análise
Good Night, and Good Luck
------------------------------------------
Por Paulo Ghiraldelli Jr., fevereiro de 2006


Os Estados Unidos são a maior democracia do mundo. Sem dúvida, são a pátria da liberdade. Por isso mesmo, os maiores crimes contra a liberdade acontecem ali. Pois somente na terra de grandes liberdades podem ocorrer grandes crimes contra a liberdade e, por conta da liberdade, ficarmos sabendo.

Nem bem a Guerra Fria acabou e os Estados Unidos, arrastando todo o Ocidente, se envolveu em um novo conflito semelhante: a luta contra o terrorismo. Richard Rorty, o mais completo filósofo da América, escreveu dois brilhantes artigos sobre o assunto. Em um primeiro, a Democracia sob os Brucutus, logo após o atentado de 11 de Setembro, ele lamentava os mortos e pedia desculpas antecipadas ao mundo pelo o que o seu país faria, na retaliação. Rorty temia que a retaliação fosse para além do necessário. E ela foi – a invasão do Iraque mostra bem isso. Um ano depois, Rorty escreveu um outro artigo, no qual mostrava as conseqüências internas do modo errado com o qual a Administração Bush se envolveu no combate ao terrorismo. Mutatis mutandis ele abordou exatamente o tema que sustenta o espetacular filme de George Clooney e equipe, “Good night, good luck”. O tema é exatamente este: como podemos em nome da liberdade ir retirando todas as liberdades de cada indivíduo.

Os Estados Unidos, hoje, não vivem o mesmo clima do tempo do macartismo. Mas não há dúvida que Clooney (já bem longe de ser do Plantão Médico o ser algum Batman) acertou ao contar a história de Edward R. Murrow exatamente agora, quando dispositivos de “segurança nacional”, nos Estados Unidos, começam a ser aceitos como “mal menor”, corroendo lentamente a democracia americana.

Mas o filme de Clooney e sua equipe não é bom somente pela história e pelo momento. Ele é esplêndido enquanto obra da sétima arte. Filmado em preto e branco, ele dá o tom exato de um tempo em que o jornalismo televisivo ainda estava próximo do jornalismo tradicional. Os embates pessoais e a argumentação eram possíveis, de um modo que o objetivo central – fazer os telespectadores terem uma quantia ótima de informação e opinião – não ficava maculado por técnicas de propaganda ou de lavagem cerebral, tão comuns e aceitas por todos hoje em dia. É claro que o filme é a vitória de Murrow contra o Joseph McCarthy. Mas o filme é, também, um retrato fiel do preço pago pelo time de Murrow e, então, o modo como a partir dali a TV começou a mudar – para pior. A partir dali, a TV do mundo todo começou a fazer aquilo que conhecemos bem: tratar quem a assiste como imbecil.

O outro lado do filme é que ele mostra bem algumas diferenças básicas entre a guerra daqueles dias e a de hoje. Como disse o filósofo estadunidense Arthur Danto, a Guerra Fria foi uma guerra de filosofia. A guerra de hoje é uma guerra de quê? Os anti-ocidentais estariam oferecendo que tipo de mundo aos ocidentais, caso vençam?

Os comunistas ofereciam uma radicalização do Iluminismo, e ao menos retoricamente, um mundo mais iluminado que aquele que o liberalismo político teria conseguido realizar. O embate "Estados Unidos versus URSS", ao fim e ao cabo mostrou que eram os primeiros que poderiam, ainda, realizar o projeto iluminista, e que a URSS era uma farsa. Esta, não expandia as liberdades individuais, ao contrário, as cerceava, e não conseguiu de modo algum gerar uma igualdade capaz de satisfazer as necessidades de sua população.

Mas o mundo não ocidental atual, que se opõe ao “estilo de vida americano” propõe algo assim, como que uma utopia que vá além daquela das varias formas de liberalismo político? Não. Não é possível saber o que os anti-ocidentais propõe. Estariam eles nos dizendo que o que gostariam de ver é a implantação, em todo o Ocidente, de reinos teocráticos ou ditaduras banais? Realmente, não sabemos. Diferentemente da Guerra Fria, onde os dois lados tinham objetivos positivos, na guerra de hoje um dos lados parece agir apenas negativamente. Os anti-ocidentais apenas querem o “desaparecimento do capitalismo, o desaparecimento do que seria a vida em pecado que nós, os "consumistas sem Deus”, levamos a cada dia.

Mas também aqui o filme de Clooney é instigante, e permite analogias entre os Estados Unidos dos anos 50 e o de hoje. Pois havia algo de meramente negativo na campanha de McCarthy, como o que há, hoje, na campanha dos terroristas anti-ocidentais. O filme explora bem isso. Como o próprio Murrow realmente fez: o que McCarthy faz é mostrado como o que era, ou seja, uma caça aos comunistas que tinha como objetivo ser uma caça aos comunistas – nunca chegaria ao fim. Não tinha qualquer outro alvo senão se tornar uma máquina eterna de moer carne. Era uma luta anti-comunista, mas para quê? Para proteger o quê, se o que se dizia que se estava protegendo, a liberdade, estava sendo tirada? Todos sabiam que o rumo daquilo era o de acusação de toda a população por toda a população: um belo dia os Estados Unidos acordariam inteirinho comunista, sem que a URSS tivesse movido uma palha, pois todos teriam se acusado comunistas. A maneira como Clooney e sua equipe comandam o filme, criando rostos completamente imbuídos do clima de guerra que foi de fato o clima da época da Guerra Fria, e gerando tomadas de cena (e fundo musical) internas tensas, nos estúdios de uma CBS então em nítida transição de rumos, não poderia ser melhor para espelhar o que estava de fato em jogo naquele momento. E o que estava em jogo, de certo modo, era a vida do país. E com ela, o modo que faríamos TV no mundo todo, e jornalismo em geral. O destino do time de Murrow traçaria o nosso destino. E traçou. Murrow, ele próprio no filme, reconhece que venceu e perdeu ao mesmo tempo.

Deveríamos sempre defender a liberdade, dando um rumo aos nossos países, os do Ocidente, diferente daquele que os setores da direita obscurantista quer? Deveríamos, enfim, estar mais atentos quanto ao fato de que temos de encontrar mecanismos de combater o terrorismo que não nos transforme todos, em terroristas? Deveríamos saber pressionar nossas sociedades para que a TV não fosse uma máquina de fazer tontos? Se este é o recado de um Clooney que agora, em seu próprio estúdio independente, quer passar para o mundo, ele acertou em cheio, além de fazer uma obra de arte impecável.
 

------------------------------------------
Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo. Página: www.ghiraldelli.pro.br

Filosofia | Busca no site | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.