| eleições
2006
A candidatura de oposição e a TV Globo ------------------------------------------
Há, no entanto, uma pequena passagem no livro, às páginas 214 e 215, que ainda não mereceu a atenção dos colegas de Scolese e Nossa na grande mídia. Trata-se da descrição de um encontro ocorrido no auge da crise política, em 20 de julho de 2005, entre os dirigentes do PFL Jorge Bornhausen e José Agripino Maia e o principal executivo das Organizações Globo, João Roberto Marinho. O livro narra que, enquanto o presidente estava em Recife para a aula inaugural do Programa Nacional de Inclusão de Jovens, "os líderes pefelistas e um dos donos da mais poderosa rede de TV da América Latina discutem e projetam os próximos passos do país" (sic). Segue-se então uma descrição pormenorizada da conversa entre os líderes da oposição e o dirigente da Globo. Primeiro, João Roberto Marinho, referindo-se à crise política, afirma que "não vamos livrar a pele de ninguém. Vamos fazer o registro factual e fidedigno de tudo, absolutamente tudo o que for descoberto". Segundo, o executivo da Globo revela seu desencanto com o presidente Lula relatando que, com o desenvolvimento da crise, entre os seus amigos mais próximos, "por incrível que pareça, até ele [um simpatizante do PT] está decepcionado com o que está acontecendo no país". Terceiro, os interlocutores passam a conversar sobre a sucessão presidencial. Cito textualmente: "O dirigente da poderosa TV Globo afirma aos líderes do PFL que um segundo mandato de Lula poderá levar o país a uma situação caótica. E admite que prefere Geraldo Alckmim a José Serra na cabeça de chapa da oposição".
Cobertura
política
O problema começa quando se considera, em primeiro lugar, o envolvimento histórico das Organizações Globo com o processo político e, em particular, com as disputas eleitorais no país, nos últimos anos. São numerosas as situações – desde as eleições para governador no Rio de Janeiro em 1982 até as eleições de Fernando Collor, em 1989 – em que esse envolvimento aconteceu e, tudo indica, teve conseqüências no resultado final. E, em segundo lugar, resta saber até que ponto a posição pessoal do principal dirigente da Globo se confunde com a opinião da empresa – e se isso está interferindo na cobertura política que os veículos sob o seu comando devem fazer da disputa eleitoral, com isenção e sem partidarismo. Pouca atenção
Será que as revelações do livro de Scolese e Nossa, além de nos escancarar a intimidade do presidente da República, nos ajudariam a compreender o que de fato acontece nos bastidores da cobertura política das eleições presidenciais? Pena que
a atenção dos nossos colegas jornalistas ainda não
tenha se voltado para a questão.
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