BRASIL # 27/10/2006
O Político-Produto
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Por Renato KressPor Renato Kress, co-editor Consciência.Net


Nessa época alargada de eleições podemos facilmente perceber o desgaste dos políticos que chegaram ao segundo turno. Chegar ao segundo turno não é bom para ninguém, manter a atual exposição midiática, como uma exposição ao sol, pode causar câncer eleitoral. Revelar enfraquecimento moral ou ético, possibilitar que determinadas máscaras criadas por assessores de imprensa tornem-se cada vez mais e mais óbvias, cansativas, frágeis. É nessa hora que fica evidente a transformação do político num produto tanto quanto do eleitor num consumidor.

Personalidade profunda como um cartaz

O político-produto funciona como um “outdoor”, como um galhardete ou painel publicitário. O maior desejo do político-produto é manter-se “empregado”, perpetuar-se numa posição de poder e, para isso, ele deve estar eternamente atento às pesquisas eleitorais, principalmente às pesquisas que determinam o perfil do candidato que passaria mais seriedade, competência, sensibilidade para com os problemas do seu eleitorado ou quaisquer outros conceitos ou características que venham a se mostrar mais claros para o político através das próprias pesquisas de mercado eleitoral.

Para que possa se vender mais fácil é necessário se amalgamar ou travestir suas propostas, posturas, fisiologia, vestuário, vocabulário, oratória e dados programáticos de campanha a fim de conseguir o maior número possível de eleitores, é indispensável que o político seja ou transforme-se, pessoalmente, em uma pessoa opaca, um vazio, algo como um espaço em branco com a inscrição “espaço publicitário”.

Isso faz também com que a imagem desse político, por si só – ou seja, longe de qualquer proposta publicitária –, seja destituído de qualquer carisma, uma placa, um cartaz, simples espaço publicitário-eleitoral onde qualquer tipo de proposta política pareça se acoplar perfeitamente à história pública e privada do candidato, recortada e reestruturada afim de oferecer uma visão parcial e condizente com suas propostas de campanha.

Desgaste da identidade
 

Esse tipo de mercado da personalidade do político-produto causa um enorme desgaste da sua identidade pública (sim, políticos-produto tem dupla, tripla quem sabe até séptupla identidade sem constituir quadro psicológico clínico). Vejamos por exemplo os malabarismos televisionados das declarações contraditórias de ACM ou, mais recentemente, de Roberto Jefferson.

Mas há um cálculo que determina até que ponto esse desgaste é necessário a que o político-produto passe tranqüilamente de um partido à extrema direita para um partido da extrema esquerda ou migre trimestralmente de partidos e, conseqüentemente, dos valores e questões que se acoplam (ou deveriam) àquelas chapas abandonadas tão logo se vislumbre um horizonte de crescimento ou permanência no poder. Nessas questões, o acaso não existe.

Espera-se do político-produto que seja uma figura aérea, pouco palpável, mas plástica o suficiente para vender, durante um curto período eleitoral
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Político-Zepelin

No fundo, espera-se dele apenas que tenha - nas palavras de Richard Sennet sobre o empregado de uma empresa multinacional, mas que acredito que possam ser tranqüilamente transpostas para o nosso político-produto – “talento focalizado para resolver problemas qualquer que seja o contexto, espécie de talento que não se adapta a um enraizamento forte”, ou seja, uma figura aérea, pouco palpável, mas plástica o suficiente para vender, durante um curto período eleitoral, uma paixão autoconsumptiva, paixão destinada a ser desperdiçada tão logo consumida nas urnas ou na posse. 

Construção em plataforma

A construção em plataforma é a maneira como diversas fábricas de automóveis usam a mesma “plataforma” básica para carros muito diversos, ou seja, mesmo maquinário interno, mesmo motor, mesmas peças, e deixar que o preço final da mercadoria seja determinado pelo que chamam de “laminação a ouro”, o insuflamento de certas inutilidades estéticas que, por exemplo determinem que o preço do Audi A3 seja quase o triplo de um gol com o mesmo motor.

A Audi pertence à Volkswagem e os carros Audi A3 e Gol 1.8 são idênticos internamente, embora o motor esteja confinado dentro de uma “caixa” diversa e a fiação do carro esteja numa configuração diferente, além é claro dos bancos, carroceria, espaço interno e demais “laminações a ouro” que determinam para o consumidor a “justiça” da diferença no preço. 
 

O “político-produto” é construído em “plataforma”, ou seja, ele é educado para se tornar o que os comentaristas midiáticos do mercado financeiro e seus seguidores chamam de “maduro”. Um político “maduro” é aquele que já se rendeu de antemão aos ditames de infalibilidade, inevitabilidade e naturalidade do mercado, ou seja, diante do quadro de insegurança e incerteza generalizada divulgado pelo aparato midiático como “inevitável” face ao rumo “único” e “racional” da economia e das relações humanas crescentemente privatizadas e mercantilizadas, ele possui “maturidade” para compreender sua total inépcia e descompromisso com qualquer forma de resistência a esse processo.
Um político “maduro” é aquele que já se rendeu de antemão aos ditames de infalibilidade, inevitabilidade e naturalidade do mercado
.A “plataforma” ideológica neoliberal é a mesma para todos os “políticos-produtos”, haja vista a ausência completa de discussão sobre o modelo econômico excludente e pauperizante do neoliberalismo privatizante e terceirizante no debate político “aberto” das emissoras Globo de televisão. Mas, para que se possa diferenciar um “produto-político” de outro, para que se possa subtrair suas “maturidades” mercadológicas homogeneizadas, é necesário criar uma avalanche de “laminações a ouro”. 

Arte-final do Político-produto

Trata-se de dar uma ênfase desmedida na marca (leia-se “partido” ou “discurso político orientado por pesquisas de opinião pública”) tentando fazer com que o produto básico vendido-votado em todo o planeta fique parecendo o único, tratando, para isso, de obscurecer a homogeneidade. 

Sabemos que determinado partido é mais, ou menos, a favor de uma ou outra proposta, que tem uma base histórica ligada a oligarquias ou movimentos sindicais – não que isso venha efetivamente a afetar sua atual “maturidade” diagnosticada pelos gurus do mercado -, por isso ainda há surpresa quando partidos ou representantes de determinados partidos políticos com uma bagagem histórica contestatória do status quo revelam-se tão interessados, tão visceralmente interessados, em alardear aos quatro ventos e defender, mais que à própria honra, sua atual “maturidade” frente ao mercado financeiro internacional.

A surpresa existe porque o processo de “laminagem a ouro”, de fabricação em massa de detalhes e infinidades de sutilezas inócuas e dirigidas por pesquisas de opinião pública efetuadas sobre diferentes nichos eleitorais, é eficiente. Efetivamente acreditamos que haja algo diferente naquele político-produto e o compramos-votamos.

Essas “laminações” são criadas para diferenciar, para tornar heterogêneo aquilo que, em essência, nada mais é que a re-produção em massa de um único pensamento. Essa “laminagem”, que serve de foco único nas campanhas publicitárias-eleitorais, eleva exponencialmente as expectativas dos eleitores criando disputas acirradas entre partidários deste ou daquele “maduro” “político-produto”. 

Paixão de eleição

Essas expectativas, essa verdadeira paixão dos eleitores por determinadas questões pontuais de um programa de governo, por “laminações a ouro” orientadas por pesquisas de mercado-eleitorado, geram uma paixão autoconsumptiva eleitoral. Ou seja, tão rápido quanto é eleito ou empossado, o candidato perde todo o seu valor, todo o seu interesse, todo o seu apelo imagético e renovador na condução da coisa pública.
 

Tão logo eleito, o “político-produto” é (ou sente-se) livre de quaisquer restrições de controle popular sobre suas ações, de quaisquer sanções morais ou éticas, de quaisquer compromissos orientados por pesquisas de mercado-eleitorado, e, finalmente, pode retirar a apática e abúlica máscara ou pó de arroz “blank”, vazio, para poder conjugar sua “maturidade platafórmica” econômica com seus interesses políticos ou financeiros particulares. A paixão eleitoral autoconsumptiva gera, portanto, no eleitor, uma intemperança no momento do consumo-voto e um desperdício impressionante da possibilidade de controle e responsabilidade sobre aquele mesmo voto.
Após a compra-voto do “político-produto”, o consumidor-eleitor se desinteressa do destino de sua mercadoria-candidato
.Contra o sentimento de responsabilidade sobre as ações praticadas por seu “político-produto”, desaparece o prazer na posse daquela mercadoria-voto, ou seja, após a compra-voto do “político-produto”, o consumidor-eleitor se desinteressa do destino de sua mercadoria-candidato e chega mesmo a esquecer o que lhe caberia no lugar de cidadão. 

Imaginação ativa

Resta a força da imaginação como expectativa, para os próximos dois ou quatro anos, afinal de contas, como defende Richard Sennet, intelectual de mercado: “não tem importância que as coisas compradas sejam sempre as mesmas, desde que possamos sentir nossos desejos em movimento”. E as campanhas publicitárias-eleitorais fazem esse papel magistralmente.

Futurologia de mercado eleitoral

É possível, inclusive, tentar fazer uma projeção de médio prazo em relação à interatividade das relações entre mercado publicitário-eleitoral e a pesquisa de nichos eleitorais. Segundo Erving Goffman: “as formas mais sofisticadas de publicidade são ‘quadros semi-acabados’ que convidam o consumidor a participar, completando a paisagem”.

Esses “quadros inacabados”, vistos através da ótica publicitária-eleitoral, poderiam materializar-se como programas de governo disponíveis, por exemplo, na internet não para serem lidos e analisados somente, mas para serem votados, para serem escolhidos por um público-eleitorado que participaria do processo de “laminação a ouro” do seu próprio “político-produto”, fazendo, como algumas montadoras de automóveis já disponibilizam aos que possuem poder aquisitivo a tanto, a personalização do seu próprio político-produto, que vai comportar-se dentro daquele padrão pré-estabelecido satisfazendo publicitariamente interesses reais de seu consumidores-eleitores até que seja comprado-votado.
 

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Renato Kress é brasileiro, poeta, escritor e nasceu no Rio de Janeiro no ano 82. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro 'Consciência', sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro este que começara a escrever dois anos antes. É co-fundador e co-editor da revista eletrônica www.consciencia.net. Atualmente cursa a faculdade de Ciências Sociais na PUC-RJ. Contato por e-mail, clique aqui. Para outros textos do autor, clique aqui.
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