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Análise Bandeiriana ------------------------------------------ Pensão familiar
"- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação" (M. Bandeira)
Para tanto, há de levar-se em conta o fato de que ambos os poemas foram compostos por seus respectivos autores num período que abarca os anos de 1922 a 1930, fase de caráter "radical" modernista, na qual, entre outras, houve a publicação do "Manifesto da Poesia Pau Brasil", por Oswald de Andrade, obra na qual observa-se a proposição de alguns aspectos de extrema relevância, que caracterizam a poética do período, e da qual nota-se influência tanto sobre os poemas em questão quanto sobre grande parte das composições literárias e artísticas contemporâneas a ela. "Pensão Familiar", em anexo, foi publicada no livro "Libertinagem", de Manuel Bandeira, no ano de 1930, tendo sido composta em 1925 pelo poeta. Situando-se entre uma vasta gama de artistas que deram origem ao Movimento Modernista; iniciado em 22 com a Semana de Arte Moderna, na qual o próprio autor teve participação ativa em sua concretização junto a Mário, Oswald de Andrade e outros; Bandeira apresenta em boa, se não toda, parte de sua obra traços especificamente modernistas. O poema, conforme pretende-se verificar na seqüência, ilustra a afirmação; Logo de partida, observa-se, tanto no primeiro como no segundo poema, além de sua sinteticidade, a ausência da utilização de um vocabulário apurado ou erudito. Aliás, é característica não só dos poemas aqui destacados, como também de toda a produção literária dessa primeira fase modernista, a opção pelo rompimento com a solenidade acadêmica e a defesa da livre expressão, ou ainda, segundo Oswald de Andrade em "Manifesto da Poesia Pau Brasil": "Contra o gabinetismo, a prática culta da vida... A língua sem arcaísmo, sem erudição (...) Como falamos. Como somos." Ambos os poemas descrevem cenas cotidianas que, em seu âmago, fundem sutis críticas sociais, embora não de todo explícitas, amalgamadas em suas estruturas e expressões. É interessante observar que, tanto num quanto noutro poema, a sátira se dá por meio da composição de cenários, a caracterização dos ambientes que evidenciam a decadência; a "pensãozinha burguesa", por um lado, que já traz na própria expressão o caráter depreciativo denotado pelo diminutivo e o navio, onde boas famílias de imigrantes encontram-se meio a gigolôs, jogatinas e bebedeiras. Enquanto Oswald de Andrade relaciona figuras aparentemente desproporcionais como o compatriota de boa família embriagar-se ou gigolôs coexistirem a famílias, a caracterização satírica no poema de Bandeira é calcada na personificação de elementos da natureza. Apesar de intitulado "Pensão Familiar", o poema apresenta apenas figuras como os gatos, a tiririca, o sol, gosmilhos, girassóis e dálias, sendo composto por uma única ação efetiva: a do gato "fazer pipi" e "encobrir a mijadinha". Ao resgatar seus atos e afirmar a superioridade na elegância do animal, ressaltada pelo travessão (último verso), sobre todos os outros moradores da pensão, sobretudo levando em conta os versos que antecedem este último (última estrofe) e denotam os gestos do gato, que urina e cobre a excreção, comparando sua naturalidade à de um garçom, em tom de humor, Bandeira debocha e infama cinicamente a sociedade, e provavelmente trata-se aqui da baixa burguesia, em decadência. Os poemas seguem a "linha modernista" em relação a métrica, ou seja, optam pelo rompimento com o tradicional, não apresentam regularidade aparente entre os versos, assim como é possível observar-se através de suas composições por verso-livre. Os recursos usados na imposição de ritmo aos poemas são a estrutura dos versos, a pontuação e a disposição consonantal, apreciadas adiante; A pontuação utilizada por Manuel Bandeira confere quebras repentinas nos primeiros versos do poema, momento em que descreve todo o cenário observado, atribuindo semanticamente a estes um ritmo que sugere uma visão fotográfica sobre as cenas, como se fossem vistas em contínuos "flashes", enquanto, conforme observa-se nos últimos versos, o momento em que há ação do gato e seus detalhes são contemplados calmamente, não há quebra alguma por meio de pontuação, tornando-a cena central da observação. A exclamação "amarelo!" (verso6), reforça a idéia da observação da cena. Ao passo que o eu lírico vai vislumbrando o jardim, em dado momento, se depara frente a forte luz solar, na direção em que dirigem-se os girassóis, descritos no verso anterior. O mesmo acontece em "Cielo e Mare", a partir de sua estruturação. O poema de Oswald de Andrade alterna versos longos e curtos, caracteriza, assim como faz "Pensão Familiar", a composição por imagens fotográficas das cenas. O eu lírico se atém por um período mais longo na observação das ocorrências de "contradições". Além da pontuação e disposição formal, ambos os poemas valem-se da utilização de consoantes explosivas, oclusões sonoras: ‘b’, ‘m’ e ‘d’ e surdas: ‘p’ e ‘t’, alternando-as, e de contínuas nasais: ‘m’ e ‘n’ nos últimos cinco versos de "Pensão Familiar", enfatizando a lentidão e delicadeza com que age o gato, e nos versos 6 e 7 de "Cielo e Mare", relacionando famílias e gigolôs. Tendo sido colocados em evidência
alguns aspectos correspondentes entre os poemas; como a síntese,
a tendência à oralidade, a utilização do verso-livre,
a semelhança nas unidades rítmicas e os objetos comuns satirizados;
dá-se aqui por encerrado o trabalho, que mais, ou menos, do que
análise, teve como objetivo principal estabelecer um cotejo entre
os poemas "Pensão Familiar" e "Cielo e Mare".
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