discos
Passoca comemora
30 anos de música e amor pelo Brasil
Contracapa
de 'Breve História da Música Caipira'.
Artista
que faz questão de primar pela tenacidade de sua obra e pelo respeito
ao formato original da canção, Passoca é, antes de
tudo, um pesquisador e um pensador da cultura nacional. Com apenas seis
discos de carreira e poucas aparições na mídia, nunca
foi presença habitual nos programas de auditório, mas, situado
pelos críticos entre os grandes criadores da MPB contemporânea,
tem provado a capacidade de permanência do caminho que abraçou.
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Por
Bruno Ribeiro, janeiro de 2006, para a Revista Consciência.Net
Há
exatos 30 anos a viola ganhava contornos urbanos e uma nova leitura da
tradição. Tratada com respeito sob um olhar de vanguarda,
a música caipira começava, no início dos anos 80,
a abrir a picada rumo à academia e ao teatro de câmara, mas
sem perder a veia da simplicidade popular. Antes, é certo, a viola
podia até contar com a extravagância harmônica de Egberto
Gismonti – mas esta ficava restrita ao público intelectualizado.
Por outro lado havia a seiva bruta vinda do simplismo das duplas sertanejas
de raiz, como Cacique e Pajé. Até então não
havia ninguém como Passoca, cantor, compositor e instrumentista
urbano, intimamente relacionado à Vanguarda Paulistana, mas sentimentalmente
comprometido com o universo rural e interiorano de São Paulo. Mantendo
a candura das letras, mas explorando a afinação da viola
caipira até a dissonância, o simples e refinado músico
paulista foi o primeiro a abrir a porteira. Outros, que vieram no rastro,
ganharam fama e reconhecimento em seu lugar.
Numa justa
homenagem aos 30 anos de bons serviços prestados a cultura brasileira,
a gravadora Atração Musical acaba de colocar no mercado uma
caixa comemorativa contendo três CDs de carreira do músico.
Com tiragem limitada, a coleção reúne na mesma caixa
os fundamentais ‘Breve História da Música Caipira’ (1997),
‘Passoca canta inéditos de Adoniran’ (2000) e o novíssimo
‘Passoca canta João Pacífico’, lançado em 2005. Os
três álbuns são a síntese perfeita da carreira
que o artista construiu tendo como base a história afetiva e provinciana
de São Paulo. O único porém é que a trilogia
comemorativa de Passoca destaca somente seu lado intérprete. Uma
pena, pois a obra do compositor é original e traz algumas pequenas
relíquias do gênero, como ‘Sonora Garoa’, composta em 1983.
Aliás,
‘Sonora Garoa’, que acabou batizando o primeiro LP do compositor, pode
ser considerada a primeira moda de viola a usar acordes dissonantes aliados
a uma letra ao mesmo tempo moderna e passadista, repleta de referências
ao antagonismo da metrópole que insiste em acolher o regional. Nesta
época, o estudante de Arquitetura Marco Antônio Villalba,
o Passoca, foi apresentado ao grupo da Vanguarda Paulistana pela cantora
Vânia Bastos, com quem foi casado. Tornou-se amigo de Arrigo Barnabé,
seu grande incentivador. Desde então tem sido um dos nomes mais
importantes da nova música regional brasileira, sem, contudo, se
livrar de um certo ar exclusivista, adquirido injustamente por sua ligação
com os músicos de vanguarda. “O tipo de coisa que eu fazia nunca
interessou às gravadoras, mesmo sendo acessíveis e populares.
Estou completando 30 anos de carreira e é como se estivesse começando:
pouca gente me conhece”, diz, sem se lamentar.
Artista
que faz questão de primar pela tenacidade de sua obra e pelo respeito
ao formato original da canção, Passoca é, antes de
tudo, um pesquisador e um pensador da cultura nacional. Com apenas seis
discos de carreira e poucas aparições na mídia, nunca
foi presença habitual nos programas de auditório, mas, situado
pelos críticos entre os grandes criadores da MPB contemporânea,
tem provado a capacidade de permanência do caminho que abraçou.
A arte de Passoca acompanha o ritmo do crescimento urbano e aparece como
uma música de fronteira: ela fica onde termina o campo e começa
a cidade. A caixa comemorativa de seus 30 anos de estrada é obrigatória
para todos aqueles que valorizam o resto de verdade que ainda se produz
no Brasil.
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Os
Álbuns
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Breve História
da Música Caipira
São
14 faixas que resumem a história da música caipira no Brasil,
começando por clássicos do gênero como ‘Tristeza do
Jeca’ e desembocando em composições relativamente atuais
como ‘Romaria‘’. Fazem parte do álbum também ‘Marvada Pinga’,
‘Rio de Lágrimas’ e ‘Sonora Garoa’, a única composta por
Passoca. O músico mostra que é possível ousar nas
harmonias sem perder a aura original das canções. Ouça
aqui .
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Passoca canta inéditos
de Adoniran
O
músico vasculhou o acervo pessoal de um amigo de Adoniran Barbosa
e resgatou algumas letras inéditas deixadas pelo sambista. Valorizando
as pausas e as dissonâncias, Passoca coloca música nos poemas
e inaugura uma divertida parceria póstuma, fincada em faixas como
‘A Lagartixa’, ‘Vai da Valsa’ e ‘Filé de Onça’. Ouça
aqui .
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Passoca canta João
Pacífico
João
Pacífico foi o maior compositor da música caipira em todos
os tempos, mas ainda não tinha merecido uma homenagem à altura.
Neste álbum precioso, Passoca apresenta o poeta caipira às
novas gerações e presta um valioso serviço aos historiadores.
Há canções célebres, como ‘Cabocla Tereza’,
mas também obras pouco conhecidas como ‘Minha Rua’, ‘Mourão
da Porteira’ e ‘Rio Tietê’, que Passoca compôs com Pacífico
pouco antes de sua morte.
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Bruno Ribeiro
é jornalista e escritor. Torcedor do glorioso São Cristóvão
Futebol Clube, não deu certo como ponta-esquerda, não deu
certo como poeta maldito, não deu certo como compositor de samba.
Foi ser jornalista e escrever sobre os bares
de Campinas. Segue o lema de Maiakóvsky: também acha
preferível morrer de vodca a morrer de tédio. Há algum
tempo é editor da seção de Artes da Revista Consciência.Net.
Contato: bruno@cumbuca.com.br
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