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Escândalo seletivo ------------------------------------------
Um ato de violência escandaliza, uma rotina de violência banaliza. A rotina da miséria brasileira acaba se integrando no cotidiano, funde-se com a paisagem e desaparece no nosso relativismo moral. É lamentável, e lamentada em todos os discursos e programas de governo, mas não é aterrorizante, pois quem pode viver em estado permanente de horror? E, no entanto, só o que diferencia a violência de uma invasão de terras da violência constante, rotineira, banalizada que a situação fundiária do país impõe aos sem-terras é o tempo. Uma é uma quebra de normalidade, a outra é a normalidade. As duas são reprováveis, mas a segunda é absolvida pela indiferença. Não tem o mesmo efeito espetacular, o mesmo horror concentrado. Isto não
é uma justificativa para atos de violência como alguns praticados
pelos que lutam pela reforma agrária, mesmo porque a violência
sempre acaba favorecendo a reação. É só um
comentário sobre o escândalo seletivo de quem demoniza os
sem-terras mas não se horroriza com a violência diária,
antiga, arraigada nos seus costumes e valores, praticada pela sociedade
mais injusta do mundo. Ou só se horroriza com a retribuição.
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