charges de Maomé
Há algo de muito podre no reino da Dinamarca
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Por Mário Maestri e Marconi de Matos, fevereiro de 2006


“Doze charges, dez delas com caricaturas do profeta Maomé, publicadas num pequeno jornal em um país igualmente pequeno e, em geral, distante de encrencas internacionais, colocaram o mundo islâmico em clima de guerra santa.” Com pequenas variações, a imprensa mundial seguiu em forma monocórdia o roteiro com o qual a Veja, de 8 de fevereiro, abre sua matéria de capa – “Guerra de Civilizações” – sobre a mobilização islâmica mundial contra a publicação dos cartuns dinamarqueses tendo como personagem a Maomé.

As conclusões gerais da mídia mundial sobre os fatos são também as mesmas do semanário brasileiro. Tudo se deveria ao imenso “fosso de valores, idéias e hábitos” existente “entre o mundo islâmico e o Ocidente”, “civilizações com algumas características em comum e muitos valores incompatíveis”. A sentença à morte do escritor Salman Rushdie, autor de Versículos Satânicos, e o assassinato de Theo van Gogh, diretor do filme Submissão, sobre a violência islâmica contra as mulheres, seriam exemplos excelentes desse imenso fosso civilizacional.

Confirmaria-se, assim, no essencial, a tese de Samuel P. Huntington, professor de Harvard, em seu livro O choque de civilizações, de 1996, de que, após o fim da luta ideológica entre o socialismo e o capitalismo, vencida pelos Estados Unidos e pelo Ocidente, “as guerras do futuro”, do século 21, não serão mais entre as “nações”, mas entre  as “grandes unidades conhecidas como culturas ou civilizações”. Nesse confronto, assumiria destaque o embate entre as “democracias ocidentais e o mundo islâmico”.

A publicação das charges pela grande mídia ocidental seria, conseqüentemente, ato solidário e corajoso em proteção do direito de expressão, contra a tentativa de censura da sociedade civil pelo integralismo religioso, que se apoiaria na mera proibição islâmica de retratar o rosto do profeta Maomé. Portanto, definitivamente, como propôs o France Soir, ao também publicar os 12 desenhos amaldiçoados, "nenhum dogma religioso pode impor seu ponto de vista em uma sociedade democrática".

Discurso ideológico

É grande a diferença entre o discurso e a realidade. Pivô dos sucessos, o periódico Jyllands-Posten não é um pequeno e inocente jornal e, a Dinamarca, muito menos, uma sociedade transigente, multicultural e muito “distante de encrencas internacionais”. Com duas vezes a extensão do Estado do Sergipe, a Dinamarca tem 5,37 milhões de habitantes, entre eles, uns 400 mil emigrantes e descendentes de imigrantes, que chegaram e se encontram no país sobretudo para trabalharem nas tarefas mais duras e menos pagas.

Na Dinamarca, considerada a nação mais racista da União Européia, são muito tensas as relações entre parte da população nacional e os trabalhadores estrangeiros. Os dinamarqueses que se casam com estrangeiros são comumente obrigados a viverem no sul da Suécia até que a administração do país resolva se seus cônjuges estrangeiros têm condições para morar no reino. Com 13% do eleitorado, o Partido do Povo, direitista e racista, tem açulado sistematicamente os sentimentos xenofóbicos contra a população imigrada. Os principais objetos dessa campanha são os emigrantes e descendentes de imigrantes de confissão islâmica. A direita dinamarquesa é acusada de sonhar em transformar a Dinamarca em uma espécie de ilha, totalmente loira e cristã, cercada por porcos por todos os lados, já que o país é um dos maiores criadores de suínos do mundo!

A publicação, em 30 de setembro de 2005, das doze charges com a imagem do profeta Maomé, foi iniciativa política consciente do Jyllands-Posten, principal jornal dinamarquês, de clara orientação direitista, contra a comunidade islâmica do país. Com outras publicações direitistas dinamarquesas, o jornal participa de ativa campanha xenofóbica, mais ou menos aberta, contra a comunidade de confissão muçulmana, que é sistematicamente acusada de ser refratária aos princípios e práticas democráticas do Ocidente.

Flemming Rose, o editor de Cultura do Jyllands-Posten, expressou, sem papas na língua, as intenções político-ideológicas que embalaram a iniciativa, ao se referir aos inesperados sucessos mundiais ensejados pela publicação de algumas das charges que encomendou a caricaturistas do país: "Isto tudo é  sobre a questão de integração e [sobre] o quão compatível é a religião do Islã com a sociedade moderna." Um dos desenhos publicados apresenta o profeta Maomé com uma bomba no turbante, identificando, diretamente, a comunidade muçulmana ao terrorismo.

As mãos sujas de sangue

É portanto compreensível que a denúncia do caráter ofensivo e xenofóbico das caricaturas tenha partido de lideranças religiosas da comunidade muçulmana dinamarquesa, que pediram, ao jornal, desculpas públicas. Na ocasião, o primeiro-ministro dinamarquês negou-se a receber uma delegação de onze embaixadores de países muçulmanos, alegando “falta de tempo”. Devido à recusa de retratação, sob a justificativa de defesa do direito de expressão, as lideranças religiosas dinamarquesas pediram a solidariedade das representações diplomáticas dos países islâmicos. Por isso, em 26 de janeiro, a Arábia Saudita, seguida, logo, pela Líbia e por outras nações de confissão muçulmana, chamaram seus embaixadores da Dinamarca.

Desde 2001, a Dinamarca é governada por liberais-conservadores que se apóiam tradicionalmente no voto xenófobo, com o qual têm aprovado diversas leis anti-estrangeiros. Porém, a militância anti-islâmica não tem sido apenas política interna. O atual primeiro-ministro Anders Fogh Rasmussen é um dos mais dedicados aliados da intervenção anglo-estadunidense no Oriente Médio, mantendo em torno de 700 soldados no Iraque-Afeganistão. Mesmo no contexto dos atuais acontecimentos, Anders Fogh prometeu dobrar o número de militares dinamarqueses no Afeganistão, aumentando participação bélica já considerável, em relação à escassa população do país.

A forte presença dinamarquesa na repressão militar ocidental dos direitos nacionais iraquianos e afegãos ajuda igualmente a compreender por que as mobilizações populares contra as charges iniciaram-se, em 7 de fevereiro, precisamente no Afeganistão,  onde a resistência contra a ocupação é capitaneada pelos talibãs, organização integralista armada financiada, no passado, pelo governo estadunidense, quando lutava contra a revolução afegã, profundamente anti-integralista. As forças de paz da Otan, dinamarqueses incluídos, mataram simplesmente quatro dos manifestantes afegãos que protestavam contra as charges.

O rápido desenvolvimento das manifestações, oficiais e populares, e do boicote diplomático e comercial à Dinamarca, na Europa e nos países árabes e muçulmanos, não expressou uma simples rejeição cultural-religiosa contra a ofensa de um jornal ocidental a preceito religioso islâmico.  Constituiu, ao contrário, a manifestação política confusa dos sentimentos profundos de populações agredidas, desrespeitadas e humilhadas, em forma incessante, nas últimas décadas, pelas grandes nações e pelos grandes interesses imperialistas. A queima de carros na periferia parisiense foi também protesto sobretudo de jovens franceses mantidos na marginalização devido a uma origem muçulmana.

Paz Estadunidense

A destruição da URSS e a vitória histórica mundial do capital sobre o trabalho, em fins dos anos 1980, ensejaram que o imperialismo anglo-estadunidense e seus satélites pudessem empreender, praticamente sem travas, o assalto militar das riquezas petrolíferas do Oriente Médio que ainda lhes escapavam das mãos. A primeira grande iniciativa dessa operação de grande envergadura foi a conquista colonial do Iraque, longamente preparada pela operação de desarmamento e fragilização do país comandada pela ONU de Kofi Annan, através do desapiedado bloqueio internacional daquele país.

No Oriente Médio, pretende-se concluir essa operação com a submissão total do Irã. É precisamente por esta razão que o governo Bush, com o apoio das grandes nações européias – sobretudo a Inglaterra, a França e a Alemanha –, e paradoxalmente, do governo brasileiro de Lula da Silva, mobilizam-se para impedir o acesso futuro do Irá à bomba atômica, a única arma capaz de dissuadir a invasão militar de um país não-desenvolvido por potências imperialistas. Os anglo-estadunidenses jamais teriam empreendido a ocupação do Iraque se o programa atômico desse país não tivesse sido interrompido, devido ao bombardeamento israelense do reator nuclear de Osirak, em julho de 1981, com aviões F-16 Fighting Falcon estadunidenses.

Ao igual que a conquista da América, da África e da Ásia, pelas nações colonialistas e imperialistas, nos séculos 16-20, o domínio colonial e semicolonial neoliberal do mundo pelo grande capital, no século 21, tem sido apresentado e defendido, em forma rústica ou refinada, como uma ação imprescindível na luta da humanidade entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, entre a civilização e a barbárie, contradições expressas, no presente caso, entre o mundo ocidental, laico e democrático, e a civilização islâmica, integralista e despótica.

No seu primeiro “Discurso à União”, o presidente Bush  apresentou a proposta de hegemonia militar estadunidense sobre o mundo como uma “cruzada” mundial contra o “terror”, em geral, e contra o “Eixo do Mal”, em especial. Na ocasião, foi apresentado como “Eixo do Mal o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte”. Na memória histórica das populações do Oriente Médio permanece presente o desapiedado assalto do Oriente, realizado na Idade Média, pelos cruzados, em nome da defesa da verdadeira fé contra o islamismo odioso. Aproveitando os atuais acontecimentos, Condoleezza Rice, secretária de Estado dos EUA, tem acusado a Síria e o Irã de fomentarem as mobilizações islâmicas contra as caricaturas dinamarquesas.

Religião e política

O fortalecimento do fundamentalismo religioso, sobretudo na sua versão militante, como meio e expressão de oposição, mesmo inconsciente, ao domínio imperialista e à exploração capitalista, fortaleceu-se no mundo e nas comunidades muçulmanas, sobretudo após a vitória mundial do neo-liberalismo, em fins dos anos 1980, e o conseqüente retrocesso da força de atração do socialismo, do marxismo, do racionalismo, do laicismo, etc. como meio de libertação nacional e social.  A vitória do Hamas, nas eleições de janeiro, na Palestina, é um exemplo desse fenômeno complexo.

O caráter limitado e paradoxal do integralismo islâmico como meio de expressão da resistência nacional e social materializa-se plenamente na autoridade que esse movimento de idéias, de sentimentos e de ações concede a lideranças religiosas e políticas dos países e das sociedades árabes e muçulmanas, profundamente comprometidas com a submissão dos seus povos ao imperialismo e ao capitalismo.

As serviçais elites dominantes da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes, do Kuwait, da Jordânia, do Egito, etc., que transformaram suas nações em verdadeiros protetorados e semiprotetorados ocidentais, apresentam-se às populações de seus países como dirigentes profundamente pios e religiosos, servindo-se sistematicamente de interpretação integralista do islamismo para reprimir os diretos civis, sociais e políticos populares e nacionais.

Sem arredar pé da defesa do laicismo e dos direitos políticos, sociais e econômicos inalienáveis de todos os homens e mulheres, a esquerda acaba de mobilizar-se nas ruas da Dinamarca, junto com imigrantes e descendentes de imigrantes, islâmicos e não islâmicos, para defender a solidariedade e a fraternidade entre os homens e lutar contra o caráter obscurantista e anti-democrático das manobras racistas e xenofóbicas empreendidas, na Dinamarca e no mundo, em operações semelhantes ou não à promovida com a publicação das 12 caricaturas de Maomé.
 

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Mário Maestri, 57, é historiador [[email protected]]; Marconi de Matos, 51, é fotógrafo [[email protected]].

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