música & poesia
Selo Karmim lança disco em comemoração aos 80 anos de Thiago de Mello
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Por Bruno Ribeiro, maio de 2006


Thiago de Mello / Imagem: UTRAMIGO poeta Thiago de Mello, pilar da poesia social brasileira, completou 80 anos de vida no mês de março. A data passaria despercebida não fosse o lançamento, pelo selo Karmim, do CD comemorativo A Criação do Mundo, registro fundamental dos mais belos e importantes poemas que o autor amazonense produziu nos últimos 55 anos. Declamados pelo próprio Thiago de Mello, as palavras ganham, neste trabalho, fundo musical do irmão, o musicista Gaudêncio de Mello, além de encarte assinado pelo amigo Adriano Alves. Dentre os poemas presentes na obra estão A Vida Verdadeira, Volto Armado de Amor, A Boca da Noite, Chile e Os Estatutos do Homem.

Discos de poesia falada são raros por si só. Mas A Criação do Mundo, além de pontuar uma data especial, marca também o retorno do poeta ao disco. Sua última experiência nesta linha ocorrera em 1992. Depois do sexto disco, Thiago lançou o livro De Uma Vez Por Todas, em 1996, e declarou que não mais publicaria livros de poesia. “Não publicarei, mas a poesia não me abandonará”, emendou, em entrevista concedida ao também poeta Fabrício Carpinejar. A promessa não tardou a ser quebrada. Poucos anos depois surge Campo de Milagres, livro que dá ao poeta seu segundo Prêmio Jabuti.

O CD A Criação do Mundo é obrigatório para quem gosta de poesia. E, sobretudo, para quem gosta de ouvir poesia. Declamados pelo próprio autor, os poemas ganham sua real dimensão — que em Thiago de Mello é continental, amazônica, grandiosa.

Se qualquer tentativa de síntese da obra do poeta irá esbarrar na injustiça da escolha pessoal, a seleção que integra o disco (feita pelo poeta e pela produtora Carminha Guerra) dá uma idéia geral do viés mais engajado de seu testemunho escrito. Inicialmente seriam gravados 20 poemas. A emoção no estúdio acabou levando aos 32. Os destaques são os inéditos Amor Sem Fim (dedicado à sua mãe, Dona Maria), A Lição das Águas (ao filho Manduka) e A Criação do Mundo (interpretado pelo jornalista Armando Nogueira).

Thiago de Mello por Mauricio Castelo BrancoThiago de Mello nasceu em 1926. Artista identificado com a cultura do Amazonas, morou em vários países — Argentina, Chile, Portugal, França, Alemanha — mas, terminada a ditadura no Brasil, optou por voltar à pequena Barreirinhas, cidade amazônica de sua infância, onde vive até hoje.

Preso e torturado pelo regime militar, exilou-se no Chile. Lá conheceu Pablo Neruda, de quem se tornaria amigo e tradutor. A época de repressão generalizada pela América do Sul acentuou-lhe a revolta poética e seu já apurado senso de justiça. Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida, o livro, rendeu-lhe, em 1975, o Prêmio de Poesia concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e apresentou-lhe internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos Direitos Humanos.

Aos 80 anos, Thiago de Mello é reconhecido, sobretudo nos países latino-americanos, como um dos maiores nomes vivos da poesia de caráter social. Sua obra está repleta de livros engajados, cujos poemas tomam declaradamente o partido dos pobres e dos oprimidos do mundo: Faz Escuro Mas Eu Canto (1968), Os Estatutos do Homem (1973) e Canto do Amor Armado (1975) - só para citar os três trabalhos mais populares e traduzidos de sua bibliografia. Campo de Milagres (1998) trouxe com força a preocupação ecológica em sua poética.

“Para fazer algo em defesa da humanidade é preciso, em primeiro lugar, que cada um de nós faça alguma coisa por este planeta tão degradado; a Terra flutua no espaço como um pássaro em extinção”, declarou o poeta, na ocasião do lançamento do CD, em São Paulo. Thiago de Mello joga no time dos que Bertold Brecht classificou de “imprescindíveis”. O CD A Criação do Mundo celebra o ponto mais alto da carreira de um poeta comprometido com o Brasil e com a humanidade.
 

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Saiba mais: http://www.revista.agulha.nom.br/tmello.html

Bruno Ribeiro é jornalista e escritor. Torcedor do glorioso São Cristóvão Futebol Clube, não deu certo como ponta-esquerda, não deu certo como poeta maldito, não deu certo como compositor de samba. Foi ser jornalista e escrever sobre os bares de Campinas. Segue o lema de Maiakóvsky: também acha preferível morrer de vodca a morrer de tédio. Há algum tempo é editor da seção de Artes da Revista Consciência.Net. Contato: bruno@rac.com.br


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