idéias
Ninguém está em casa no mundo de hoje
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Um dos principais teóricos da globalização, Zygmunt Bauman mostra que por trás da crescente sensação de insegurança do homem contemporâneo há uma idéia utópica de comunidade protegida dos perigos. Por Cristiane Costa, editora do caderno ‘Idéias’ (Jornal do Brasil), em 22/3/2004


O medo que você hoje sente não é à toa. Guerra, violência, desemprego, ansiedade e angústia, tudo isso faz parte de um sistema global que opera sob tensão entre dois pólos. De um lado a valorização da liberdade e o respeito à individualidade. De outro, a busca por segurança e uma vida baseada em valores comunitários. Qualquer pessoa que já tenha morado numa vila, aldeia ou cidade pequena e depois vivido a experiência tão libertadora quanto assustadora de tornar-se anônimo numa cidade grande sabe que esses dois lados são complementares, mas incompatíveis. “Não seremos humanos sem segurança ou sem liberdade; mas não podemos ter as duas ao mesmo tempo e ambas na quantidade que quisermos”, reflete o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em seu novo livro, Comunidade: a busca por segurança no mundo atual.

Bastante conhecido no Brasil, onde tem sete livros publicados, entre eles Em busca da política, O mal-estar da pós-modernidade e o clássico Modernidade e holocausto, Bauman é um dos principais teóricos da globalização. Com grandes vantagens em relação aos concorrentes: o humanismo nato que o leva a investigar sempre as conseqüências para o sujeito comum de toda e qualquer mudança macroeconômica ou social provogada pelos grandes fluxos de capital, um antimaniqueísmo intrínseco que o afasta de dogmas ideológicos ou teóricos e o transforma em observador privilegiado do momento, a escolha de temas que refletem as angústias e ambivalências de todos nós e, acima de tudo, uma vontade absoluta de falar para qualquer leitor, treinado ou não nos jargões da globalização, com um texto claro, preciso e inteligente.

Em seu novo livro, o professor emérito das universidades de Leeds, na Inglaterra, e de Varsóvia, na sua Polônia natal, aprofunda uma tese já esboçada no anterior, Em busca da política. A de que “a ordem global precisa de muita desordem local” para se manter. Daí essa sensação crescente de insegurança que a globalização provoca nos cidadãos. Sem ela, o império (no novo sentido do termo cunhado por Antonio Negri) desmorona. A uma existência insegura, de perspectiva incerta, Bauman diz que o modelo global contrapõe uma utopia, a da comunidade, este “novo nome para o paraíso perdido”. Subúrbios verdejantes, condomínios cercados, carros blindados de vidros pretos, lugares públicos vigiados 24 horas por dia por câmeras de vídeo fazem parte de um projeto coletivo de criar um mundo fechado, sem estranhos, sem contaminar-se pelo outro. Mas há um preço a se pagar por esse privilégio.

“Você quer segurança? Então abra mão de sua liberdade, ou pelo menos de boa parte dela. Você quer poder confiar? Não confie em ninguém de fora da comunidade. Você quer entendimento mútuo? Não fale com estranhos, nem fale línguas estrangeiras. Você quer essa sensação aconchegante de lar? Ponha alarmes em sua porta e câmeras de tevê no acesso. Você quer proteção? Não acolha estranhos e abstenha-se de agir de modo esquisito ou de ter pensamentos bizarros. Você quer aconchego? Não chegue perto da janela, e jamais a abra. O nó da questão é que se você seguir esse conselho e mantiver as janelas fechadas, o ambiente logo ficará abafado e, no limite, opressivo”, avisa Bauman. Se as novas elites globais podem se isolar em “comunidades-bolha” e recolher as pontes levadiças, ao resto da população só restaria viver todos os riscos daquela que um dia ainda será chamada a Era da Insegurança.

Mas a grande novidade do livro é mostrar que, quanto maior a ênfase na segurança de um mundo dividido entre nós e os outros, maior a sensação de risco. “A comunidade realmente existente será diferente da de seus sonhos - mais semelhante a seu contrário: aumentará seus temores e insegurança em vez de diluí-los ou deixá-los de lado. Exigirá vigilância 24 horas por dia e a afiação diária das espadas, para a luta, dia sim, dia não, para manter os estranhos fora dos muros e para caçar os vira-casacas de seu próprio meio”, já advertia Bauman neste livro finalizado em março de 2000, exatos três anos antes de que os Estados Unidos se lançassem numa guerra preventiva contra o Iraque. A utopia de uma comunidade segura tem um alto custo. E ele é pago pela sociedade com o redirecionamento dos investimentos em educação, saúde, trabalho e previdência social para armas e presídios. Por que mundo ficou tão perigoso?


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