| questão étnica
A Racialização do Brasil ------------------------------------------
Durante o longo e doloroso período escravista, branco e negro foram sobretudo categorias sociais. Na escravidão, o branco era o proprietário escravizador e o negro o produtor escravizado. Mesmo se o branco possuísse eventualmente uma mais forte afro-descendência do que seu negro. No Brasil, ainda que minoritariamente, o escravista podia ser um africano ou um afro-descendente que se comportava com seu negro como qualquer outro branco. Raça
e classe
Apesar de esforços historiográficos revisionistas, jamais houve solidariedade racial sólida por sobre as determinações de classe. Feitores e capitães-do-mato eram comumente africanos ou afro-descendentes. Os Terços dos Henriques, de oficiais, sub-oficiais e soldados negros, reprimiam quilombolas. A discriminação do cativo por negros e mulatos livres e pobres consolidou a escravidão. As classes dominantes jamais trataram com deferência a escassa população branca que, denominada de chusma, vulgo, ralé, vegetou na miséria. Brancos pobres, mesmo vivendo à margem das vexações do cativeiro, conheceram condições de alimentação, vestuário, etc. inferiores às dos limitados segmentos superiores das classes escravizadas. Não raro, os brancos pobres amalgamaram-se social e racialmente à população livre de origem nativa e africana, enquanto africanos e afro-descendentes ricos se dissolveram entre os euro-descendentes, em restabelecimento permanente da correlação tendencial entre classe social e raça. O que não significa que negros não fossem penalizados e brancos privilegiados quanto à escassa mobilidade social da sociedade de classes do Brasil. Brancos
e negros explorados
A economia colonial-camponesa apoiou-se no trabalhado familiar, não explorou ninguém e foi duramente explorada, sobretudo pelo capital comercial. A proposta do colono enriquecido no trabalho colonial é apologia classista e racista. A família colonial-camponesa trabalhou duramente sobretudo para manter-se. Nas beiras das estradas e acampamentos dos sem-terra do sul e do oeste do Brasil confundem-se cabeças loiras e negras em depoimento incontestável de situação social que não exclui ninguém, ainda que privilegie negativamente os afro-descendentes, sobrecarregados pelos fardos herdados da escravidão – fragilidade familiar, baixa escolaridade, baixa instrução, racismo, etc. A industrialização do Brasil apoiou-se também na exploração do operário de origem européia, que conheceu a repressão política e social e salários miseráveis. Essa população foi e continua sendo explorada, jamais tendo explorado alguém. A super-exploração do operariado negro é estratégia do capital para obter compressão geral do salário que golpeia toda a classe operária. Zumbi como
herói do trabalho
A proposta etnicista do ensino da “cultura e da história negra” nas escolas abre lugar para que as diversas etnias nacionais – nativos, alemães, italianos, poloneses, etc. – exijam igualmente o ensino de suas culturas, histórias, tradições singulares, em dissolução do princípio de sociedade e de cultura nacional, solidária na sua diversidade, baseada no trabalho, instância unificadora da experiência humana. Tal proposta resulta paradoxalmente no apequenamento e folclorização do passado afro-escravista, alicerce da nação brasileira. Reduz o cativo africano a mero ancestral do afro-brasileiro, negando seu status objetivo de ancestral sociológico de todo o brasileiro que se encontro subjetiva ou objetivamente no campo do trabalho, independente de sua origem étnica. Não se trata de macaquear o etnicismo estadunidense, combatendo inutilmente o racismo com o convencimento do outro do valor de minha cultura. Não foram a música, o carnaval, o candomblé, etc., mas o trabalho e a luta pela liberdade, as contribuições centrais do negro cativo ao Brasil, como já proposto por Manuel Querino na pós-Abolição. Temos é que exigir que a cultura de classe reconheça a escravidão negra como a grande experiência demiúrgica da nacionalidade brasileira. As cores
do Brasil
Nessa estranha adição, um brasileiro com três avós europeus e um afro-descendente é contado estatisticamente como negro. O que enseja a fusão de nacionais com forte afro-descendência, objetos da violência racista, e outros que, conforme a região e, sobretudo, a situação social, se têm e são em geral tidos socialmente como brancos. Essa estranha matemática obriga os defensores da racialização do Brasil a propor que o pertencimento a uma comunidade étnica seja auto-definido. Kabegele Munanga propõe: “Se um garoto, aparentemente branco, declara-se como negro e reivindicar seus direitos, num caso relacionado com as cotas, não há como contestar.” Proposta que, no interior da própria lógica etnicista, descrimina os verdadeiros discriminados, de forte ascendência africana, reais objetos do racismo. Os dois extremos sociais brasileiros são os muito ricos e os muito pobres, constituídos, majoritária mas não exclusivamente, por brancos e negros. A grande população é formada por brancos, negros, amarelos e mestiços, de origens nacionais diversas, em geral sem referências étnicas. Um mundo regido pelas diferenças de classe onde um patrão branco ou negro não concede qualquer privilégio ao trabalhador, por ser branco, ainda que o super-explore, por ser negro. Direitos
para todos
A defesa de identidade racial por sobre os interesses de classe propõe como conquista dos segmentos oprimidos a promoção a privilegiados de membros de seu grupo étnico. Idéia interessante para os promovidos mas sem sentido para os excluídos. Não se trata de esperar que o bolo cresça, para dividi-lo, nem reparti-lo melhor entre os poucos sentados à mesa, deixando a maioria olhando a festa pela janela. Por além da retórica etnicista, dobrar o salário mínimo, punir o trabalho informal, expandir o emprego, garantir o direito à saúde, educação, segurança, etc., são as únicas conquistas capazes de promover geral e substancialmente os imensos setores reduzidos a mais dura exploração, sejam afro-descendentes ou não. Conquistas como salário, emprego, educação, saúde, habitação, lazer, etc, para todos, não englobam automaticamente a necessária luta contra o racismo, mas são a única base possível de emancipação dos grandes setores afro-descendentes empobrecidos, que não podem prosseguir por mais um século na marginalização, tendo como único consolo que, entre os privilegiados, haverá, agora, alguns afro-descendentes a mais. Leia também ------------------------------------------
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