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CRÔNICA
# 26/02/2007
Dedetização
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Por
Renato Kress, co-editor Consciência.Net
É
preciso desesterilizar a vida, se não volto a escrever agora, surto.
Meu corpo vibra neurônios incessantemente cafeinados e turbulenciados
pela batida truculenta da dimensão aérea da vida. Distanciar
a consciência do sono intelectual, me soa como mergulhar numa sinfonia
perdendo-se o diálogo, a expressão técnica das notas.
Isso é impossível, eu preciso ter controle. Eu preciso ter
controle. É preciso ter... sinto minha noite escorrendo híbrida
como vertem as sílabas das páginas exteriores. Pequenas obrigações
e destinos irrevogáveis e contratuais, porque é preciso ter
um norte, é preciso ter dinheiro, carreira, ponto, contraponto,
estágio, experiência, bate-estaca esmurrante da responsabilidade,
por ser o único centro confiável de sentido da minha vida.
Dói, dói, dói demais a sensação das
rédeas sangrando em grandes postas, quase já amarronzadas
as mãos que dirigem a vida. Após as duas da manhã
visitar Morfeu para abraçar Hélios às cinco, devotar-me
a Heracles de seis às oito, depois Hermes e Atena até a cerração
das pálpebras num REM onde meus átomos capilares trocam partículas
com a janela do ônibus. Dói, dói, dói perder
e reencontrar a conta certa do ganho e gasto, dos ativos e passivos diários
de cartão, investimentos inócuos, três contas, três
bancos, cheques e malabarismos especiais. É impossível dormir
atrasado, reler, rever, estruturar o self esparramado pelo dia em papéis
dissociados de mim – que mim? – e contar as compras do mês e telefonemas
e e-mails inadiáveis e adiados em todos os dias e sentidos. Uma
vida adiada, uma ação interrompida, uma carga emocional represada
em atitudes inacabáveis, em representações catastróficas
de controle. Por isso a rédea sangra, a rédea extrai a polpa
rubra da vida, a raiva, a dor, o ódio, o incessante ruminar cotidiano
do adiamento vital, da vida em adiamento, do "para depois" eterno. A certeza
do amanhã arruína minha vida. A certeza do perdão,
da amizade, do afeto, do amor, do companheirismo, a certeza me fode diariamente.
A certeza relaxa. Mundo me amedronte pelo amor de Deus!!! Me pulverize,
me aniquile de dúvidas, de mortes incertas em cada esquina, de doenças
misteriosas, sumiço de agendas, incompreensão humana. Tão
humana, tão mundana, tão difícil. É preciso
ser subjugado, ter uma pitada de indignação e incerteza,
de desamor alheio, de anti-camaradagem justa. Desinteresses comuns, criatividades
fugidias, até um pouco de imbecilidade e incompreensão que
movam. O ar-condicionado com café, silêncio e tempo, a TV
a cabo, telefone livre, celular e banda larga fodem com a rédea
da vida, tornam o sentido frouxo a vivência caduca e pobre. Do que
incomoda é a facilidade a limpeza e assepsia fragilizantes – quero
viver com as bactérias! Puta que o pariu, eu morri e não
senti. Por trás da macieza leve e condicionante da certeza deflorei-me
em pó e cimentei a produção. IN-ércia. Ércia,
o som, parece algo rasgado, gritado e simultaneamente petrificado, como
uma escultura de carne putrefata. É preciso escrever e o que me
era liberdade virou medo, o que me era genialidade virou estranhamento
e incerteza em estufa. Os dedos liberam paisagens nos teclados, mas a lógica
perde o senso e a criação, o nexo. Medo, medo da insanidade
da incompreensão pessoal crônica de mim mesmo. Traduzir-se
em idéias ou artigos, em palavras, contos, poesias ou críticas
perfeitamente inteligíveis e politicamente engajadas parece inócuo,
necessário e impossível. Parte do que fui resgata-se da leitura
dos arquivos, mas é estranha a mim mesmo, tal o tempo de distância
tomado que produz o salto, a acrobacia impossível da re-experiência
quase já mais neural que cardíaca. É preciso recobrar
a dimensão cardíaca da arte interna, do saborear literário
da consciência nítida da idéia-sentimento, da inexpressividade
totalmente pictórica e representável do sentimento, ainda
que difuso. Ars mágica da escrita...
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Renato
Kress é brasileiro, poeta, escritor e nasceu no Rio de Janeiro
no ano 82. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro 'Consciência',
sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro
este que começara a escrever dois anos antes. É co-fundador
e co-editor da revista eletrônica www.consciencia.net. Atualmente
cursa a faculdade de Ciências Sociais na PUC-RJ. Contato por e-mail,
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aqui. Texto publicado em 26/02/2007
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