amapá
ONG usa ribeirinhos como cobaias
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Arte: Mateu, do jornal Q!Grupo americano forçava moradores do Amapá a alimentar com o próprio sangue mosquitos da malária. Daniela, do jornal Q!, 6/12/2005


A ONG americana Institucional Review Board, supostamente vinculada à Universidade da Flórida, vinha usando há quatro anos os moradores da comunidade de São Raimunda do Pirativa, às margens do Rio Matapi, no Amapá, como cobaias de uma pesquisa sobre malária. No estudo, que seria financiado pela universidade e pelo Instituto Nacional de Saúde americano, os ribeirinhos alimentavam com o próprio sangue os mosquitos transmissores da doença.

Chamado a verificar as condições precárias de uma escola estadual, o promotor de Justiça Haroldo de Arruda Franco viajou uma hora de barco para fazer uma diligência no local e, por acaso, teve acesso a um dos contratos firmados pela ONG com os ribeirinhos. Uma cláusula do documento descreve a tarefa das cobaias: “Você será solícito como voluntário para alimentar 100 mosquitos no seu braço ou perna para estudos de marcação e recaptura”.

Segundo o Ministério Público do Amapá, o contrato descreve riscos e desconfortos. Os envolvidos no projeto recebiam quantia que variava entre R$ 10 e R$ 20 por noite. O promotor verificou ainda que a coordenação da pesquisa não permitia aos agentes da Fundação Nacional de Saúde o uso de borrifadores de repelentes para combater o mosquito transmissor da malária.

"A gente vê na medicina o uso de cobaias para receber tratamentos, transplantes e medicação, mas a pesquisa ia no sentido inverso. Fazia com que o paciente fosse contaminado, estava havendo a proliferação da malária", afirmou o promotor ao Q!.

Haroldo Franco conta que o Conselho Federal de Medicina no Amapá entende que esse tipo de pesquisa é ilegal e já instaurou procedimento para investigar o caso. Ele diz ser necessário apurar se a ONG está regular no país e se as atividades configuram biopirataria ou risco de epidemia. – Daniela

DarianoSeis horas de sofrimento

O promotor de Justiça Haroldo Franco esclarece que a captura do mosquito transmissor da malária por meio de seres humanos é legal. Os captores recebem inclusive treinamentos da Funasa. O que ocorria na comunidade de São Raimundo do Pirativa, no entanto, ia muito além disso. Numa segunda etapa, os mosquitos eram colocados em copos plásticos fechados por uma tela. As cobaias se submetiam, então, a seis horas de exposição às picadas dos mosquitos através das telas. Alguns moradores ficavam sentados, com pernas e braços expostos das 18h até a meia-noite. Só assinavam o contrato com a ONG, segundo Haroldo, porque precisavam de dinheiro, já que se trata de uma comunidade muito pobre.
 
Dimensão internacional

Se a participação estrangeira ficar comprovada, a competência das investigações se deslocará para o Ministério Público Federal, segundo o MP do Amapá. "Aparentemente, pelo contrato, existe investimento internacional na pesquisa. Se houver, é preciso cumprir diversos requisitos. Inclusive o presidente da República teria que autorizar", explica o promotor Haroldo Franco. Segundo ele, os pesquisadores alegaram que o objetivo do estudo, já interrompido, era conhecer os vetores da malária de modo a prever surtos da doença. Também asseguraram ter autorizações inclusive do Itamaraty. Haroldo requisitou os documentos, que ainda não chegaram: "É preciso fazer uma análise mais criteriosa. Mas que a coisa é esquisita, é. Cobaia humana usada para contrair malária já é grave".
 


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