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Da Teoria à Prática: outro soneto Camoniano (*) ------------------------------------------
Pede-me o desejo, Dama, que vos veja,Nesta primeira estrofe é estabelecida a proposta do poema: o “eu-lírico” afirma que o desejo pede que ele a veja, mas que (o desejo) está enganado porque o amor é tão delicado a ponto de quem ama não saber o que, de fato, deseja. Não há cousa a qual natural sejaA segunda quadra vem explicar, por meio dum silogismo, qual é o caráter do desejo: parte da proposição de que nada natural não quer perpétuo estado, ou, mais claramente, tudo o que é natural pretende-se perene, portanto o desejo não quer o desejado para que se mantenha sempre desejando. Daí deduzimos que o desejo é natural e que o objeto desejado deve ser necessário e inalcançável para que o primeiro exista e mantenha-se eterno. Mas este puro afeito em mim se dana;O primeiro terceto, iniciado pela adversativa, vem indicar que, embora o eu-lírico saiba que o desejo, como cousa natural, pretende-se eterno, nele isto não se aplica. É introduzido um cotejo que será encerrado no último terceto do poema: assim como a grave pedra, a ciência, o pensamento, a filosofia, deseja o centro da natureza, o pensamento, ou desejo dele, pediu que ele fosse vê-la porque ele é uma criatura terrestre, humana. A parte “terrestre [e] humana” à qual a personagem-sujeito se refere está ligada diretamente à prática, embora tenha demonstrado anteriormente que tem domínio sobre os princípios teóricos, contemporâneos ao poema, que pregam a procura pela manutenção eterna do que é natural. É deste modo que a análise proposta no poema procurar distinguir teoria e prática, diferenciando o pensamento e a ação. Sob o ponto de vista da teoria, que crê na cousa natural querer perpétuo seu estado, a ação, que leva o “eu-lírico” à concretização do desejo, vendo a Dama, é caracterizada como “baixeza”. É interessante observar que, embora, sob a perspectiva do plano dos princípios o ato de vê-la seja apontado como baixeza típica do humano, o “eu-lírico” faça questão de assumir sua “falha” e demonstrar, ao final do poema como aquela teoria não serve de nada ao ser terrestre e humano. Desta
maneira, fica evidenciado no poema em questão que apesar de coexistirem,
como afirma Maria Vitalina Leal de Matos, o carnal e o espiritual, a estância
prática, humana e carnal é privilegiada por Camões,
em detrimento da teórica, sobre-humana e idealizada.
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