propaganda enganosa
Campanha esconde agressões da Aracruz
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DivulgaçãoQuilombolas, indígenas e camponeses do Espírito Santo escrevem nota de repúdio a Pelé, Gilberto Gil, Daiane dos Santos e outras personalidades por participarem do comercial da transnacional. Por Marcelo Netto Rodrigues, do jornal Brasil de Fato, 21/6/2006


Quilombolas, indígenas e pequenos agricultores do Espírito Santo, vítimas da Aracruz Celulose no Estado, estão redigindo uma nota de repúdio à peça publicitária que a transnacional do "eucalipto" tem veiculado entre os jogos da Copa do Mundo. O texto será mandado às sete personalidades que participam da propaganda e ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, que cedeu os direitos de sua música "Balé de Berlim" à agência W/Brasil, responsável pela criação.

No comercial, Pelé, a ginasta Daiane dos Santos, o cantor Seu Jorge, o astronauta Marcos Pontes, o boxeador Popó, o técnico Bernardinho e o iatista Robert Scheidt mostram sua intimidade com a bola, sob o slogan "Fazendo um bonito papel no mundo inteiro". De acordo com as lideranças sociais, a propaganda, enganosa, visa esconder as agressões que a empresa pratica contra comunidades tradicionais, assim como contra o meio ambiente.

O manifesto, redigido em conjunto pelos quilombolas, indígenas e camponeses, virá acompanhado de fotos que mostram indígenas capixabas feridos, expulsos de sua terra, em ação de despejo efetuada pela Polícia Federal e tratores da Aracruz, no início do ano. O documento, que deve ter como porta-vozes artistas e esportistas de renome, conta com o apoio da Rede Alerta Contra o Deserto Verde – grupo formado por cerca de 100 entidades com o objetivo de frear a expansão da monocultura do eucalipto no Espírito Santo, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Rei dos negros

"É inaceitável que negros com fama internacional ajudem a vender a imagem da Aracruz Celulose, empresa que tomou os territórios dos descendentes de escravos no norte capixaba", diz Domingos Firmiano dos Santos, liderança quilombola de Sapê do Norte, que denuncia que até mesmo os cemitérios onde os escravos estavam enterrados foram cobertos de eucalipto pela Aracruz. "O que mais assusta é que o mesmo ministério que reconhece as comunidades quilombolas, através da Fundação Palmares, também tem um papel indireto, com Gilberto Gil, no comercial".

Outra liderança quilombola, Kátia Santos Penha, comenta a participação do "rei do futebol" no comercial, que se utiliza de três personalidades negras: "O Pelé nunca se declarou como negro. Ele não nos representa. O título que ele ostenta foi dado pelos brancos e pela mídia. Ele pode ser o rei do futebol, mas nunca será o rei dos negros".

Em tempo, Pelé foi homenageado pelo rei da Noruega recentemente. Coincidências à parte, o rei nórdico é cunhado do maior acionista da Aracruz, proprietário de 28% da empresa, vindo logo seguido pelo Banco Safra, também com 28% e pela Votorantim, com outros 28%. O restante fica com um órgão ligado ao governo federal, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com 12,5% e com a Souza Cruz, detentora de um percentual menor.

No banco dos réus

A imagem da Aracruz Celulose anda arranhada na Europa. Em maio, a empresa foi condenada por ações violentas contra quilombolas, indígenas e sem-terra, durante o Tribunal Permanente dos Povos, realizado na Áustria. Além disso, a transnacional também tem tido de lidar com a repercussão negativa gerada pela presença de indígenas brasileiros que têm denunciado a Aracruz em vários fóruns europeus. 

As lideranças indígenas informaram ao público do velho continente que a empresa não só já destruiu cerca de 50 mil hectares de Mata Atlântica para plantar eucalipto, como tem tomado as suas terras, a dos quilombolas e a dos camponeses. Só no Espírito Santo, cerca de 50 mil hectares de território quilombola estão nas mãos da empresa. 

Uma juíza federal determinou que a Caixa Estadual, o Estado do Rio Grande do Sul e o BNDES (por coincidência, também acionista da Aracruz Celulose) suspendam qualquer propaganda que dê um enfoque estritamente positivo do plantio de monoculturas de árvores. A decisão foi motivada por ação civil pública de entidades ambientalistas, com o argumento de que a publicidade do governo firma a convicção de que somente existem vantagens nas monoculturas de eucalipto. O governo tem divulgado o seu programa de crédito para o plantio de eucalipto sem abordar qualquer desvantagem ou perigo sócio-ambiental causado pelo plantio.
 
 

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