leituras
Clássico belo e triste
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Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár (1878-1952)Por Bruno Ribeiro, fevereiro de 2006


A infância parece ser a etapa mais leve e descompromissada da vida. Só parece. Na verdade, a infância é tão densa e conflituosa quanto a idade adulta – a literatura infanto-juvenil não se cansa de registrar isso.

Poucos livros serão tão belos e tão tristes como Os Meninos da Rua Paulo, do jornalista e escritor húngaro Ferenc Molnár (1878-1952), obra que encantou gerações em todo o mundo e que acaba de sair da lista de esgotados graças a novíssima reedição da Cosac Naify.

Escrito em 1907 e lançado no Brasil somente em 1952, o grande clássico infanto-juvenil, com tradução original de Paulo Rónai (1907-1992), ressurge enriquecido por notas explicativas e um posfácio de Nelson Ascher.

Adaptado três vezes para o cinema (a melhor versão, dirigida pelo húngaro Zoltán Fábri, foi indicada para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1969) e inúmeras para o teatro, Os Meninos da Rua Paulo é um desses livros que, escritos para crianças e adolescentes, acabaram cativando ainda mais os adultos.

A explicação do fascínio exercido pela obra ao longo de quase cem anos pode ser encontrada no prefácio de Rónai: “Os Meninos da Rua Paulo é dessas leituras que nos acompanham pela vida afora, livro de aventuras que vale por um estudo de psicologia, livro de memórias em que não se percebe a presença do autor, livro de guerra que nos reconcilia com a humanidade”.

De fato, ao narrar com ares de batalha épica a disputa de um terreno baldio por dois grupos rivais de meninos, Molnár conseguiu criar uma alegoria universal sobre a luta pela liberdade.

A obra, impregnada de valores éticos e morais (cada vez mais em desuso), nos recorda, da primeira a última página, que o caráter do homem se revela nas horas e situações decisivas da vida. O impacto de Os Meninos da Rua Paulo em diferentes gerações de leitores pode ser equiparado ao de outras obras imortais como David Copperfield e Dom Quixote.

Batalha épica

O romance de Ferenc Molnár se concentra num terreno baldio situado entre edifícios, numa Budapeste onde o capitalismo já impunha a luta pelo dinheiro e o avanço da especulação imobiliária. É neste único terreno baldio, chamado de grund, que os meninos da Sociedade do Betume se reuniam depois das tediosas aulas de latim, para jogar péla (uma versão primitiva do tênis), promover eleições no clube e brincar de exército.

As duas tarefas mais importantes do grupo eram defender o território e manter o betume (símbolo da sociedade) sempre úmido, por meio da mastigação.

A grande aventura da infância tem início quando outra turma, a dos camisas-vermelhas, se vê sem espaço para jogar péla e decide declarar guerra à Sociedade do Betume para tomar-lhe o grund. A partir de então o terreno baldio se transforma no palco de um confronto planejado com os requintes estratégicos de uma verdadeira batalha militar.

O que está em jogo, ressalta Paulo Rónai, não são uns poucos metros quadrados de terreno, mas “um reino para a aventura, a evasão, a liberdade”.

Tensão

A guerra pelo grund é tensa, emocionante e reserva uma grande revelação em seu final trágico e repleto de dignidade. Ao atingir o ponto máximo da literatura húngara com sua guerra das crianças – no Brasil o livro teve mais de 1 milhão de leitores –, Molnár acabou criando um elenco de personagens inesquecíveis em que a solidariedade e o heroísmo se mesclam à traição e à desonra.

Do inteligente e corajoso general João Boka ao pequeno e frágil soldado raso Nemecsek, passando pelo traidor Geréb e pelo chefe do grupo inimigo, o valentão Chico Áts, todos, sem exceção, constituem figuras fascinantes que sintetizam e retratam a essência do universo infantil. Capaz de mudar definitivamente a vida de uma pessoa, Os Meninos da Rua Paulo será sempre leitura obrigatória aos jovens de qualquer idade.
 

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frases
O que dizem os fãs da obra

“A rua Paulo poderia ser em qualquer cidade do mundo. A história, repleta de acontecimentos que norteiam sentimentos, é exemplo para os dias de hoje. As guerras adultas continuam injustas e a Sociedade do Betume não morrerá jamais dentro de mim”

Edgard Scandurra, integrante da banda de rock Ira!
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“Pistas para identificar um clássico: sua capacidade de atravessar épocas e fronteiras e, indiferente a modismos e tendências, permanecer encantando leitores de qualquer idade.”
Marçal Aquino, escritor
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“Os Meninos da Rua Paulo é um livro que fez parte da minha própria adolescência – e olhe que eu já completei 86 anos! Esta obra é um clássico na plena acepção do termo, e fez a alegria também dos meus filhos”
Tatiana Belinky, escritora e tradutora
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“Molnár descreve com paixão os problemas íntimos, as peripécias e reações comuns a todos os meninos e meninas que, em qualquer país, procuram espaço para o indispensável exercício do espírito lúdico”
 
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serviço
Os meninos da rua Paulo
Ferenc Molnár
Tradução e prefácio: Paulo Rónai; Posfácio e notas: Nelson Ascher; Ilustrações: Tibor Gergely. 256 páginas; com ilustrações; 20 x 13 cm; 0,29 kg; ISBN 85-7503-431-6. Reedição da Cosac Naify: maio, 2005. Onde comprar: Cosac Naify.

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Bruno Ribeiro é jornalista e editor da seção de Artes da Revista Consciência.Net


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