jornal nacional
William Bonner: meio Homer, meio Lineu
------------------------------------------
vcard.homer-simpson.de
Apresentador compara telespectadores do Jornal Nacional a personagem da série ‘Os Simpsons’ e pai em ‘A Grande Família’. Bonner se justifica lembrando a “necessidade de sermos rigorosamente claros no que escrevemos para o público” e Laurindo Lalo Leal, autor do texto que gerou a polêmica, rebate: “Fui editor de diferentes telejornais e por onde passei nunca vi uma seleção de matérias feita de forma tão rasteira e superficial, tendo como referência apenas as opiniões e  idiossincrasias do editor-chefe, como a que presenciei no JN”. Leia aqui com compilação preparada pela redação, em dezembro de 2005.
------------------------------------------
Leia também o Observatório do JN.


Quem é Homer Simpson

Imagem: Carta CapitalPode seressa hipótese não pode ser descartadaque William Bonner, apresentador do Jornal Nacional, da TV Globo, não saiba quem é Homer Simpson. Como todo personagem, Homer foi pensado com uma intenção. Matt Groening, criador da série ‘Os Simpsons’ (1989), tinha algo em mente. Sou fã da série, então tenho algumas dicas.

Para começar, indico a síntese da própria Carta Capital (clique na imagem): “Ele é preguiçoso, burro e passa o tempo no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja”.

Homer é, na interpretação de quase todos os que conhecem e admiram a série, o típico pai de família que não conhece nada sobre o mundo, é obtuso e está sempre “disposto” a... fazer o mínimo de esforço, seja mental ou físico. É muito parecido com muitas pessoas que conhecemos. Creio que não era isso o que Bonner tinha em mente. Mas fica a pergunta: será que involuntariamente ele não acertou, quando qualificou seus telespectadores desta forma? A matéria do professor Laurindo Lalo Leal Filho dá dicas de que sim, é por aí.

Foi Homer que, por exemplo, opinando sobre o Brasil de Bonner, disse em um episódio, ao planejar suas próximas férias com a família: “Eu adoraria voltar ao Brasil, mas soube que o problema dos macacos está cada vez pior por lá”.

Ele também é um “ótimo” pai. Carinhoso (mas nem tanto, pois às vezes estrangula seu filho Bart), é certo, mas isso basta? Ele diz coisas como “Crianças, vocês tentaram e falharam miseravelmente. A lição que aprenderam é: nunca tentem”. Para Lisa, sua filha inteligente e consciente dos problemas mundiais, costuma dizer coisas como: “Lisa, minha filha, espero que você tenha aprendido a lição: nunca ajude ninguém!”

Também é, como o brasileiro, um homem profundamente ‘religioso’: “Eu nunca fui um homem de rezar muito, mas, se você estiver aí em cima me ouvindo, por favor, me salve, Super-Homem”.

Ele também é um filósofo: “Nunca diga qualquer coisa a não ser que tenha certeza que todo mundo pense o mesmo”; Consciente de sua condição na sociedade: “Sou um homem branco, idade média de 29 a 49 anos, todos ouvem minhas sugestões mesmo sendo ridículas” (Pega uma lata de amendoins e chicletes juntos); Saudável: “Um viva ao álcool, a causa e a solução de todos os nossos problemas!” E de uma cultura extremamente refinada: “A TV me respeita. Ela ri comigo e não de mim”.

Lembrou do Jornal Nacional? :-)
.(GB, dez/2005)

Homer desafia JN
Sérgio Ripardo escreve na Folha Online: “(...) O avanço de "Prova de Amor" no ibope, ameaçando a liderança do "JN", lança a seguinte questão: o que está acontecendo com Homer Simpson? Por que ele prefere ver o desfile de corpos sarados nas praias cariocas, mostrado pela novela da Record, em vez das notícias do "JN" e o faroeste "Bang Bang", que antecede o telejornal?

É possível que o "JN" reforce o espírito "verão" e altere logo sua grade de notícias, ficando mais apelativo, sensacionalista, atraindo esse público. É o que manda a receita "vamos dar ao povo o que o povo quer". Não é a primeira vez que o "JN" é desafiado pela concorrência. Já infestou o telejornal com reportagens sobre bichinhos para evitar a fuga do telespectador para o "mundo cão" dos programas policiais, estilo "Aqui Agora", do célebre jornalista Gil Gomes”.

Interesse público ou arrogância?
Em uma enquete na Folha, 55% dos participantes concordaram que a “TV lida com públicos de diferentes idades e escolaridades. Um telejornal tem de ser didático e abordar assuntos de interesse geral. Ele não quis chamar o público de burro.” Para 29%, a interpretação foi outra: “Bonner subestimou a inteligência do público, reproduzindo um preconceito elitista. Sua atitude reflete a arrogância atribuída ao poder de influência da Globo no país”.
“Sobre a necessidade de ser claro”
Matéria assinada pelo jornalista e professor Laurindo Lalo Leal Filho ("De Bonner para Homer"), publicada na edição com data de 5/12 da revista CartaCapital, provocou uma resposta de William Bonner, editor-chefe do Jornal Nacional.

Instado pelo jornalista Claudio Tognolli (de quem foi colega de turma na ECA-USP) a comentar o texto de Lalo, Bonner redigiu a manifestação reproduzida abaixo. Ao responder o pedido deste Observatório para que autorizasse a publicação do texto, Bonner comentou: "Sinto-me numa situação kafkiana. Meu discurso e minha atitude em defesa de nossa responsabilidade social viraram armas contra mim. Ou contra o que represento. Ou contra a empresa que dispõe de minha força de trabalho. Sei lá a que atribuir isso". Leia aqui a resposta de Bonner. Ou abaixo:

No dia 23 de novembro, recebemos, no JN, a visita de professores universitários. Eles assistiram a uma reunião matinal, em que se esboça uma previsão da edição daquele dia. E me ouviram fazer algumas considerações sobre nosso trabalho.

Em palestras que ministro a estudantes que nos visitam todas as semanas, faço o mesmo.

Nestas ocasiões, sempre abordo, por exemplo, a necessidade de sermos rigorosamente claros no que escrevemos para o público. Brasileiros de todos os níveis sociais, dos mais diferentes graus de escolaridade. E o didatismo que buscamos para o público de menor escolaridade não deve aborrecer os que estudaram mais. Neste desafio, como exemplo do que seria o público médio nessa gama imensa, às vezes cito o personagem Lineu, de A Grande Família. Às vezes, Homer, de Os Simpsons. Nos dois casos, refiro-me a pais de família, trabalhadores, protetores, conservadores, sem curso superior, que assistem à TV depois da jornada de trabalho. No fim do dia, cansados, querem se informar sobre os fatos mais relevantes do dia de maneira clara e objetiva. Este é o Homer de que falo.

Mas o professor Laurindo tem uma visão diferente de Homer. Em vez do trabalhador (numa usina nuclear), o acadêmico o vê como um preguiçoso. Em vez do chefe de família, o professor Laurindo o vê como um comedor de biscoitos. Esta imagem não é a que tenho – não é a disponível, num texto bem-humorado, no site oficial da série Os Simpsons, que faz graça do personagem, mas registra que Homer é "um marido devotado e que, apesar de poucas fraquezas, ama a sua família e é capaz de tudo para provar isso, mesmo que isso signifique se fazer passar por tolo".

Não sei para quantos professores e estudantes citei Homer, ou Lineu, como exemplo. Mas jamais tive informação de que alguém guardasse imagem tão preconceituosa, tão negativa do personagem do desenho.

Como profissional, como defensor da nossa imensa responsabilidade social, sinto-me profundamente envergonhado de me ver na obrigação de explicar isso. Como trabalhador, pai de família protetor, meio Lineu, meio Homer, reconheço humildemente meu fracasso no desafio de ser claro e objetivo para todos os meus interlocutores daquela manhã..(William Bonner, jornalista e editor-chefe do Jornal Nacional, dez/2005)


* * *
Comentários à redação Consciência.Net sobre a resposta: “Eita! Nós jornalistas sabemos que a resposta não colou, né?” (Da lista Ética na Mídia)

Alexandre Alves, no mesmo fórum: “O que me impressiona é que a pauta e a versão das notícias são autoritárias, mas todos os outros telejornais vão no mesmo caminho. Em essência, as notícias e as análises dos telejornais da Band, do SBT, da Record são idênticas às do JN. Para ser sincero, isso é uma vergonha... Não estou defendendo o Bonner, só estou considerando que nos demais canais a coisa não deve ser muito diferente”.

É por aí. Mas tem uma outra coisa. A Globo tem uma estrutura infinitamente maior. Jornalistas espalhados por todos os cantos desse país e muitos recursos técnicos à disposição (coisa de quem tem monopólio). Basta conversar com o pessoal que já trabalhou na Globo e em outra emissora (não é o meu caso), o cara fica mal acostumado, reclama da falta de estrutura, da falta de pessoal de apoio etc. Ou seja, o JN tinha tudo para fazer um trabalho melhorzinho, mas não, sai ‘isso’. Quem se informa pela Internet, que é mais independente, fica com indigestão de ver..(GB)

Paula Batista também dá seu pitaco: “Necessidade de ser claro? Ei Bonner, acende a luz!!” :-)

Ela diz: “Só faltou o editor do JN dizer que os "homer's" não entendem o "Homer"... essa é a prova de que os telespectadores são "burros". Convenhamos, assistir aos Simpsons é bem mais divertido e interessante do que assistir ao JN. Será que o Bonner não está fazendo chacota, pelo desenho ser concorrente do programa dele? Taí uma coisa pra se pensar. E outra: a regra de ouro para os jornalistas - "Nunca menospreze a inteligência do seu leitor, telespectador ou ouvinte", ou ainda, "não compare seu telespectador a um Homer preguiçoso, que gosta de tomar cerveja e comer rosquinhas enquanto assiste ao JN". Isso devia ser incluído nos manuais, livros, etc, para ser ensinado nas faculdades de jornalismo, assim as aulas ficariam bem mais divertidas, pelo menos”.

Laurindo: “A questão central não é o perfil do Homer”
“O debate que se realiza no Blue Bus em torno do meu artigo publicado na Carta Capital desta semana - lista de notas abaixo - está ganhando uma dimensao mais ampla, alcançando outros sites e algumas publicaçoes impressas

Diante disso, vejo-me obrigado a voltar ao tema porque ele começa a ser distorcido. A questao central nao é o perfil do Homer Simpson (embora o personagem tenha sido usado várias vezes pelo editor-chefe do JN como forma de caracterizar - pejorativamente - o telespectador médio brasileiro) e sim a forma como sao escolhidas as matérias que vao ao ar no telejornal de maior audiência do país.

Fui editor de diferentes telejornais e por onde passei nunca vi uma seleçao de matérias feita de forma tao rasteira e superficial, tendo como referência apenas as opinioes e idiossincrasias do editor-chefe, como a que presenciei no Jornal Nacional.

Mostro no texto publicado pela revista que o 'outro lado' só é lembrado na reuniao de pauta quando se trata de uma ameaça ao grande poder (caso do óleo barato da Venezuela para os EUA). Nos demais nada é dito (ninguém lembrou das posiçoes do juiz de Contagem, por exemplo, das reivindicaçoes dos grevistas do INSS ou dos economistas que fogem da linha econômica ortodoxa).

Essa é a questao central da matéria publicada. Agora que é engraçado ver o editor-chefe do JN santificando o Homer, isso é. Se o Matt Groening souber vai ficar preocupado. Afinal uma pessoa de tamanha influência no Brasil nao consegue alcançar a complexidade do seu personagem.” Original no BlueBus, 7/12/2005.

* * *
Eu só consigo imaginar a cara dos criadores dos Simpsons caso ouvissem o Bonner criticando a “imagem tão preconceituosa” de Homer... é o fim do jornalismo como o conhecemos. No resto, ele não explica por que cortou (em vez de deixar mais “claro e objetivo”) uma matéria com base no argumento “essa o Homer não vai entender” e por que não há nenhuma discussão de pauta, sendo a palavra final do WB, com sua “imensa responsabilidade social”, conforme o texto do professor Laurindo. Depois, lá na faculdade, nós da imprensa alternativa é que implicamos com os caras..(GB, 6/12/2005)

* * *
Arte: Tribuna da imprensaDeu na Tribuna da Imprensa, Laurindo mais a nota “William Bonner ironiza crítica”, com a foto ao lado na primeira página do online, com a legenda “Bonner disse que sua preocupação é dirigir-se com didatismo a todos os telespectadores”.

Já Tutty Vasques brinca, no sítio NoMínimo: “Fogo amigo - Não convidem William Bonner e os Simpson para a mesma mesa. Homer, em especial, não gostou nada de ser usado pelo jornalista como paradigma de telespectador médio do "Jornal Nacional". Quem está muito chateada com toda essa história é a Fátima Bernardes, que adora a Marge”.

* * *
Os leitores do BlueBus também repercutiram, como Antenor Cesar Simoes Jr no dia 5/12: “Olá Julio [editor do BB], Sou leitor assíduo do Blue Bus e gostaria de fazer alguns comentários sobre William Bonner e o Jornal Nacional (.....) Primeiramente, é importante lembrar que o Jornal Nacional nao é um telejornal que deve gerar reflexao. Seu formato pretende informar rapidamente o distraído e cansado telespectador noturno da TV aberta. Chamar o público do JN de Homer Simpson é, na verdade, um tremendo elogio. Qual ser pensante vai estar sintonizado na Rede Globo entre as novelas das 7 e das 8?”

E continua o Antenor: “JN é enlatado. Tao enlatado quanto Friends ou mais e serve para vender espaço publicitário apenas. O conteúdo é irrelevante, já que os líderes e formadores de opiniao nao sao influenciados pelo telejornal. Com a internet, as notícias do JN além de irrelevantes ainda sao velhas (...)” Mas eu gosto de Friends e penso mesmo assim. :-) A imagem ao lado o BlueBus manteve com destaque nesse dia, ironizou na legenda: “Bonner escolhe a gravata para falar com Homer Simpson”.

E mais leitores: “Acredito que a reportagem da Carta Capital só venha endossar o que todos nós sabemos - a baixa qualificaçao do público que assiste o JN. Temos que pedir - Mais criatividade aos mídias!!! :- )))” (Doda Dado).
 

O estudante Julio Meneghini diz que o convite ao raciocínio é bloqueado de imediato, na raiz: “Julio, Desde sempre as faculdades constroem os moldes para seus alunos fabricarem jornais para os Homers Simpsons. A ditadura do lead, a falta de ousadia e o rabo preso com os anunciantes. Tudo faz com que a notícia vire produto de consumo descartável para o homem médio assistir comendo rosquinhas. O convite ao raciocínio é bloqueado de imediato, na raiz. Nas escolas de jornalismo, a teoria é sempre a mesma, os alunos já sabem o que vao encontrar no mercado. Como auto-crítica, em nada assusta a reportagem sobre o JN, cabe a nós, alunos e ex-alunos dessas faculdades onde a prática é cerceada, mais atitude e lutar por novos horizontes do jornalismo, mesmo que isso cheire a utopia (.....)”.

Mas a melhor mesmo foi de Gustavo Sousa, da Mother, que preparou a imagem ao lado. O BlueBus agradeceu e apelidou: Bonner Simpson. =)

Outra (Beth Castilho): “Caro Julio, É para notícias como essas que dou 3 vivas para esses tempos em que as informaçoes vazam, escorrem, se propagam, as notícias de frente e de bastidores aparecem em um email, sites de fofocas, flog, etc... Imagine o Jornal Nacional, uma das inserçoes publicitárias mais caras da televisao brasileira, apelidando o telespectador de Homer (sim, adoro a família Simpson) e usando a mesma seriedade do desenho animado para decidir as urgências a serem noticiadas. Eu assisto ao Jornal Nacional, nao me pareço em nada com o Homer, e sou fa (cada vez mais) de qualquer coisa que tente exterminar a manipulaçao escondidinha. Aliás, lá no JN já deram alguma notícia sobre o crescimento dos blogs?”

Mais um: “Julio, esse artigo (da Carta Capital) que revela a 'ditadura Bonner', além de memorável, deve ser leitura obrigatória em todas as faculdades de Jornalismo”. (Eduardo Sander)

Um, bem-humorado e atento: “Interessantes os princípios do Bonner quanto à seleçao de notícias do JN. Só mesmo um Flintstone para usar um Simpson como parâmetro de compreensao”. (André Farah)

A repercussão do próprio BlueBus está aqui, foi o Julio Hungria.

* * *
Depois, e até hoje, vai virar prática. Todo mundo comenta, a referência é a gafe de Bonner (logo ele, que adora colocar notas no JN criticando os improvisos do Lula). Gafe, mas nem tanto, porque ele sustentou. O Pedrinho Fonseca (que intimidade, nem conheço), leitor BlueBus, aproveitou o gancho: “Se virem alguém pulando o muro da sua casa, subindo numa árvore perto da janela do seu apartamento ou correndo em disparada por algum tunel, nao esquentem, nao é ladrao. É apenas um praticante do novo xodó esportivo da Globo, Le Parkour. Já foi uma cansativa matéria no Faustao e agora volta no Fantástico do próximo domingo, com direito a chamadas insistentes durante toda a grade. Estaria a emissora numa batalha para tirar o Homer e sua cerveja da frente da TV? ;- )”

Erro de avaliação ou critério político?
Eliakim Araújo, ex-âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista da Rádio JB, publicou no Direto da Redação (DR) em 8/12/2005:

“O professor Laurindo cita em seu artigo o comportamento do editor-chefe ao recusar matéria da sucursal da Globo em NY sobre a oferta do governo venezuelano para venda de petróleo a preços mais baratos para atender comunidades carentes dos EUA. Assunto da maior relevância naquele dia de novembro, e neste momento quando o gás venezuelano já está atendendo a 8 mil famílias pobres do Bronx, em Nova Iorque, como se pode ler na coluna de hoje do Eduardo Graça, aqui mesmo, no DR.

Não sei qual o critério usado por Bonner para recusar a matéria. Se foi político, é preocupante. Se não, foi um grave erro de avaliação. Gostando-se ou não de Hugo Chávez, temos que reconhecer sua importância no cenário político internacional. Ele hoje é notícia em qualquer lugar do mundo. Não só porque preside um país que é um dos maiores produtores de petróleo, como também porque é um dos raros líderes a enfrentar a prepotência de Bush e seu desprezo pelas regras internacionais de convivência.”

Papéis humanos
O jornalista e professor da ECA-USP e do Unifiam-Faam, Claudio Tognolli, registra em sua coluna, no Portal AOL, em 8/12/2005: “(...) Disso tudo fica uma questão muito rasteira: quem é Homer Simpson? Lalo projetou nele o que vê de pior na Globo. Bonner, também, projetou no velho Homer algo que ele mesmo (Bonner) enxerga em si próprio: um trabalhador preocupado com a família. Os psicanalistas lacanianos chamam essa multiplicidade de papéis de spaltung, ou clivagem. São esses multitons de percepção que nos tornam humanos, demasiadamente humanos.

Mas tais multiplicidades também são usadas por maus políticos, quando afundam atirando e encontram na autopiedade uma forma de sobrevivência. Aí, ensaiam um papel que jamais tínhamos imaginado. Que tipo de Homer será José Dirceu?”

Jornalista não pode ser cassado por quebra de decoro =)
No mínimo curioso um dos trechos da carta de William Bonner, se justificando por ter comparado o telespectador padrão do Jornal Nacional com o Homer Simpson. Bonner disse ao Observatório da Imprensa o seguinte: “Meu discurso e minha atitude em defesa de nossa responsabilidade social viraram armas contra mim. Ou contra o que represento. Ou contra a empresa que dispõe de minha força de trabalho.”

E não é que nós já ouvimos isso antes... O ex-deputado José Dirceu, em artigo publicado pouco antes de ser cassado na Câmara dos Deputados, dizia que estava sendo julgado “pelo que represento na história da esquerda, do PT e do governo Lula”. É bom lembrar que o JN, desculpe a expressão, ‘desceu o sarrafo’ em Dirceu um dia após sua cassação, como registrado aqui. E se jornalista pudesse ser cassado por quebra de decoro jornalístico, será que Bonner iria para a rua pelo que representa? Olha, esse mundo é redondo, mas está ficando cada dia mais chato!.(GB, dez/2005)

A Globo cria os Homer's, sim, mas nos ensina a falar para milhões
"Bonner diz que a linguagem que ele procura usar deve ser uma linguagem que atinja e não afaste nem o intelectual e nem a pessoa sem escolaridade. A Globo dele se preocupa em atingir os dois. Esta afirmação traz à memória um outro texto da Globo que está transcrito no livro “A História Real”, de Josias de Souza e Gilberto Dimenstein. Estávamos em 1994, durante a campanha do FHC contra Lula. O comitê de propaganda da campanha do tucano passou uma cartilha para FHC aprender a falar 'para a maioria'. (...)"

Texto de Vito Giannotti, janeiro de 2006, para o Núcleo Piratininga de Comunicação.
 


Observatório do JN | Mídia | Panorama da mídia | Busca no site | Café da Manhã | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.