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Clássico belo e triste ------------------------------------------
Poucos livros serão tão belos e tão tristes como Os Meninos da Rua Paulo, do jornalista e escritor húngaro Ferenc Molnár (1878-1952), obra que encantou gerações em todo o mundo e que acaba de sair da lista de esgotados graças a novíssima reedição da Cosac Naify. Escrito em 1907 e lançado no Brasil somente em 1952, o grande clássico infanto-juvenil, com tradução original de Paulo Rónai (1907-1992), ressurge enriquecido por notas explicativas e um posfácio de Nelson Ascher. Adaptado três vezes para o cinema (a melhor versão, dirigida pelo húngaro Zoltán Fábri, foi indicada para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1969) e inúmeras para o teatro, Os Meninos da Rua Paulo é um desses livros que, escritos para crianças e adolescentes, acabaram cativando ainda mais os adultos. A explicação do fascínio exercido pela obra ao longo de quase cem anos pode ser encontrada no prefácio de Rónai: “Os Meninos da Rua Paulo é dessas leituras que nos acompanham pela vida afora, livro de aventuras que vale por um estudo de psicologia, livro de memórias em que não se percebe a presença do autor, livro de guerra que nos reconcilia com a humanidade”. De fato, ao narrar com ares de batalha épica a disputa de um terreno baldio por dois grupos rivais de meninos, Molnár conseguiu criar uma alegoria universal sobre a luta pela liberdade. A obra, impregnada de valores éticos e morais (cada vez mais em desuso), nos recorda, da primeira a última página, que o caráter do homem se revela nas horas e situações decisivas da vida. O impacto de Os Meninos da Rua Paulo em diferentes gerações de leitores pode ser equiparado ao de outras obras imortais como David Copperfield e Dom Quixote. Batalha épica O romance de Ferenc Molnár se concentra num terreno baldio situado entre edifícios, numa Budapeste onde o capitalismo já impunha a luta pelo dinheiro e o avanço da especulação imobiliária. É neste único terreno baldio, chamado de grund, que os meninos da Sociedade do Betume se reuniam depois das tediosas aulas de latim, para jogar péla (uma versão primitiva do tênis), promover eleições no clube e brincar de exército. As duas tarefas mais importantes do grupo eram defender o território e manter o betume (símbolo da sociedade) sempre úmido, por meio da mastigação. A grande aventura da infância tem início quando outra turma, a dos camisas-vermelhas, se vê sem espaço para jogar péla e decide declarar guerra à Sociedade do Betume para tomar-lhe o grund. A partir de então o terreno baldio se transforma no palco de um confronto planejado com os requintes estratégicos de uma verdadeira batalha militar. O que está em jogo, ressalta Paulo Rónai, não são uns poucos metros quadrados de terreno, mas “um reino para a aventura, a evasão, a liberdade”. Tensão A guerra pelo grund é tensa, emocionante e reserva uma grande revelação em seu final trágico e repleto de dignidade. Ao atingir o ponto máximo da literatura húngara com sua guerra das crianças – no Brasil o livro teve mais de 1 milhão de leitores –, Molnár acabou criando um elenco de personagens inesquecíveis em que a solidariedade e o heroísmo se mesclam à traição e à desonra. Do inteligente
e corajoso general João Boka ao pequeno e frágil soldado
raso Nemecsek, passando pelo traidor Geréb e pelo chefe do grupo
inimigo, o valentão Chico Áts, todos, sem exceção,
constituem figuras fascinantes que sintetizam e retratam a essência
do universo infantil. Capaz de mudar definitivamente a vida de uma pessoa,
Os Meninos da Rua Paulo será sempre leitura obrigatória
aos jovens de qualquer idade.
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