desertificação
2006, assunto grave não pode ser desmerecido
A desertificação, fenômeno de degradação de ecossistemas de clima semi-árido, árido e seco transformando-os em desertos, tem sido intensificada nos últimos anos pelas atividades humanas e pela mudança climática – que também não deixa de ter a mão humana. Segundo as Nações Unidas 250 milhões de pessoas são afetadas diretamente pela desertificação. Ser afetado diretamente pela desertificação significa perder as condições de subsistência geradas nas áreas atingidas, levando assim ao aumento da pobreza, das doenças e da migração. Na foto, o processo de desertificação no olhar de Thiago Gaspar

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Por Clarissa Taguchi, da Revista Consciência.NetReportagem especial da Editoria de Ecologia, janeiro de 2006


O Ano de 2006 foi escolhido pelas Nações Unidas como Ano Internacional dos Desertos e da Desertificação pela urgência que o assunto passa a ter ano após ano. A proporção de áreas atingidas pela seca no planeta dobrou desde a década de 70 segundo análise do US National Center for Atmospheric Research (NCAR). Se as temperaturas tendem a continuar subindo – 2005 foi o segundo ano mais quente do planeta e o mais quente do Hemisfério Norte – em proporções maiores que conseguimos remediar, onde serão feitos os nossos cultivos? Daí a degradação absurda de ecossistemas como a Amazônia, de clima tropical-úmido, para plantio de soja e pasto.

A desertificação leva a quebras de safra em todos os cantos do planeta, mais gastos com saúde, subsídios agrícolas em todos os formatos e tamanhos, ao deslocamento de povoados, ao encarecimento da produção, à diminuição dos valores nutritivos e inúmeras outras situações desvantajosas à economia. O mais tocante à desertificação não são os pobres deixados sedentos em suas terras e forçados ao êxodo em direção às cidades, para a grande maioria o maior efeito é a perda econômica que a ela desencadeia.

Plantar soja na Amazônia e Pantanal, eucalipto nos Pampas e sul da Bahia e Espírito Santo é mais vantajoso que tentar realocar água em locais onde o ecossistema já foi sugado pela agricultura industrial (irrigação+agrotóxicos), pelo turismo, enfim, pelo desenvolvimento econômico ambientalmente insustentável que praticamos.

O exemplo brasileiro

Imagem: Ambiente Brasil...
Recheado de debates acalorados e polêmicos, a transposição do rio São Francisco no semi-árido Nordestino para dar fim à seca é uma das obras principais da campanha do Governo Lula. Liderado pelo ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, o projeto titulado 'Revitalização e Integração do São Francisco' já foi remodelado inúmeras vezes passando pelas mãos do MMA, do Ibama e ANA a fim de justificar o orçamento bilionário de suas obras em prol do maior número de habitantes.

Transpor um rio de quase três mil quilômetros de extensão, nascido no Estado de Minas Gerais, que deságua no oceano Atlântico através dos Estados de Sergipe e Alagoas e que está envolvido diretamente na vida milhões de brasileiros nordestinos – cerca de 20% da população – não é uma obra que pode não dar certo. O rio São Francisco é um rio sobrevivente como seu povo, já passou por inúmeros percalços desastrosos como o Pró-Várzeas da década de 80, mas que assim como qualquer criatura viva tem o seu limite.

Uma análise mais detalhada do projeto evidencia o beneficiamento da agroindústria de capital e não a familiar de uma das regiões mais cobiçadas do planeta pois suas várzeas são ricas em nutrientes e propícias ao cultivo de peixes, camarões e frutas, lembrando o rio Nilo dos tempos Egípcios. Com a crescente degradação de outras áreas férteis do planeta, a América Latina em desenvolvimento é a próxima parada da agroindústria de grande capital.

É fácil e rápido transformar ecossistemas férteis em lavouras industriais, o problema é que não faz-se necessário mais que uma geração para ver que seus resultados são extremos, o Estado do Rio Grande do Sul é um exemplo. Não bastando as perdas acarretadas pela introdução da soja transgênica, agora do milho e o uso intensivo de agrotóxicos, o RS passa por períodos de estiagem intercalados por alagamentos que ultrapassam os meses mais secos interferindo na safra do ano inteiro.

O lado desfavorável à transposição, e que não pode ser ignorado, é a sociedade civil organizada que há décadas trabalha com a manutenção das populações locais através de programas de convivência com o semi-árido como o Programa Um Milhão de Cisternas Rurais que armazena a água dos períodos de chuva em cisternas de uso familiar. Ao final da II Conferência Nacional do Meio Ambiente em dezembro de 2005, as entidades deixaram clara sua posição em relação ao empreendimento no documento final da IICNMA:

"Suspender o processo de transposição do rio São Francisco até que hajam novas discussões com o setor empresarial, a sociedade civil e a comunidade científica, respeitando as deliberações de Comitês de Bacias Hidrográficas - notadamente em cumprimento às atribuições político-institucional das instâncias deliberativas dos Comitês de Bacias das supostas bacias receptoras, bem como da realização de relatório de estudo/impacto e revitalização das bacias receptoras, procurando aumentar a sustentabilidade ambiental nas bacias carentes em água do Nordeste brasileiro, com a implantação de programa de revitalização ambiental em todas essas bacias, e não apenas na do rio São Francisco" (link).

2006: promessas de futuro ou demagogia?

A julgar pela gravidade dos problemas gerados pela desertificação no mundo, o ano de 2006 não deve conter o tom de celebração. Segundo Chérif Rahmani, embaixador das Nações Unidas, "Queremos aumentar a consciência internacional, regional, nacional e local sobre os desertos. A desertificação é um assunto transnacional e um problema global".

"O problema com relação ao deserto não é apenas mecânico, físico. Não é apenas a erosão do solo e não há apenas uma única dimensão a ser enfrentada, há a dimensão econômica, política e cultural" diz Rahmani lembrando que os desertos não são desabitados e que diferentes povos, línguas e culturas estão ameaçados. Para Rahmani o ano de 2006 tem muito a contribuir aos povos do deserto ao lhes permitir maior visibilidade, um dos objetivos é criar ferramentas a esses povos, desenvolver métodos para melhorar o conhecimento tradicional e refrear a desertificação. 

Infelizmente o processo de desertificação não tem retorno e pode apenas tornar-se mais lento se respeitarmos a vida de nossos ecossistemas através de modelos de desenvolvimento sustentáveis do ponto de vista sócio-ambiental não apenas econômico. Conhecer os modelos utilizados pelos povos que vivem no deserto é essencial à nossa sobrevivência no futuro – percebe-se que o futuro será ensolarado e seco. Neste contexto há quem acredite que a tecnologia permitirá que tais desafios ambientais sejam amenizados e há quem acredite que inclusive a tecnologia tem seu preço. 

A sensibilização em relação à gravidade da desertificação somente terá resultados com a participação da sociedade – e assim é para todos os seus outros problemas, através de seus governos, de suas instituições e principalmente através de suas pessoas. 
 

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Clarissa Taguchi é idealizadora da Cia Ecológica e editora de Ecologia da Revista Consciência.Net

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