questão agrária
O que começou errado tem de ser mudado
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A distribuição da Terra não aconteceu. Ela é concentrada nas mãos de alguns. Por Rui Fernando Neto (*), estudante de jornalismo.


Desde os tempos do Feudalismo a divisão da terra é feita à força bruta. No século XVI, com a invasão dos portugueses no Brasil, as terras que eram, até então, ocupadas apenas pelos índios, foram divididas em capitanias hereditárias (porque passavam de pais para filhos) e passaram a produzir para os europeus. Estas capitanias eram administradas por espécies de Ministros do rei de Portugal que a exploravam em tudo. Logo, alguns “secretários” destes ministros ficavam com parte menores das capitanias, porém terras suficientes para hoje serem maior do que a cidade de São Paulo.

Como os “ministros” ou capitães hereditários não têm olhos nem braços para cuidarem das fazendas que se apossam, usam a maneira mais antiga de enriquecer: escravizam homens e mulheres. Os nativos do Brasil são assassinados aos milhares, mas resistem ao trabalho forçado. Os africanos não têm escolha, são escravizados. Depois, com a revolução industrial, os donos dos motores, lá na Inglaterra, percebem que é mais rentável assalariar o negro do que escravizá-lo, porque o consumo é que faz girar a sociedade capitalista. Assim, da criação da Lei Áurea à abolição da escravatura, o Brasil devolve a liberdade aos africanos. Liberdade?

Os quilombos (comunidades de escravos fugitivos) já existem antes da abolição, e são, por motivos de segurança, construídos nos morros e distantes das áreas urbanas. Lá de cima os olheiros avistam se há capatazes lhes procurando. No Brasil, somente os nascidos após a Lei do Ventre Livre é que não têm donos. Os recém-libertados, desempregados e sem ter a senzala onde dormir, vão também para os quilombos. Alguns roubam dos brancos para sobreviverem, aumentado mais o preconceito por parte dos europeus que se baseiam nas teorias racistas de Charles Darwin e companhia.

A mão-de-obra negra é trocada pela de imigrantes que fogem, com fome, da Europa durante as grandes guerras. Os donos dos latifúndios ou fazendas são os mesmos, ou seus herdeiros. Como até novelas brasileiras mostram, as condições de trabalho dos imigrantes são escravizadoras, pois não sobra tempo para se fazer outra atividade que não seja o “labor”. E todo o subsistencial salário fica retido no armazém da fazenda, onde eles compram o que não produzem.

Por volta de 1920 chega a industrialização no Brasil, muitos trabalhadores rurais, já sem-terras, ficam também sem empregos. Pois o seu trabalho, agora, é feito por máquinas. Outros desempregados viram operários da indústria paulistana, principalmente.

Os sem-terras desempregados e “tremendo de raiva”, como disse o revolucionário Che Guevara, diante da injusta divisão de renda, se organizam em movimentos sociais ou populares, como as Ligas Camponesas. Estes Movimentos que existem até hoje consistem em ocupar, resistir e produzir em fazendas de boa terra que não estejam alimentando o povo. Reivindicam da República a reforma agrária no Brasil.

Todos os governos tomam conhecimento das reivindicações, mas pouco é feito para os trabalhadores. Exceto quando, organizados, estudantes e trabalhadores pressionam o chefe de Estado, Getúlio Vargas, até a criação da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Em 1962, estudantes também indignados com a má distribuição de terras reivindicam, além da Reforma Agrária, outras tão necessárias até hoje, como a Reforma Urbana.

Reforma Urbana porque a desigual distribuição de renda e terra não existe só no campo, mas também nas grandes, médias e pequenas cidades. O sistema dos latifúndios leva muitas pessoas a largarem o campo e irem para a cidade atrás de um emprego. Esse êxodo rural gera um inchaço nas cidades, pois elas não têm empregos para tanta gente. Formando assim o maior problema social do Brasil, a fome. Onde há fome, qualquer outro problema como AIDS e irmãos se matando por R$ 10 parecem banais.

Milhões não têm o que comer, milhões trabalham só para comer, alguns milhões estão conformados com o que fazem de dinheiro por mês e poucos milhares comem por aqueles milhões que passam fome. Será que não tem comida para todos os brasileiros? Claro que existe. Até os “politiqueiros” sabem que o que falta para evoluirmos é vontade política, não só na região seca do nordeste, mas de norte a sul do país.

Os movimentos sociais ou populares mostram que os governantes fazem as próprias vontades políticas e não as do povo. Por isso é que milhões de brasileiros se organizam em movimentos para exigirem seus direitos. As formas variam de um simples gesto como colocar um nariz de palhaço para protestar até as formas de ação direta, como ocupação de empresas e quaisquer outras medidas que julgarem adequadas para se chegar mais perto da liberdade e da igualdade.
 
 

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Bibliografia:
Brasil: De Getúlio a Castelo. Tomas Skidmore, editora Paz e Terra.
O Príncipe. Nicolau Maquiavel.
Folha de São Paulo.
Cultura Brasil, culturabrasil.pro.br
Centro de Mídia Independente, midiaindependente.org

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Rui Fernando Neto é estudante de jornalismo. Texto enviado em 9/11/2005 e publicado em março de 2006. Email do autor: rui.fernando@gmail.com


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