curitiba 2006
O Objetivo de confundir
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Da
Revista Consciência.Net, março de 2006
Editoriais
como o da Folha de São Paulo de hoje (27/3/2006) podem confundir
mais do que esclarecer seus leitores. Sob o título "Confusão
de Objetivos" (leia
aqui ou mais abaixo), coloca a questão do uso da tecnologia
Terminator em sementes transgênicas apenas como questão ambiental,
propondo ao leitor que uma discussão mais ampla do Ministério
do Meio Ambiente (MMA) seja vista como uma intromissão negativa
nos assuntos que concernem a segurança alimentar, o monopólio
de sementes por corporações transnacionais e a biossegurança
de uma tecnologia altamente arriscada, por vários pontos de vista,
seja o ambiental, da saúde, o econômico, social e político.
A tentativa
de se manter o "Princípio Precautório", utilizado pelo MMA,
nem ao menos é abordada para dar base às ações
do ministério ao decidir manter a moratória sobre as tecnologias
Terminator. O assunto é tão complexo que uma simples avaliação
de biossegurança não engloba as diversas nuances em que o
uso da tecnologia tem inserção.
A discussão
sobre tais tecnologias, além de recente, deve ser esclarecida com
o estudo em áreas totalmente distintas e que acabam sendo envolvidas
por se tratar da alimentação humana. E mais: se está
relacionado com a nossa alimentação é extremamente
necessário que participemos destas decisões.
Segundo
o artigo da Folha, "a posição mais sábia aqui
é a de não proibir de forma absoluta a tecnologia. O ideal
é deixar que a CNTBio, a comissão encarregada de licenciar
produtos transgênicos, analise caso a caso cada produto". No último
parágrafo inclui: "O MMA, porém, parece mais interessado
em arrancar o aplauso de grupos que tendem a apoiá-lo - como a obscurantista
Via Campesina - e em atacar as empresas de biotecnologia do que em assegurar
maior proteção ambiental".
Em nenhum
momento, no artigo, é citado que foram organizações
civis, como IDEC e Greenpeace, que impediram o plantio comercial destas
sementes no Brasil em 1998, quando o assunto não foi sequer abordado
nos grandes meios de comunicação e as sementes transgênicas
eram pauta, no máximo, de economia.
O consumo
de sementes transgênicas, sendo elas com o uso de Terminator ou não,
são rejeitadas imediatamente em qualquer parte do planeta, logo
após um debate amplo na sociedade. Consumidores de países
com alto índice de escolaridade e com grande poder de participação
junto a seus dirigentes, como Noruega, Suíça e Dinamarca,
não aceitam consumir alimentos provenientes de tais sementes ou
animais que tenham sido alimentados por elas. Muito menos aceitam que a
tecnologia Terminator seja pesquisada com plantio aberto em seus territórios.
| A
razão de tudo isso é que, com escolaridade, dá para
entender como funcionam os mecanismos de 'contaminação genética'.
Desde
as sementes e seus parentes, co-relacionados com os organismos que habitam
nosso sistema digestivo, com os organismos que habitam o solo e entre espécies
distintas de plantas e animais que possam estar envolvidos no ambiente,
onde sementes transgênicas são cultivadas.
No caso
das sementes Terminator, ainda há o risco de que os outros organismos
sejam contaminados e, assim, se tornem estéreis. |
| Consumidores
de países com alto índice de escolaridade não aceitam
consumir alimentos provenientes de sementes transgênicas |
|
|
.Estas
são preocupações que concernem ao MMA e Ministério
da Saúde, porém a comprovação científica
de que realmente exista contaminação genética precisa
de tempo e investimento para ser concretizada, mas não quer dizer
que o risco não exista e seja apenas uma hipótese remota
como diz o jornal: "Os que se opõem à tecnologia falam no
perigo de o próprio gene da esterilidade sair de controle, tornando
inférteis culturas tradicionais. Em teoria, é possível,
ainda que a hipótese seja algo remota".
Enquanto
fica 'sem comprovação científica' a indústria
usa de suas estratégias para disseminar produtos, informações
e conceitos que as beneficiem elas, e não a humanidade, como é
anunciado pelas empresas de biotecnologia nas suas propagandas. E depois,
por se tratar de organismos vivos que comprovademente se disseminam entre
espécies não transgênicas, como aconteceu no México,
Canadá, EUA e Rio Grande do Sul, o consumidor e o agricultor serão
os que deverão pagar a conta de royalties das sementes e gastos
com medicamentos provenientes da intoxicação por agrotóxicos
usados nas lavouras transgênicas.
| Na
propaganda você também - consumidor que não dava atenção
às aulas de biologia, se irritava com as ervilhas de Mendel e achava
que Darwin sonhava com macacos - acaba pagando o preço pela desinformação.
Em nenhum anúncio da biotecnologia vai estar escrito: "Nós
da ciência da vida deixamos as florestas estéreis, acabamos
com a biodiversidade, quebramos os pequenos agricultores, aumentamos a
miséria, poluímos os lençóis freáticos,
porque você consumidor de biotecnologia comprou nossos produtos e
não reclamou".
O envolvimento
do MMA com pequenos agricultores preocupados com a manutenção
de suas colheitas, sem a intervenção de empresas bioteconlógicas,
pode não parecer assunto de meio ambiente, mas quando se considera
meio ambiente como vida, estamos sim dentro do tema. E pensando um pouquinho
mais à frente, uma década no máximo, quando a agricultura
familiar for destruída, aumentando-se a miséria e o caos
urbano, serão criadas duas vias concretas para o aumento da poluição
e a perda da biodiversidade. Só então o MMA poderá
intervir?
Abaixo
a matéria da Folha de São Paulo: |
| Em nenhum
anúncio da biotecnologia vai estar escrito: "Nós da ciência
da vida deixamos as florestas estéreis, acabamos com a biodiversidade,
quebramos os pequenos agricultores, aumentamos a miséria, poluímos
os lençóis freáticos, porque você consumidor
de biotecnologia comprou nossos produtos e não reclamou". |
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|
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CONFUSÃO
DE OBJETIVOS
É difícil
compreender a filosofia que inspirou o Ministério do Meio Ambiente
(MMA) a colocar-se contra a utilização e até mesmo
as pesquisas com a chamada tecnologia "terminator", que induz as plantas
transgênicas dela resultantes a produzirem sementes estéreis.
É essa a posição, já inscrita na nossa Lei
de Biossegurança, que o Brasil levou para a COP-8 (8ª Conferência
dos Países Signatários da Convenção sobre Diversidade
Biológica da ONU), que ocorre em Curitiba.
Não
há dúvida de que a principal motivação das
empresas de biotecnologia para desenvolver cultivos estéreis é
o lucro. O agricultor que opta pelos grãos transgênicos é
obrigado a comprar novas sementes a cada plantio. É a receita perfeita
para criar um mercado cativo.
Ocorre, porém,
que a esterilidade de variedades transgênicas é também,
em muitos casos, um inegável mecanismo de biossegurança.
Uma das principais críticas à manipulação genética
em escala comercial diz respeito ao risco de que sementes com genes alterados
acabem invadindo o ambiente e levem a uma redução da biodiversidade.
Os que se
opõem à tecnologia falam no perigo de o próprio gene
da esterilidade sair de controle, tornando inférteis culturas tradicionais.
Em teoria, é possível, ainda que a hipótese seja algo
remota.
A posição
mais sábia aqui é a de não proibir de forma absoluta
a tecnologia. O ideal é deixar que a CNTBio, a comissão encarregada
de licenciar produtos transgênicos, analise caso a caso cada produto.
Haverá situações em que a esterilidade reforçará
a biossegurança e outras em que o efeito pode ser o contrário.
O MMA, porém,
parece mais interessado em arrancar o aplauso de grupos que tendem a apoiá-lo
-como a obscurantista Via Campesina- e em atacar as empresas de biotecnologia
do que em assegurar maior proteção ambiental.
Não
há dúvida de que, muitas vezes, é preciso mesmo enfrentar
os interesses da indústria. É importante que o ministério
continue exigindo dela que demonstre a segurança de seus produtos
antes do licenciamento e insista na necessidade de segregar e rotular devidamente
os transgênicos. Mas a preocupação deve ser com o ambiente,
e não com a revolução no campo ou o combate ao capitalismo
transnacional. (Referência: Em www.uol.com.br/fsp, 27/3/2006)
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