| rio de janeiro
“É muito triste perder um filho assim, não faz sentido” ------------------------------------------
O dia 26 de março de 2006, no entanto, mudaria o destino dele e de todos os que o conheciam e o admiravam. Ismael foi assassinado com dois tiros nas costas e um na perna, por volta das seis da manhã de um domingo. Motivo: os policiais acharam que Ismael era bandido. PM reage a protestos com mais violência Ismael estava acompanhado de dois amigos (Thiago, 20, e André Luiz, 27) e voltou ao local de um baile funk, na rua Corrêa de Oliveira, para pegar um carregador de celular que havia esquecido. Quando esperavam, foram surpreendidos com disparos dos policiais. Três acertaram Ismael, morto à quema roupa. O amadorismo da ação policial levou a mais um erro e acabou com mais uma vida de um trabalhador honesto e pai de família, desestruturando família e amigos. “Ele correu e me empurrou para dentro de um bar. Salvou minha vida, porque logo em seguida ouvimos mais três disparos e ele foi atingido novamente”, contou Thiago aos jornais. Ismael morreu antes mesmo de chegar ao Hospital do Andaraí. Os moradores, indignados, foram para a avenida principal de Vila Isabel para protestar. Foram recebidos com mais truculência: spray de pimenta, como mostra claramente uma foto publicada na capa do jornal EXTRA da segunda-feira (27/3). Na foto a irmã de Ismael, Elisângela Alves de Lima Abreu, é atingida covardemente por um PM que tentava impedir a manifestação pacífica dos moradores. “Meu irmão tinha um filho e uma vida inteira pela frente. Não pode ser mais uma vítima da impunidade”.
A ação ficou evidente para todos da comunidade do Morro dos Macacos. Mas não para o comandante do 6º Batalhão da Polícia Militar (Tijuca), tenente-coronel Álvaro Garcia: “Não se sabe se o rapaz foi baleado pela polícia”, disse, ao argumentar em todos os jornais que houve uma “troca de tiros” no mesmo horário. A comunidade reagiu. “Os PMs estão sempre certos. As pessoas é que estão sempre erradas”, ironiza uma moradora, presente na manifestação. “Só eles é que são os donos da verdade. Não tem nada de confronto, porque eu acordei às seis horas da manhã e não tinha ninguém na rua. Eles [os policiais] estavam tudo escondidos lá atrás. Esperando os meninos aparecerem. A mãe e o pai estão inconformados. Disseram que quando colocaram ele dentro do carro os policiais ficaram olhando. Ficaram olhando para ele morto”, relata. E sustenta: “Eles sabem a merda que fizeram”. “PM é a vergonha do Brasil” Nesse momento, a segunda manifestação em dois dias interrompe nossa entrevista. A agitação toma conta de Vila Isabel, entre gritos de “PM fora”, “Assassinos”, “PM é a vergonha do Brasil” e “Matou trabalhador”. A passeata seguiu por quase toda a principal avenida do bairro (28 de Setembro), fechando as duas pistas. Ao contrário da reação violenta do domingo, quando tentaram impedir os protestos, os policiais militares pareciam intimidados e até mesmo envergonhados. Apesar de ser a função da PM negociar com os manifestantes para que os carros possam seguir por uma das vias, os moradores mantiveram por três quarteirões os protestos nas duas pistas. Um policial, quase que escondido, acompanhou de longe a movimentação em uma das ruas de acesso. Quando foi descoberto, todos os moradores se voltaram para ele e começaram a gritar: “Assassinos” e “Covardes”. É como a comunidade entende o ocorrido: um ato de covardia que não teve qualquer justificativa. A reportagem da RENAJORP procurou por amigos de Ismael. “Aqui, todo mundo era amigo dele”. A avenida estava cheia. Pais, familiares, a namorada, amigos. Todos inconformados, caso de Francisco, 28 anos: “Esse boato de que teve troca de tiros foi no sábado. Não tem nada a ver com domingo. O Ismael tava trabalhando numa firma de eletricidade. Todo dia ele trabalhava. No dia em que não estava trabalhando, fazia serviço pros moradores. Tudo o que precisava, se era pra consertar alguma coisa, ele fazia. Era amigo de todo mundo. Era um rapaz que ninguém tinha nada o que falar dele”. O clima
no bairro, apesar da violência policial, não era de vingança.
“Queremos justiça”, gritavam a todo o momento. O medo da impunidade,
no entanto, era evidente. “Mais um caso para ser arquivado”, desanima-se
um garçom na porta de um bar, ao acompanhar com tristeza nos olhos
o sofrimento de Elaine, namorada de Ismael. O jovem Ismael Alves Abreu,
de 22 anos, foi enterrado nesta segunda (27/3), no Cemitério do
Caju. Deixou namorada, pais e um filho de 4 meses.
Elaine Siqueira Sampaio, 14 anos, namorada de Ismael
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