oriente médio
Jornalismo de dois pesos e duas medidas
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Por Mário Augusto Jakobskind, 29/8/2006, no Observatório da Imprensa


Não resta dúvida que o Oriente Médio é uma área de risco para o exercício do jornalismo, como demonstram os últimos acontecimentos. Que o digam o jornalista Steve Centanni e o cinegrafista Olad Wiig, da rede de televisão americana Fox, que foram libertados no domingo (27/8), na Faixa de Gaza, após 13 dias de seqüestro. Os órgãos de imprensa deram o maior destaque ao fato, como não poderia deixar de ser. Naturalmente, o seqüestro deve ser motivo de repúdio, independente da forma de cobertura parcial, pró-israelense, da Fox.

Mas a mídia de um modo geral silencia em outros casos, como o da jornalista argentina Tamara Lalli, enviada especial da rádio das Mães da Praça de Maio (AM-530) ao Líbano e à Palestina. Ela foi detida pelo Mossad, o serviço secreto de Israel, em uma ponte que une a Cisjordânia a Aman, segundo a entidade das Mães da Praça de Maio. O interrogatório durou seis horas. Os agentes queriam saber o motivo pela qual a emissora que ela trabalha estava cobrindo "tão parcialmente" o conflito. Findo o interrogatório, a jornalista foi deportada para a capital jordaniana.

Como diria Henfil...
Segundo as Mães da Praça de Maio, os agentes disseram expressamente que toda a informação sobre Lalli tinha sido fornecida pela embaixada de Israel na Argentina. E em determinado momento do interrogatório os agentes telefonaram aos familiares da jornalista na Argentina, para, em tom ameaçador, demonstrar que conheciam todas os contatos de Lalli e os seus movimentos.

Tal fato significa uma brutal restrição ao exercício jornalístico e deve merecer o repúdio de todas as entidades representativas da categoria, seja em que país for. O que se deve lamentar também é a cobertura do tipo dois pesos e duas medidas. Enquanto o destaque para os seqüestrados da Fox foi muito grande em todo o mundo, raríssimos foram os jornais que noticiaram o que aconteceu com a jornalista argentina.

É bem provável que os que se dizem "imparciais" devem estar perguntando: mas por que não foi ouvido o "outro lado", ou seja, o governo de Israel, considerado pelos observadores ocidentais como a única democracia da região? Simplesmente pelo fato de ter se tratado de uma operação ilegal e que o "outro lado" simplesmente se nega a reconhecer oficialmente a existência do fato. Soma-se a isso o silêncio da mídia... Ou, como diria o saudoso Henfil, se não deu no New York Times, o que aconteceu não existe.
 

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Mário Augusto Jakobskind é jornalista. Publicado também no Observatório da Imprensa.

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