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“Brasília,
06 de fevereiro de 2006
Sr. Roberto
Civita
Editor
Revista
VEJA
Senhor
Civita, permita-me iniciar esta carta com o reconhecimento à tenacidade
com que seus colunistas se dedicam à tarefa de impor a verdade da
mídia. Nisto, tenho certeza, seriam a inveja do mesmo Joseph Goebbels.
Não obstante, permita-me também lhe aconselhar que diminua
o esforço para o bem da saúde mental de seus escreventes,
uma vez que o mundo que lê VEJA está convencido de sua ária
pureza jornalística, de que vocês, dentro do mais tradicional
esquema de jornalismo conservador –tanto na técnica como no conteúdo-
se sentem donos da verdade. Já sabemos, senhor Civita, que dentro
de VEJA transita o dogma e a fortaleza própria do invulnerável,
que qualquer coisa que esteja fora de sua linha ou do seu âmbito
ideológico é errada, que vocês estão convencidos
-e são capazes de morrer por isso- de que nada diferente do que
escrevem pode existir fora de suas linhas.
É
óbvio, senhor Civita, que VEJA é mais que uma simples revista.
VEJA é um templo sem sacerdotes, ali só há deuses,
pois somente os deuses geram verdades inquestionáveis. Esta condição
divina é notória, por exemplo, nas fotografias que acompanham
as colunas. Veja o senhor, repare bem, na postura esnobe de Tales Alvarenga,
ou no olhar onipotente de Diogo Mainardi. Coitado de quem entrar no âmbito
de sua ira! Será condenado para sempre ao inferno!
Ou não
é verdade que somente eles conhecem aquilo que adoece o mundo e
são capazes de condená-lo?
É,
senhor Civita, também sabemos. Sabemos que a Veja condena sem julgar,
porque a verdade da mídia não requer trâmites desta
índole, nem está aí para isso, não é?
Digo, para julgar, porque o jornalismo – segundo ensina a filosofia da
comunicação e todos os códigos da ética- não
está projetado para ser juiz, senão para se dedicar à
tarefa de mostrar os diversos ângulos da realidade que é apresentada
ao mundo e deixar que sejam outros os que julguem.
Mesmo
assim, devo confessar-lhe que também não acredito muito nisto
e que estou mais próximo de admirar um jornalismo menos frio e objetivo,
a um jornalismo que não transforme os fatos humanos em simples coisas
de tipografia, tinta e papel. Devo confessar-lhe que, igualmente a no meu
país, prefiro um jornalismo mais combativo, distante dessa ficção
que denominam "objetividade jornalística" e próximo àquela
pro atividade ética que já indicava John Dos Passos na sua
novela Paralelo 42 – que acredito que o senhor tenha lido alguma vez -:
"o anelo de todo jornalista era desentranhar o significado exato de toda
mudança operada na realidade".
Vê,
senhor Civita, Dos Passos escreve "o significado exato", nós nos
perguntamos de imediato de que se trata isso? E ficaríamos órfãos
de entendimento a respeito se não tivéssemos a capacidade
de relacioná-lo com essa maravilhosa palavra que é "desentranhar",
que significa, dentre outras cosas, averiguar, penetrar o mais difícil
e escondido de uma matéria.
Cobra
uma melhor e mais digna dimensão profissional e ética com
isto a tarefa jornalística, não é assim, senhor Civita?
Veja, o jornalista é uma pessoa que se submerge na realidade dos
fatos, esquadrinha as suas entranhas, examina os detalhes, se desliza com
sigilo entre as aristas, observa atento seus diversos ângulos e os
traz todos até a superfície, para dar a oportunidade de que
qualquer um que passe perto de suas bordas possa senti-las e armá-las
como uma realidade mais ou menos objetiva, mas principalmente humana.
E eis
aqui um dos significados da palavra "desentranhar" de que mais gosto, aquele
que a apresenta como um ato voluntário de desapropriação.
Nada mais humano do que desapropriar-se de tudo que se tem e se conhece
para entregar ao outro com a vontade ética, social e humana que
possa ajudá-lo a compreender.
Lástima,
senhor Civita, mas não vejo isto no olhar dos seus colunistas, pelo
menos nesse que mostram as fotografias que acompanham suas colunas.
O que
é bem certo é que VEJA também não crê
nem pratica o contra-sentido da objetividade jornalística. O terrível
é que também não responde a isto com sentido ético,
porque para VEJA o mundo adoece de um mal universal: tudo o que é
sensivelmente humano fede.
É
por isso que entendemos esse afã por listar nomes que, repito, desde
sua ária pureza jornalística, são indesejáveis,
imprescindíveis, tolos, tiranos e vagabundos que devem ser exterminados
para o bem do mundo que VEJA representa, um mundo uníssono, que
avança na direção de um cenário globalizado
de conseqüências únicas, perfeitas e sem objeção,
onde uma nova religião começa a concretizar-se com rezas
e acordos de compra e venda. É por isso que para vocês nosso
presidente Hugo Chávez leva uma lista longa de qualificativos indesejáveis,
como tirano, ditador, assassino, populista, palhaço, louco, etc,
e Bush, George W. Bush, o mesmo da guerra no Iraque, é apenas um
homem preocupado pela harmonia e a paz do mundo.
Pois bem,
senhor Civita, nesta nova carta que agora lhe envio – e que sei que não
será publicada na Veja -, além de expressar-lhe os sentimentos
acima descritos quero também aproveitar para fechar com duas coisas
importantes.
A primeira
é a formulação de uma queixa oficial contra sua empregada
Daniela Pinheiro, quem entre a grande quantidade de mentiras que escreve
no seu artigo "Com dinheiro do povo", edição N° 1941
de 01 de fevereiro de 2006, assegura que "o embaixador da Venezuela admitiu
na semana passada que é possível que Chávez assista
ao desfile da Marquês de Sapucaí", quando na realidade o que
foi dito foi que era pouco provável que o presidente assistisse
–mas é claro, tudo vale quando se trata de jornalistas que não
se apegam à objetividade, mas sim à interpretação
jornalística pouco desapropriada de interesses… serão econômicos
ou ideológicos? - pode o senhor sanar esta dúvida, senhor
Civita?
A segunda
é uma simples recomendação, e a inicio com uma pergunta:
ouviu o senhor alguma vez Alfredo Bryce Echenique quando se refere à
posição humana do homem diante da vida e da realidade? Repare,
ele disse a respeito, que "na vida, a única objetividade possível
é a subjetividade bem intencionada". Nós cremos no mesmo
do jornalismo, cremos que este é o sentido exato que deve praticar-se
nesta profissão frente a esse contra-sentido da objetividade a secas.
Por quê? Simples. Porque o jornalismo não é um templo
de deuses, mas uma praça de vizinhança.
Julio
García Montoya
Embaixador”