"Como
será nossa vida na aposentadoria? Que futuro nossos filhos terão?
Como serão meus netos? Como estará o mercado de trabalho
daqui a quatro anos, quando minha filha se formar? Quantas vezes questionamos
o futuro? O que não questionamos é a certeza de que temos
futuro. A forte barreira social constantemente nubla nossa visão.
Não conseguimos enxergar o abismo que separa uma parcela significativa
da população brasileira de qualquer aspecto mais elementar
de cidadania, inclusive o de ter futuro. As recentes reportagens sobre
a prostituição infantil e sobre o envolvimento de crianças
no tráfico de drogas nos provocam a ver de frente as mazelas sociais
mais perversas. Qual a perspectiva de futuro para estas crianças?
Como as próprias crianças olham para sua vida? Viver 10 anos
a mil ou mil anos com dez réis? Isto é realmente uma escolha?
O debate
e as ações concretas em relação à exclusão
social precisam dar conta da enorme complexidade do tema. Nossas atitudes
devem ser ousadas e corajosas. Não podemos nos limitar à
crítica ao modelo econômico como única saída
para esta juventude, invisível e breve.
Em 2002,
houve 17.900 homicídios contra jovens. Destes, 13.200 eram negros.
O que torna o debate sobre violência e juventude prioritário
é exatamente o fato de estarmos perdendo estas vidas. As principais
vítimas da violência são os jovens, pobres, negros,
de baixa escolaridade e moradores dos morros e periferias. Quando meninas
se vendem a preços promocionais e meninos ganham a certeza de que
não se tornarão adultos estamos perdemos a batalha civilizatória.
A lucrativa
empresa do tráfico estabeleceu a venda do varejo da droga na maioria
das favelas do Rio de Janeiro e em boa parte das áreas pobres dos
grandes centros urbanos brasileiros. É uma empresa perfeitamente
adaptada aos tempos neoliberais: lucrativa, concentradora de renda, com
mão de obra barata, disponível e livre dos impostos legais.
Um grande negócio! O problema é que sua mão de obra
se constitui de jovens pobres, e totalmente excluídos de qualquer
perspectiva de vida. A relação com as armas, com a droga,
com o dinheiro e com a imensa sensação de poder local cria
uma lógica própria de valores e visões de mundo, que
a dita sociedade civil não consegue compreender. A cada instante
ela se sente mais ameaçada e aterrorizada. O medo da violência,
associado à incapacidade de compreensão dos efeitos da exclusão,
levam a uma situação de intolerância crescente.
Nosso
desafio é político, pedagógico e ético. Enfrentar
a exclusão e todas as suas conseqüências requer trabalho
coletivo, em rede, e com grande capacidade de diálogo direto com
os setores excluídos. Nosso trabalho não pode apenas ser
"missionário", levando luz para a escuridão. Temos que construir
as alternativas dentro de uma perspectiva de classe e em conjunto com os
setores mais pobres, vítimas diretas da desigualdade. Em parceria,
irmanados.
Só
assim o sangue das 30 pessoas de Nova Iguaçu e Queimados será
húmus e seiva para uma nova sociedade."