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Obrigado, Fernando Henrique
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Por Luis Fernando Verissimo, O Globo, 12/2/2006 [http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/veriss.asp]


Recebi um cartão de crédito novo para substituir um vencido. Junto, a instrução: ligar para 4001-4828 para desbloquear o cartão.

Como sabe quem liga para um número destes, é preciso passar por um teste de atenção e reflexos, comandado por um robô com voz feminina, antes de merecer o direito de falar com um ser humano. De acordo com o assunto, digita um número, que leva a outra escolha de número, que leva a outra, e a outra, até — se você escolheu a seqüência certa — ser saudado por uma voz de gente, mas parente do robô, porque o tom é parecido, que pergunta em que pode servi-lo. Eu disse o que queria. Desbloquear o cartão novo que tinham me mandado.

Para minha segurança, disse a prima do robô, ela precisaria confirmar alguns dados. Numeração do cartão vencido. Numeração do cartão novo.

Meu número de RG. O número do meu CIC. O nome do meu pai. O nome da minha mãe. Gosta de iogurte? É ciumento? Não, esses dois itens eu estou inventando. Mas dei a informação pedida. Depois de uma pausa para consultar o computador, a voz disse:

— Senhor, os dados não estão corretos.

Examinei os números do cartão antigo e do novo. Eram aqueles mesmo. Meu RG era aquele mesmo. Meu CIC também. Será que eu passara a vida inteira chamando meu pai pelo nome errado? E o nome da minha mãe, era pseudônimo? Pouco provável. Eu disse para a voz que os dados estavam certos.

—- Senhor, alguns dados não conferem com os que temos. Por favor, muna-se da documentação necessária e ligue outra vez.

— Mas eu estou com a documentação aqui e se ligar outra vez vou dar a mesma informação.

— Senhor, por favor, muna-se da documentação necessária e ligue outra vez.

— Quais são os dados que não estão certos?

— Senhor, não podemos dar essa informação.

— Mas como é que eu posso corrigir um dado se não sei qual é o errado?

— Senhor...

Finalmente descobri que podia passar um fax com cópias dos documentos que provavam que eu era eu. Foi o que eu fiz. Semanas depois recebi uma carta impressa, com um “x” marcando a razão pela qual meu fax era inaceitável: “Ilegível”. Mandei as mesmas cópias, bem nítidas, pelo correio. Passaram-se semanas. Liguei outra vez para o 4001-4828, para saber das novidades. A voz sabia do meu fax ilegível.

— Mas eu mandei uma carta depois.

— Também estava ilegível.

Desisti de desbloquear meu cartão novo. Tudo bem. A vida moderna tem esses buracos negros tecnológicos, culpa de ninguém. Mas será que sabem o estrago que fizeram no amor próprio de um cronista, chamando-o repetidamente de ilegível? Foi por estar assim fragilizado que fiquei emocionado quando me contaram que o Fernando Henrique Cardoso, na sua entrevista no “Roda Viva” (não vi, estava vendo outro bom ator, o Marlon Brando, na Net), disse que eu não entendia de nada, mas escrevia bem. Eu e meu ego nos sentimos desagravados. Obrigado, Fernando Henrique!

Só um adendo. Há dias chegou uma correspondência do cartão de crédito, estranhando a minha demora em desbloquear o cartão novo.

Se não fosse uma carta impressa, sem uma assinatura humana, eu desconfiaria de ironia.
 


Por Luis Fernando Verissimo, O Globo, 12/2/2006 [http://oglobo.globo.com/jornal/colunas/veriss.asp]

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