reportagem especial
Segurança no trabalho: algo a ser conquistado
É dever de toda empresa, estatal ou privada, zelar pela saúde de seus trabalhadores. É o que diz a lei 8080 de setembro de 1990, que determina uma série de implementações a fim de atender à saúde do trabalhador em seu serviço. O cumprimento da lei, em seus requisitos mais básicos, no entanto, ainda é pouco notado. Equipamentos na Construção Civil são obrigatórios mas, apenas na última semana foram notícias cerca de três quedas de operários, seguidas de morte. Aos hospitais, também se julga uma proteção mínima de seus funcionários, mas o lixo com seringas contaminadas não tem destino certo.

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Reportagem especial de Brisa Grillo, janeiro de 2006 (*), para a Revista Consciência.Net


O combate ao mosquito Aedes aegypti, tão comum no verão, esconde um terrível risco, tanto para seus agentes pulverizadores, quanto para os moradores da região tratada. Seja no trabalho com produtos químicos ou mesmo em uma sala de aula, é raro um profissional que não tenha tido alguma doença ocupacional. A Lesão por Esforço Repetitivo (LER), por exemplo, atinge inúmeras pessoas que, talvez, nem saibam possuí-la. Estar atento aos riscos que se pode correr no exercício diário da profissão é importante, e saber como lutar por seus direitos, também.

Organofosforados: combate à dengue e fumacê

Utilizados freqüentemente como agrotóxicos ou inseticidas, os organofosforados são recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o combate de vetores de doenças como a dengue e malária, em preferência aos organoclorados (DDT, DDE etc), proibidos mundialmente. Seu uso é restrito, exigindo o uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para aqueles que o manuseiam, sendo eles agricultores ou não. Tal equipamento, no entanto, não foi inserido às práticas de combate ao mosquito da dengue pela Fundação Nacional da Saúde (Funasa), que possui, no Tribunal de Justiça Federal, mais de 500 processos por danos à saúde de seus trabalhadores, tanto do Rio de Janeiro quanto dos demais estados brasileiros. A bióloga Fátima de Souza conta que começou a trabalhar, pela Sucam (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, do Ministério da Saúde), no combate à dengue, ainda em 1988, quando já começou a sentir os sintomas da intoxicação. "Com cerca de três meses de trabalho apresentei paralisia no corpo inteiro. Ninguém sabia o que poderia ser, pois o inseticida (malathion) era novo, ninguém conhecia", descreveu.

Fátima foi transferida de setor mas, em 1992, já pela Funasa, voltou ao trabalho de campo. "Em abril deste ano retomei a pulverização com bombas, e sofri um acidente terrível. Meu inspetor fazia serviços particulares com o material da Funasa aos fins de semana e, daquela vez, não limpou os canos condutores. Quando liguei a máquina para trabalhar, na segunda-feira, ela explodiu no meu rosto. Levei um banho de inseticida, que atingiu meus olhos, boca e nariz. Me deixou com o rosto inchado e, temporariamente, cega. Fiquei das 9h às 17h sem socorro médico. Um ano e meio depois engravidei, mas perdi um filho, dos gêmeos que esperava. Fiz uma pesquisa, e descobri que o inseticida que havia me contaminado era abortivo", contou Fátima. Sua filha herdou os problemas da contaminação. Aos dois anos de idade, o bebê já apresentava tendinite.

Os sintomas pertinentes à contaminação pelos organofosforados são os mesmos para todos os trabalhadores atingidos. Agitação, irritabilidade, insônia, déficit de memória, convulsão, depressão, alucinação, mudança de humor e psicose. Ex-trabalhador da Funasa, Saulo Nunes se contaminou no exercício diário da profissão. "Não tínhamos muito equipamento de segurança. Não usávamos luvas, nem máscaras adequadas. Havia um inseticida com que trabalhávamos, que não tinha nem rótulo. Descobri que estava intoxicado pelos sintomas que estava apresentando, como falta de concentração e memória, fraqueza e muita câimbra", explica Saulo.


Fátima e Saulo, duramente atingidos pelo organofosforado,
produto utilizado de maneira irresponsável pela Funasa

O contato com o organofosforado

Segundo a pesquisadora do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Heloísa Pacheco, são várias as possíveis fontes de exposição das pessoas aos agrotóxicos, tais como: agricultores; acidentes na estocagem e falhas de equipamento, que podem acarretar vazamentos; pilotos que pulverizam plantações e contaminação por fontes de água. Os agentes de saúde da Funasa, atuando no combate à dengue, aplicavam em todo o local o inseticida e, inclusive, nas caixas d'água dos moradores. Segundo Fátima, eram freqüentes as reclamações. "Por verificação de campo, sei que os moradores foram contaminados também. Muitas vezes encontramos moradores até armados. Eles observavam que depois que havíamos passado, alguém da família tinha ficado doente. Poços d'água ficaram imprestáveis depois da passagem da Funasa, animais e plantas que morriam, apiários inteiros foram dizimados, pássaros mortos...", relatou Fátima.

O Fumacê, que até pouco tempo atrás passava em ruas de todo o estado, é feito de uma concentração altíssima destes organofosforados. "Crianças brincavam nesta fumaça. É prejudicial. Aqui no Rio de Janeiro, ele está proibido, mas sabemos que ainda é usado em alguns municípios. A Funasa oculta muito. No interior do Amazonas foi denunciado que se usa ainda o DDT, que é proibido desde 1986 no mundo inteiro. Os índios estão dizendo: 'A fumaça da Funasa mata o índio'", revela Fátima, citando um encontro ocorrido em Brasília, no começo de setembro, onde todos os contaminados por organofosforado do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pará expuseram, à Câmara, os problemas que vêm passando.


Fátima mostra laudo conclusivo de sua contaminação;
Centenas de pessoas são prejudicadas em todo o país.

Silicose não tem cura

A silicose é uma doença proveniente de contato com a poeira de sílica. Diversos trabalhadores podem adquirir essa doença, pois, sendo um elemento abundante na natureza, é usada como componente de vários materiais, podendo haver exposição a ela em uma grande variedade de indústrias e ocupações. Na agricultura, pode haver contaminação pela aragem, colheita e pelo uso das máquinas; na construção, através do uso de abrasivos para o jateamento de estrutura e edifícios, na construção de estradas e túneis e no trabalho com concreto e demolição. Trabalhos envolvendo manipulação de fibra de vidro, sabões e cosméticos, material dentário, asfalto, artes plásticas, joalherias e reparos de automóveis também expõem o trabalhador ao contato com a sílica.

De autoria do deputado Carlos Minc, a lei 1979/92 proibiu o jateamento de areia na limpeza e reparo de navios, obrigando as empresas a mudar de tecnologia. O jato de areia causou, comprovadamente, a silicose ou, como é popularmente chamada, "pulmão de pedra", em mais de 580 trabalhadores. Hoje em dia, as empresas da área são constantemente fiscalizadas como, por exemplo, o Estaleiro Mauá, em Niterói. "Aqui não temos trabalhadores com silicose, porque não usamos mais areia no jateamento. Substituímos por outro elemento: escória de cobre. É um produto isento de sílica, usado, inclusive, nos portos de Cingapura", disse o engenheiro Carlos Dantas, responsável pela Medicina do Trabalho do Estaleiro.

Segundo a pesquisadora do Instituto Nacional do Câncer (INCA), Fátima Sueli Ribeiro, a mudança para o derivado do cobre não surtiu o efeito esperado. "A contaminação por sílica continua. Pegamos amostras de diversos estaleiros do Rio de Janeiro, e verificamos que o cobre está contaminado por sílica", explicou. Para a pesquisadora, o uso do cobre como substitutivo para a sílica, mesmo que fosse eficaz, traria outros danos. "E aonde é jogada fora a escória do cobre? Esse descarte é um problema. Descobrimos que estão despejando tudo na Baía da Guanabara", disse.

A silicose é um distúrbio sério que, apesar de potencialmente evitável, apresenta altos índices de incidência, principalmente nos países menos desenvolvidos, se tratando de uma doença irreversível e sem tratamento. O Brasil possui um Programa Nacional de Eliminação da Silicose (PNES), que estima um número de seis milhões de trabalhadores expostos a poeira contendo sílica. Deste número, quatro milhões deles estão na Construção Civil.

A silicose também predispõe o organismo a uma série de outras doenças, como a tuberculose, o enfisema, doenças auto-imunes e câncer. O diagnóstico da sílica é feito através de uma radiografia do tórax, juntamente com uma história clínica e ocupacional do trabalhador.

Um barulho ensurdecedor

O incômodo pode não ser tão perceptível, mas ruídos de obras, de discotecas ou de automóveis em alta velocidade podem causar perda de audição, estresse contínuo, entre outros. Trabalhadores que ficam expostos por mais de oito horas diárias a tais níveis sonoros podem, inclusive, ter perda auditiva total.

No Ingá, bairro de Niterói, na rua São Sebastião, desde junho deste ano, está em andamento uma obra de contenção de encosta. Personagem fundamental da obra, a britadeira, como é mais conhecida, entra em atividade, pontualmente, às 9h. "O barulho é muito forte. No final do dia, estamos estressados. Às vezes, o incômodo é tanto que queremos conversar com o freguês, e não conseguimos. Eles começam de manhã, param para o almoço, e depois, retomam o trabalho com a britadeira", explica o mecânico José Iracson, que trabalha em uma oficina em frente à obra.

A britadeira figura nas tabelas de decibéis (dbs) no pior nível, o “desagradável”, com 130dbs de ruído. Uma serra elétrica alcança picos de 100 dbs, na categoria “extremamente alto”, juntamente com o tráfego de caminhões, com 90 dbs. Uma obra como essas, portanto, pede protetores auriculares, necessários para garantir a saúde do trabalhador.

Segundo o engenheiro da obra, Álvaro Naylor, os acidentes que aparecem nos jornais envolvendo obras de construção civil são úteis para lembrar das proteções necessárias. "São bons exemplos. Fazemos reuniões para lembrá-los de usar os equipamentos. Aqui na obra, quem não usar vai embora. Muitas vezes encontramos resistência por parte deles", conta Álvaro Naylor. Segundo o engenheiro, os funcionários usam capacete, luvas, botas, óculos, cintos de segurança e protetores auriculares. "Mas não são todos que precisam usar os protetores. Apenas os que estão trabalhando com a britadeira utilizam essa proteção", revela o engenheiro.

Segundo a fonoaudióloga Bárbara Beatriz Kraemer, o problema vai além da falta dos protetores auriculares. "O certo é que todos usem, pois estão por perto. Mas quem está 'protegido' sofre, tanto por via aérea, quanto por via óssea", explica. A médica se refere a estudos que indicam que o impacto do uso da britadeira afeta o sistema perceptor do som. Assim, a agressão aos nervos auditivos se faz de forma mais rápida.
 

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Brisa Grillo (brisagrillo@gmail.com) é estudante de jornalismo e colabora com a Revista Consciência.Net

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(*) Reportagem finalizada em outubro de 2005 e publicada em janeiro de 2006. A Revista Consciência.Net, por meio de seus editores, se responsabiliza com as informações aqui contidas. Original desta matéria: http://www.consciencia.net/2006/0127-seguranca-no-trabalho.html


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