especial
Raízes do Cristianismo
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Por Renato Kress, co-editor da Revista Consciência.Net


O vírus da ‘boa nova’.
Imagem: Misticosofia.com.mxCreiam ou não Jesus não morreu como um Pop-Star. Em sua gênese o cristianismo era só mais uma dentre as várias doutrinas religiosas orientais. Nascida no seio da religião judaica que, como todas as religiões antigas, era nacional ou própria a uma população em particular, ele trazia, contudo, uma perspectiva completamente nova: a idéia de evangelização, a possibilidade de espalhar a ‘boa nova’ para o mundo inteiro, a fim de converter os não-cristãos e tornar-se universal. Não era, como o judaísmo, uma religião de um “povo eleito”, ou pertencente a uma cultura em especial, como a religião egípcia ou grega, hoje denominadas mitologias. 

É plausível, e pensadores como Nietzsche e Deleuze o fizeram, estudar a história da religião católica como uma religião excludente, uma religião que exclui a diversidade em nome de uma identidade absoluta e única com o Divino, mas essa leitura vai ser mais comentada ao longo do texto e dos textos que virão a partir daí. Quero me ater aqui à formação da estrutura filosófica da doutrina cristã.

Destruindo culturas
Era uma tarefa complicada converter a uma nova religião membros de outras religiões mais antigas, que se baseavam no peso da tradição, no que Durkheim definira como o ‘poder dos mortos sobre os vivos’. Esse sentido próprio que explica a vida tal qual ela se apresenta a cada membro de determinada comunidade, sentido que se forma na passagem e na memória do passado comum de um povo: tradição, folclore, mitos, história e cultura deveriam ser ignorados, mesclados, enfraquecidos ou destruídos em nome da ‘boa nova’.

Filosofando (enrolando) para agregar
Levando em conta as condições e a mentalidade dos que deveriam ser convertidos, muitos foram os expedientes adotados na tarefa. Seria interessante salientar explicitamente a maneira pela qual o cristianismo, como “religião de um povo escravo”, pôde ser assimilado por seus senhores, os intelectuais gregos e romanos. Estes intelectuais não apenas se formaram em diversas religiões advindas de raízes estranhas ao tronco religioso judaico, como também haviam sido educados na tradição racionalista da filosofia. Para convertê-los seria necessário mostrar a superioridade da verdade cristã sobre a tradição filosófica, assim os primeiros padres da Igreja ou os primeiros intelectuais cristãos – São Paulo, São João, Santo Ambrósio, Santo Eusébio, Santo Agostinho entre outros – adaptaram as idéias filosóficas à religião cristã e fizeram surgir uma forma de ‘filosofia cristã’. Os grandes intelectuais católicos à época limitaram-se a pegar correntes filosóficas tradicionais e “vesti-las” sobre os dogmas católicos.

Foi o desejo de converter os intelectuais gregos e os chefes imperadores romanos (isto é, aqueles que estavam acostumados à filosofia) que fez nascer entre os cristãos o interesse pela metafísica. A conversão, compreendida e efetuada como não aceitação do “diferente”, na medida em que só preocupava-se em fazer do fiel a imagem e semelhança do pregador, é o início do fundamentalismo católico.

“Santos Graais” e outras “Pedras fundamentais” encontradas pelo caminho.
As duas grandes tradições metafísicas incorporadas pelo cristianismo foram o platonismo e o aristotelismo, no entanto o caminho para que os intelectuais cristãos pudessem chegar às obras de Platão e Aristóteles não foi exatamente o que chamaríamos de ‘trajetória retilínea uniforme’, muito longe disso.

As obras de Platão e Aristóteles permaneceram perdidas durante muitos séculos e, antes de travar contato com elas e, de certa forma, incorporá-las, o cristianismo tomou contato com três outras tradições metafísicas que formaram, em conjunto e com os seus devidos ‘cortes’, o conteúdo das primeiras elaborações metafísicas cristãs: o neoplatonismo, o estoicismo e o gnosticismo.

A princípio vamos nos ater a essas correntes doutrinárias, a história de suas evoluções vai ter que esperar um próximo artigo.

Neoplatonismo: Tratava-se de uma fusão da filosofia de Platão com doutrinas clássicas religiosas, pitagóricas e outras, originada por Plotino em suas Enéades. O Filósofo Plotino concebia o universo como uma emanação ou fulguração do Uno, o Bem onipresente e transcendental derivado do Parmênides de Platão, mas com um conteúdo espiritualista e místico. O Uno dá lugar ao domínio do nous (idéias, inteligência), que por sua vez dá lugar à alma, ou almas, algumas das quais descem aos corpos (enquanto outras permanecem celestiais).

Em Alexandria nasceu uma mistura de elementos neoplatônicos e cristãos, cuja forma mais desenvolvida se encontra em Boécio. Os neoplatônicos afirmavam a existência de três realidades distintas por essência: o mundo sensível, da matéria ou dos corpos, o mundo inteligível das puras formas imateriais, e, acima desses dois mundos, uma realidade suprema, separada de todo o resto, inalcançável pelo intelecto humano, luz pura e esplendor imaterial, o Uno ou o Bem. Por ser uma luz o Uno se irradia. Essa irradiação, que os neoplatônicos denominavam ‘emanação’, formou o mundo inteligível, onde estão o Ser, a Inteligência e a Alma do Mundo.

Contudo o Deus dos neoplatônicos acaba por ser excessivamente distante em relação ao mundo para poder servir de forma satisfatória como Deus do judaísmo, do cristianismo ou do islamismo. O Deus neoplatônico é como um lago que, sendo a fonte de um rio, está no entanto separado dele pelas inúmeras quedas d´água intermediárias. Não é acessível pela oração, não se interessa nem remotamente pelo que se passa abaixo dele, e sequer toma conhecimento disso.

Essa leitura causou grande complicação para a definição da escolástica quando os intelectuais católicos se viram forçados a defender um conceito de Deus que, apesar de completamente auto-suficiente, não fosse de todo absorto em si mesmo. Para os que curtem paralelos religiosos temos aí um paralelo claro com a trindade hindu: Bhrama, Vishnu e Shiva, onde a primeira divindade, superior às demais, não pode ser alcançada, vislumbrada ou compreendida a não ser através do intermédio das outras duas divindades que servem como filtros e mostram facetas, ou interpretações diversas do mesmo Bhrama que é o que se vê através de Vishnu e é o que se vê também através de Shiva, mas é também sempre algo além e diferente disso.

Dessas primeiras emanações perfeitas seguiram outras mais afastadas do Uno e, por isso, imperfeitas: o mundo sensível da matéria, imagem decaída ou cópia imperfeita do mundo inteligível. Por seu intelecto o homem participa do mundo inteligível. Purificando-se da matéria de seu corpo, desenvolvendo seu intelecto, o homem pode subir além do pensamento e ter o êxtase místico, pelo qual se funde com a luz do Uno e retorna ao seio da realidade suprema ou do Bem.

O que o cristianismo tomou do neoplatonismo: 

  • A separação entre material-corporal e espiritual-incorporal;
  • A separação entre o Deus-Uno e o mundo material e diversificado;
  • Transformou a primeira emanação neoplatônica (Ser, Inteligência, Alma do Mundo) em uma Trindade divina, pela afirmação de que o Deus-Uno se manifesta em três emanações idênticas a ele próprio: O Ser, que é o Pai, A Inteligência, que é o Espírito Santo, e a Alma do Mundo, que é o Filho; (essa questão foi tomada, incorporada, aceita e, hoje em dia, causa náuseas a diversos teólogos quando se esmeram em tentar explicá-la)
  • Afirmou que há uma segunda emanação, ou uma segunda forma de emanação, aquela que vem da luz da Trindade e que forma o mundo inteligível das puras formas ou inteligências imateriais perfeitas, que são os anjos, arcanjos, querubins, serafins, etc; Adaptou a perspectiva platônica à tradição religiosa judaica, quando o cristianismo afirma que o mundo sensível ou material não é uma emanação de Deus, mas uma Criação: Deus haveria feito o mundo do nada, como diz a Bíblia no Gênesis;
  • Admite que a alma humana participa da divindade, mas não diretamente e sim pela mediação do Filho e do Espírito Santo, e que o conhecimento intelectual não é suficiente para levar ao êxtase místico e ao contato com Deus, sendo necessária a Graça Santificante, que o crente recebe por um Mistério Divino.


Estoicismo: Filosofia lógica, física e moral unificada, batizada em nome do stoa poikilê, o pórtico pintado de Atenas, local onde a doutrina estóica era ensinada. O primeiro estóico conhecido foi Zenão de Cicio, que fundou a escola por volta de 300a.C. O estoicismo do último período foi romano, e Epicteto, Sêneca e o imperador Marco Aurélio foram alguns dos seus membros mais ilustres.

A epistemologia estóica baseava-se na phantasia kataleptikê ou percepção apreensiva, que defendia que, para que possa ser verídica, uma percepção tem de obedecer a certas condições (clareza, assentimento comum, probabilidade e sistema), que foram atacadas de diversas maneiras por seus oponentes, os céticos. Segundo a cosmologia dos estóicos, firmemente determinista e ordenada, o curso eterno das coisas passa por ciclos criativos regressivos, obedecendo ao ‘princípio criativo’ ou logos spermatikos.

O ponto crucial da filosofia estóica era uma ética do consolo através da identificação com a ordem moral imparcial e inevitável do universo. É uma ética da serenidade auto-suficiente e benevolente, em que a paz do homem sábio o deixa indiferente à pobreza, à dor e à morte, assemelhando-se, assim, à paz celestial de Deus. Tal força de caráter e indiferença podem parecer sublimes mas soam muito mais fortemente, a meu ver, como pura insensibilidade. Ao estar acima de tudo e de todos o estóico é também menos ‘humano’, a procura da indiferença primordial pode tornar-se uma celebração da apatia universal.

Embora muito diferente do neoplatonismo, pois negava a existência de realidades separadas e superiores ao mundo sensível, também deixou marcas no pensamento cristão. Os estóicos afirmavam a existência de uma Razão Universal ou Inteligência Universal, que produz e governa toda a realidade, de acordo com o plano racional necessário, a que davam o nome de Providência. O homem, embora impulsionado por instintos como os animais, participa da razão universal porque possui razão e vontade. 

A participação na racionalidade universal não se dá pelo simples conhecimento intelectual, mas pela ação moral, pela renúncia a todos os instintos, pelo domínio voluntário e racional de todos os desejos e pela aceitação da Providência. É um grande silogismo: se a Razão Universal é a Natureza e a Providência é o conjunto das leis necessárias que regem a Natureza, então a ação racional humana – própria dos sábios – é a vida em conformidade com a Natureza e com a Providência. Futuramente Nietzsche vai criticar este ponto específico do cristianismo adotando a perspectiva de que a religião cristã é uma ‘religião do escravo’, uma religião que tem em seu cerne a idéia de aceitação do destino, de fraqueza do espírito, de ausência da vontade de potência. 

Os pontos doutrinários herdados do estoicismo:

  • A idéia de uma Providência divina e racional, que governa todas as coisas e o homem;
  • A noção de que a perfeição humana depende de abandonar todos os apetites, impulsos e desejos corporais ou carnais, entregando-se à Providência. Essa entrega, porém, não é como pensavam os estóicos, uma ação deliberada de nossa vontade guiada pela razão, mas exige como condição a fé em Cristo e a graça santificante;


Gnosticismo: Doutrina partilhada por diversas seitas que ganhou destaque por volta do século II, na qual se mesclam elementos cristãos e pagãos. Atribui-se importância central 
à ‘gnose’, um conhecimento revelado, mas secreto (revelado a poucos, a ‘escolhidos’), sobre Deus e sua Natureza, que permite que aqueles que o possuem atinjam a salvação. O mundo material é associado, tal como no maniqueísmo, ao Mal, mas em alguns homens existe um elemento espiritual que, através do conhecimento e dos rituais associados, pode ser salvo do Mal e atingir um estado espiritual mais elevado.

Segundo os gnósticos Cristo nunca esteve de fato num corpo, nem morreu, estando em vez disso remotamente ligado com o que apareceu aos discípulos. Constituía-se principalmente da idéia de um dualismo metafísico, afirmava a existência de dois princípios supremos de onde provinha toda a realidade: o Bem, ou a luz imaterial, e o Mal, ou a treva material.

Para os gnósticos, o mundo natural ou o mundo sensível é resultado da vitória do Mal sobre o Bem e por isso afirmam que a salvação estava em libertar-se da matéria (do corpo), através do conhecimento intelectual e do êxtase místico. Gnosticismo vem da palavra grega gnosis, que significa conhecimento. Para os gnósticos o conhecimento intelectual pode, por si mesmo, alcançar a verdade plena e total do Bem e afastar os poderes materiais do Mal.

Apesar de ter sido considerado uma heresia e por isso rejeitado em sua maior parte, o gnosticismo deixou algumas marcas sobre o ‘espírito’ do cristianismo:

  • A idéia de que o Mal existe realmente. Posteriormente esse mal foi identificado e corporificado na figura do ‘Demônio’, que, além de ser uma transposição do que quer que fosse “errado”, “feio”, “impuro”, “grotesco”, “cruel”, “mundano” para figuras muito comuns nos panteões de outras religiões como Pã, Garuda, Vishnu, etc, possui interpretações dúbias por toda a historiografia cristã;
  • A crença de que a matéria (a carne) é o centro onde o demônio, isto é, o Mal, age sobre o mundo e sobre o homem.
  • A noção de que a negação da carne é “o” caminho, “o” porque único, para a Luz, o Bem, a Salvação.


Alguns séculos mais tarde o cristianismo tomou conhecimento de algumas obras de Platão e Aristóteles que haviam sido conservadas e traduzidas por filósofos Árabes como Averróis, Avicena e Alfarabi e comentadas por filósofos judeus como Filon de Alexandria e Maimônides. Reunindo essas obras e as elaborações precedentes, baseadas nas três tradições mencionadas, o cristianismo reorganizou a metafísica grega, adaptando-a às necessidades de pregação e conversão da “boa nova” cristã.
 

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Matéria publicada em maio de 2006.

Renato César da Costa Kress é brasileiro, poeta, escritor e nasceu no Rio de Janeiro no ano 82. Concluiu seus estudos secundários no Colégio Cruzeiro - Deutsche Schule. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro Consciência, sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro este que começara a escrever dois anos antes. É co-fundador e co-editor da revista eletrônica www.consciencia.net, e membro do I-Latina.org (www.i-latina.org). Atualmente cursa a faculdade de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Contato por e-mail, clique aqui. Para outros textos do autor, clique aqui.


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A religião cristã precisava da filosofia cristã?
É possível dizer que o cristianismo, na forma como se apresentavam e eram compreendidas as religiões à época de sua fundação, não precisava uma filosofia ao menos por três motivos basilares:

1. Como uma religião da salvação, seu interesse maior estava na moral, na prática dos preceitos virtuosos deixados por Jesus – dentre os quais amar e aceitar o próximo tal qual ele se apresenta -, não necessitava de uma teoria sobre a realidade;

2. Sendo uma religião nascida da tradição judaica e tendo incorporado esta tradição, o cristianismo já possuía uma idéia muito clara sobre o que era o Ser, pois Deus disse a Moisés: ‘Eu sou aquele que é, foi e será. Eu sou aquele que sou.’ Como doutrina religiosa o cristianismo dispensava a ontologia.

3. Dentro da forma com que se apresentavam as religiões o interesse maior estava calcado principal e primordialmente na idéia de ‘revelação’ e não na proposta de ‘reflexão’. A reflexão religiosa nasce a partir da reflexão sobre a palavra divina e não na reflexão acerca do mundo terreno e seus problemas.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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o cristianismo tomou do neoplatonismo a separação entre material-corporal e espiritual-incorporal

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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apesar de ter sido considerado uma heresia e por isso rejeitado em sua maior parte, o gnosticismo deixou algumas marcas sobre o ‘espírito’ do cristianismo