tirando-lhe a vida, não pode necessariamente caracterizar a natureza da violência e do perigo para a nossa sociedade. Ele representa um perigo para aquele cidadão o qual abordou. Quem representa o verdadeiro perigo para a sociedade é aquele indivíduo investido de poder oficial que cria uma política que rouba de toda uma sociedade o dinheiro, a esperança e a dignidade, como vive grande parte da atual geração, remetidas à miséria, a fome, a falta de oportunidade e a marginalização, como aquele próprio indivíduo, que fomos levados a responsabilizar como razão da violência urbana, enquanto estas “autoridades” ficam imaculadas da responsabilidade da violência e discursando em função de seu combate. Estado moderno repressor O mais grave de tudo isso é que somos levados ideologicamente a assumir todos estes problemas como se cada um estivesse no papel em que já estava predestinado naturalmente e, portanto nada pode mudar, ou seja, alguns poucos já nasceram para exercer o poder e “os restos” – a grande maioria – como diz o senso comum – “fundamentado na superada teoria determinista” – predestinados para a miséria e/ou o crime. Essa forma de pensar justifica e garante uma convivência desigual e injusta, mas consensual e harmônica, do ponto de vista da aceitação. É preciso lembrar o que disse Rosseau (Apud: WEFFORT: 1989), os governos, de modo geral, somente tem servido para a manutenção da miséria do pobre e a usurpação do rico e a violência é um dos instrumentos da manutenção desta (des)organização social, sobretudo em uma sociedade capitalista. Ou nas próprias palavras de Marx e Hegel (Apud: Coutinho, 1985: 19) “o poder político do estado moderno não é mais do que um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia”. Cabe à sociedade a responsabilidade de interferir e estabelecer os parâmetros de uma convivência que aponte para a verdadeira ordem social, e se isso não acontecer: “Corremos o risco de nos precipitarmos para um mundo em que os ideais de justiça social, de solidariedade e de democracia acabem sendo apenas palavras ocas, pois não são precisamente os ideais necessários em um mundo em que tudo é medido economicamente” (TORRES SANTOMÉ, 2003: 9). Deixar
a solução destes problemas à mercê da sorte
ou da vontade da suposta autoridade competente pode significar a reprodução
exaustiva da violência que alimenta interesses escusos. É
preciso pensar na possibilidade da construção de uma sociedade
em que os ideais de justiça social, de solidariedade e de democracia
deixem de ser um discurso ideológico que alimenta a esperança
de uns e realiza os objetivos de outros.
------------------------------------------ ------------------------------------------ |