| ELEIÇÕES
& MÍDIA # 8/10/2006
Estupidez moralista ------------------------------------------
Esses comentaristas sofrem de um desequilíbrio grave. Falta-lhes informação, conhecimento e simples bom senso. E sobra-lhes moralismo pequeno-burguês. Os seguintes exemplos são mencionados: 1. O fato de a grande maioria dos eleitores acreditar que o presidente Lula tem alguma responsabilidade nos diversos escândalos em que seu governo e o PT estiveram envolvidos e, ao mesmo tempo, isso não se refletir no voto. (Não estou dizendo que o presidente da República tenha responsabilidade, por exemplo no dossiegate, mas que a maioria dos eleitores assim acredita.)Vejamos o que acontece com cada um desses exemplos. Antes de passar a eles, convém lembrar que qualquer pesquisa que se faça no Brasil a respeito de tolerância à corrupção resulta em números muito expressivos. O brasileiro condena a corrupção (para os que se lembram de uma recente pesquisa Ibope que foi apresentada com conclusões opostas ao que se está dizendo aqui, ocorre que a interpretação divulgada não se sustentava nos números da própria pesquisa). 1. O caso Lula. Quem condena o eleitor brasileiro por ter votado em Lula mesmo em face de um julgamento moral que lhe é desfavorável pratica um misto de hipocrisia e ignorância. Hipocrisia porque ninguém (nem o eventual leitor, nem este que escreve, nem os comentaristas-moralistas) toma decisões exclusivamente com base em julgamentos morais. Podemos fazer um julgamento moral desfavorável a respeito de alguém ou de uma situação e, ainda assim, decidir desconsiderar esse julgamento em nossos atos. Acontece que entram em jogo outros fatores, e entre tais fatores os mais importantes são os de natureza material. Tenho certeza de que, em muitos momentos da vida, jornalistas que ficam por aí cagando regra na cabeça dos eleitores desconsideraram julgamentos morais desfavoráreis que tinham em relação a subordinados, superiores, fontes, patrões e assim por diante, em nome de alguma obrigação profissional. Por que deveria ser diferente para o eleitor distante, em especial aquele eleitor miserável pernambucano ou baiano, que deu 70% de seus votos para a reeleição do presidente Lula? Para esse sujeito, R$ 50 reais a mais na renda familiar, propiciados pelo Bolsa Família, significa um verdadeiro salto em qualidade de vida. Os números do IBGE mostram isso claramente. É claro que R$ 50 não querem dizer nada para este que escreve, para os que eventualmente lêem, para os comentaristas-moralistas. A desgraça é que esses comentaristas não se dão conta de quão importantes são R$ 50 reais para os eleitores de Lula. 2. O caso Collor. Ora, Collor é o oligarga local das comunicações. Controla todos os principais veículos do estado, da repetidora da Globo ao jornal mais vendido, a uma rede radiofônica. Alagoas, por outro lado, é um estado atrasadíssimo, em que a pobreza campeia e a informação é quase nenhuma. Não se produz quase nada, não se arrecada quase nada. É o nordestão lascado, secularmente subjugado pelo atraso promovido pelos usineiros. O que os comentaristas de Sodoma e Gomorra queriam? Que os eleitores alagoanos se comportassem de acordo como suas fantasias? 3. O caso Maluf. Paulista gosta de ladrão, tanto é que votaram no Maluf. Assim vai o raciocínio de moralistas nacionais e internacionais. Esquecem-se que Maluf foi eleito deputado federal com pouco menos de 740 mil votos, enquanto o total de eleitores que votaram para a Câmara dos Deputados foi de cerca de 24 milhões. Ou seja, os paulistas não “votaram no Maluf”. Votaram em outros. Além disso, quem são os eleitores de Maluf? Resposta: É uma direita que baba no sutiã, cuja visão de mundo reduz-se à proposição de que bandido tem mais é que ser entregue à sanha da violência policial. Não há dúvidas de que esses eleitorado minúsculo também rejeita a corrupção. Mas acha mais importante votar num sujeito que diz que vai colocar a ROTA na rua. 4. Os mensaleiros (os sanguessugas foram majoritariamente rejeitados nas urnas, ou nem se candidataram; aliás, tipicamente, como o caso dos sanguessugas vai contra a “tese” dos comentaristas-moralistas, eles se eximem de levá-lo em consideração). Sabe o eventual leitor a quem se deve a eleição dos mensaleiros? À imprensa, doutores. Sim, pois foram comentaristas políticos, pauteiros, editorialistas, diretores de jornal, apresentadores de shows de rádio etc. que engoliram com casca e tudo a versão absurda de que o dinheiro do valerioduto teria tido como finalidade pagar dívidas de campanhas eleitorais. Lançada a isca, meses e meses se passaram numa discussão completamente imbecil a respeito de financiamento público exclusivo de campanha eleitoral, como se o assunto tivesse alguma coisa a ver com o fato de um deputado desclassificado tomar grana por debaixo do pano de um esquema industrializado de corrupção administrado pelos representantes máximos de um partido político. Assim,
em vez de culparem o eleitor, esses comentaristas deveriam é passar
a exercer o ofício com um pouco mais de competência e deixar
de praticar o jornalismo declaratório que caracteriza a maior parte
da imprensa brasileira (“Fulano disse tal coisa sobre Beltrano. Ouvido
pela reportagem, Beltrano afirmou que Fulano tem não sei qual interesse”).
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