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Chega de injustiça!
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Por Fabio Pereira, 31/3/2006


Neste 31 de março, recordaremos um golpe - não a quartelada de 1º de abril de 64. Trata-se do golpe da chacina da Baixada Fluminense, ocorrido há exatamente um ano. Um olhar sobre esse povo jogado na "ninguendade" é urgente. A publicação da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, "Impunidade na Baixada Fluminense", que lá será lançada durante as atividades desta sexta-feira, revela compromisso com a superação das injustiças. Leia pronunciamento de Chico Alencar no plenário da Câmara dos Deputados:

"Como será nossa vida na aposentadoria? Que futuro nossos filhos terão? Como serão meus netos? Como estará o mercado de trabalho daqui a quatro anos, quando minha filha se formar? Quantas vezes questionamos o futuro? O que não questionamos é a certeza de que temos futuro. A forte barreira social constantemente nubla nossa visão. Não conseguimos enxergar o abismo que separa uma parcela significativa da população brasileira de qualquer aspecto mais elementar de cidadania, inclusive o de ter futuro. As recentes reportagens sobre a prostituição infantil e sobre o envolvimento de crianças no tráfico de drogas nos provocam a ver de frente as mazelas sociais mais perversas. Qual a perspectiva de futuro para estas crianças? Como as próprias crianças olham para sua vida? Viver 10 anos a mil ou mil anos com dez réis? Isto é realmente uma escolha?

O debate e as ações concretas em relação à exclusão social precisam dar conta da enorme complexidade do tema. Nossas atitudes devem ser ousadas e corajosas. Não podemos nos limitar à crítica ao modelo econômico como única saída para esta juventude, invisível e breve.

Em 2002, houve 17.900 homicídios contra jovens. Destes, 13.200 eram negros. O que torna o debate sobre violência e juventude prioritário é exatamente o fato de estarmos perdendo estas vidas. As principais vítimas da violência são os jovens, pobres, negros, de baixa escolaridade e moradores dos morros e periferias. Quando meninas se vendem a preços promocionais e meninos ganham a certeza de que não se tornarão adultos estamos perdemos a batalha civilizatória.

A lucrativa empresa do tráfico estabeleceu a venda do varejo da droga na maioria das favelas do Rio de Janeiro e em boa parte das áreas pobres dos grandes centros urbanos brasileiros. É uma empresa perfeitamente adaptada aos tempos neoliberais: lucrativa, concentradora de renda, com mão de obra barata, disponível e livre dos impostos legais. Um grande negócio! O problema é que sua mão de obra se constitui de jovens pobres, e totalmente excluídos de qualquer perspectiva de vida. A relação com as armas, com a droga, com o dinheiro e com a imensa sensação de poder local cria uma lógica própria de valores e visões de mundo, que a dita sociedade civil não consegue compreender. A cada instante ela se sente mais ameaçada e aterrorizada. O medo da violência, associado à incapacidade de compreensão dos efeitos da exclusão, levam a uma situação de intolerância crescente.

Nosso desafio é político, pedagógico e ético. Enfrentar a exclusão e todas as suas conseqüências requer trabalho coletivo, em rede, e com grande capacidade de diálogo direto com os setores excluídos. Nosso trabalho não pode apenas ser "missionário", levando luz para a escuridão. Temos que construir as alternativas dentro de uma perspectiva de classe e em conjunto com os setores mais pobres, vítimas diretas da desigualdade. Em parceria, irmanados.

Só assim o sangue das 30 pessoas de Nova Iguaçu e Queimados será húmus e seiva para uma nova sociedade."

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