opinião
Na cara
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Por Luis Fernando Verissimo, 12/3/2006


Gosto muito (tanto que a cito muito) daquela cena de um filme dos irmãos Marx em que o Groucho, um general, postando-se à frente de um mapa para explicá-lo aos seus comandados, diz:

— Uma criança de três anos entenderia isto.

E depois de algum tempo examinando o mapa:

— Tragam uma criança de três anos!

Uma criança de três anos teria dito ao Bush que a intervenção no Iraque levaria a uma guerra aberta entre facções religiosas e etnias que sempre se desentenderam no país. Bush ouviu seus ideólogos neoconservadores. Não aconteceu o que eles previram. Aconteceu o que uma criança de três anos diria que estava na cara.

A criança de três anos não representa apenas o óbvio, ou o senso comum. Representa um olhar inocente, no sentido de ser livre de idéias feitas, ilusões e vícios de pensamento. Não é fácil pensar como a proverbial criança de três anos — há o risco de se confundir simplismo com sabedoria. Mas é sempre saudável pensar em assuntos complexos — ou em outras áreas de conflito além do Iraque, como, por exemplo, a política brasileira — tentando separar o que é preconceito e vontade do que está na cara.

Pergunte-se sempre como a criança de três anos do Groucho entenderia as várias barafundas atuais e o que realmente está acontecendo.

Ou, pelo menos, como o Groucho, mande chamá-la. 
 

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Publicado originalmente no jornal 'O Globo' em 12/3/2006 [http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/veriss.asp]

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