literatura
Da Teoria à Prática: outro soneto Camoniano (*)
------------------------------------------
Por Carolina Albala Joffily


Realizamos aqui o esboço duma possível análise do soneto Pede-me o desejo, Dama, que vos veja, de Luís de Camões, à luz das Linhas de Leitura propostas por Maria Vitalina Leal de Matos em A Lírica de Luís de Camões. Para tanto, partiremos da observação da engrenagem silogística do poema, estrofe a estrofe, no intuito de demonstrar como, na oposição entre a teoria e a prática, a ação predomina em detrimento da idealização apesar do domínio sobre a teoria se fazer presente na poética camoniana.
 

Pede-me o desejo, Dama, que vos veja,
Não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
Que quem o tem não sabe o que deseja.
Nesta primeira estrofe é estabelecida a proposta do poema: o “eu-lírico” afirma que o desejo pede que ele a veja, mas que (o desejo) está enganado porque o amor é tão delicado a ponto de quem ama não saber o que, de fato, deseja.
 
Não há cousa a qual natural seja
Que não queira perpétuo seu estado;
Não quer logo o desejo o desejado,
Porque não falte nunca o que sobeja. 
A segunda quadra vem explicar, por meio dum silogismo, qual é o caráter do desejo: parte da proposição de que nada natural não quer perpétuo estado, ou, mais claramente, tudo o que é natural pretende-se perene, portanto o desejo não quer o desejado para que se mantenha sempre desejando. Daí deduzimos que o desejo é natural e que o objeto desejado deve ser necessário e inalcançável para que o primeiro exista e mantenha-se eterno.
 
Mas este puro afeito em mim se dana;
Que, como a grave pedra tem por arte
O centro desejar da natureza,

assi o pensamento (pola parte
que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)
foi, Senhora, pedir esta baixeza.[1]

O primeiro terceto, iniciado pela adversativa, vem indicar que, embora o eu-lírico saiba que o desejo, como cousa natural, pretende-se eterno, nele isto não se aplica. É introduzido um cotejo que será encerrado no último terceto do poema: assim como a grave pedra, a ciência, o pensamento, a filosofia, deseja o centro da natureza, o pensamento, ou desejo dele, pediu que ele fosse vê-la porque ele é uma criatura terrestre, humana.

A parte “terrestre [e] humana” à qual a personagem-sujeito se refere está ligada diretamente à prática, embora tenha demonstrado anteriormente que tem domínio sobre os princípios teóricos, contemporâneos ao poema, que pregam a procura pela manutenção eterna do que é natural.

É deste modo que a análise proposta no poema procurar distinguir teoria e prática, diferenciando o pensamento e a ação.

Sob o ponto de vista da teoria, que crê na cousa natural querer perpétuo seu estado, a ação, que leva o “eu-lírico” à concretização do desejo, vendo a Dama, é caracterizada como “baixeza”.

É interessante observar que, embora, sob a perspectiva do plano dos princípios o ato de vê-la seja apontado como baixeza típica do humano, o “eu-lírico” faça questão de assumir sua “falha” e demonstrar, ao final do poema como aquela teoria não serve de nada ao ser terrestre e humano.

Desta maneira, fica evidenciado no poema em questão que apesar de coexistirem, como afirma Maria Vitalina Leal de Matos, o carnal e o espiritual, a estância prática, humana e carnal é privilegiada por Camões, em detrimento da teórica, sobre-humana e idealizada.
 

------------------------------------------
(*) Há análise anterior do soneto 'Busque Amor novas artes, novo engenho', publicada na revista. Clique aqui para acessá-la.

[1] CAMÕES, Luís Vaz de, Pede-me o desejo, Dama, que vos veja IN: MATOS, Maria Vitalina Leal de, A lírica de Luís de Camões, 4ª edição, Lisboa: Editorial comunicação, 1994, pp. 86.

------------------------------------------
Bibliografia:

· MATOS, Maria Vitalina Leal de, A lírica de Luís de Camões, 4ª edição, Lisboa: Editorial comunicação, 1994.
· SILVA, Vitor Manuel de Aguiar e, Camões: Labirintos e Fascínios, 2ª edição, Lisboa: Cotovia, 1999.

------------------------------------------
Carolina Albala Joffily, formada em Letras pela USP, é editora de Artes da Revista Consciência.Net

Artes | Literatura | Busca no site | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.