| BRASIL # 27/10/2006
O Político-Produto ------------------------------------------
Personalidade profunda como um cartaz O político-produto funciona como um “outdoor”, como um galhardete ou painel publicitário. O maior desejo do político-produto é manter-se “empregado”, perpetuar-se numa posição de poder e, para isso, ele deve estar eternamente atento às pesquisas eleitorais, principalmente às pesquisas que determinam o perfil do candidato que passaria mais seriedade, competência, sensibilidade para com os problemas do seu eleitorado ou quaisquer outros conceitos ou características que venham a se mostrar mais claros para o político através das próprias pesquisas de mercado eleitoral. Para que possa se vender mais fácil é necessário se amalgamar ou travestir suas propostas, posturas, fisiologia, vestuário, vocabulário, oratória e dados programáticos de campanha a fim de conseguir o maior número possível de eleitores, é indispensável que o político seja ou transforme-se, pessoalmente, em uma pessoa opaca, um vazio, algo como um espaço em branco com a inscrição “espaço publicitário”. Isso faz também com que a imagem desse político, por si só – ou seja, longe de qualquer proposta publicitária –, seja destituído de qualquer carisma, uma placa, um cartaz, simples espaço publicitário-eleitoral onde qualquer tipo de proposta política pareça se acoplar perfeitamente à história pública e privada do candidato, recortada e reestruturada afim de oferecer uma visão parcial e condizente com suas propostas de campanha. Desgaste
da identidade
Político-Zepelin No fundo, espera-se dele apenas que tenha - nas palavras de Richard Sennet sobre o empregado de uma empresa multinacional, mas que acredito que possam ser tranqüilamente transpostas para o nosso político-produto – “talento focalizado para resolver problemas qualquer que seja o contexto, espécie de talento que não se adapta a um enraizamento forte”, ou seja, uma figura aérea, pouco palpável, mas plástica o suficiente para vender, durante um curto período eleitoral, uma paixão autoconsumptiva, paixão destinada a ser desperdiçada tão logo consumida nas urnas ou na posse. Construção em plataforma A construção em plataforma é a maneira como diversas fábricas de automóveis usam a mesma “plataforma” básica para carros muito diversos, ou seja, mesmo maquinário interno, mesmo motor, mesmas peças, e deixar que o preço final da mercadoria seja determinado pelo que chamam de “laminação a ouro”, o insuflamento de certas inutilidades estéticas que, por exemplo determinem que o preço do Audi A3 seja quase o triplo de um gol com o mesmo motor. A Audi
pertence à Volkswagem e os carros Audi A3 e Gol 1.8 são idênticos
internamente, embora o motor esteja confinado dentro de uma “caixa” diversa
e a fiação do carro esteja numa configuração
diferente, além é claro dos bancos, carroceria, espaço
interno e demais “laminações a ouro” que determinam para
o consumidor a “justiça” da diferença no preço.
Arte-final do Político-produto Trata-se de dar uma ênfase desmedida na marca (leia-se “partido” ou “discurso político orientado por pesquisas de opinião pública”) tentando fazer com que o produto básico vendido-votado em todo o planeta fique parecendo o único, tratando, para isso, de obscurecer a homogeneidade. Sabemos que determinado partido é mais, ou menos, a favor de uma ou outra proposta, que tem uma base histórica ligada a oligarquias ou movimentos sindicais – não que isso venha efetivamente a afetar sua atual “maturidade” diagnosticada pelos gurus do mercado -, por isso ainda há surpresa quando partidos ou representantes de determinados partidos políticos com uma bagagem histórica contestatória do status quo revelam-se tão interessados, tão visceralmente interessados, em alardear aos quatro ventos e defender, mais que à própria honra, sua atual “maturidade” frente ao mercado financeiro internacional. A surpresa existe porque o processo de “laminagem a ouro”, de fabricação em massa de detalhes e infinidades de sutilezas inócuas e dirigidas por pesquisas de opinião pública efetuadas sobre diferentes nichos eleitorais, é eficiente. Efetivamente acreditamos que haja algo diferente naquele político-produto e o compramos-votamos. Essas “laminações” são criadas para diferenciar, para tornar heterogêneo aquilo que, em essência, nada mais é que a re-produção em massa de um único pensamento. Essa “laminagem”, que serve de foco único nas campanhas publicitárias-eleitorais, eleva exponencialmente as expectativas dos eleitores criando disputas acirradas entre partidários deste ou daquele “maduro” “político-produto”. Paixão de eleição Essas
expectativas, essa verdadeira paixão dos eleitores por determinadas
questões pontuais de um programa de governo, por “laminações
a ouro” orientadas por pesquisas de mercado-eleitorado, geram uma paixão
autoconsumptiva eleitoral. Ou seja, tão rápido quanto é
eleito ou empossado, o candidato perde todo o seu valor, todo o seu interesse,
todo o seu apelo imagético e renovador na condução
da coisa pública.
Imaginação ativa Resta a força da imaginação como expectativa, para os próximos dois ou quatro anos, afinal de contas, como defende Richard Sennet, intelectual de mercado: “não tem importância que as coisas compradas sejam sempre as mesmas, desde que possamos sentir nossos desejos em movimento”. E as campanhas publicitárias-eleitorais fazem esse papel magistralmente. Futurologia de mercado eleitoral É possível, inclusive, tentar fazer uma projeção de médio prazo em relação à interatividade das relações entre mercado publicitário-eleitoral e a pesquisa de nichos eleitorais. Segundo Erving Goffman: “as formas mais sofisticadas de publicidade são ‘quadros semi-acabados’ que convidam o consumidor a participar, completando a paisagem”. Esses
“quadros inacabados”, vistos através da ótica publicitária-eleitoral,
poderiam materializar-se como programas de governo disponíveis,
por exemplo, na internet não para serem lidos e analisados somente,
mas para serem votados, para serem escolhidos por um público-eleitorado
que participaria do processo de “laminação a ouro” do seu
próprio “político-produto”, fazendo, como algumas montadoras
de automóveis já disponibilizam aos que possuem poder aquisitivo
a tanto, a personalização do seu próprio político-produto,
que vai comportar-se dentro daquele padrão pré-estabelecido
satisfazendo publicitariamente interesses reais de seu consumidores-eleitores
até que seja comprado-votado.
------------------------------------------ ------------------------------------------
|