indígenas
“Não Queremos Guerra, Queremos Nossas Terras”
Foto: Rita Salgado..
Da Comissão de Direitos Kaiowá Guarani, dezembro de 2005


Na região da fronteira do Brasil com o Paraguai o clima é de guerra contra os Kaiowá Guarani e nossos direitos. Nossas terras foram sendo tomadas pelos fazendeiros e lavoureiros e nosso povo confinados nos pequenos pedaços de terra que o SPI [Serviço de Proteção ao Índio, substituído em 1967 pela Funai] tinha demarcado há quase um século. Não agüentando mais tanta violência e desrespeito, começamos a retomar nossos tekoha, territórios tradicionais. Entre essas terras retomadas estão Yvy Katu, retomado em dezembro de 2003 e Sombrerito para onde voltamos em junho deste ano. Sofremos muita violência e pressão. Mataram e torturam nossos parentes. E foi por isso que resolvemos fazer aqui a nossa Grande Assembléia Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul.

Queremos dizer ao Brasil e ao mundo que não queremos guerra, mas que as autoridades políticas e judiciais reconheça e nos devolva com urgência nossas terras tradicionais para poder viver nossa vida em paz. Também nos reunimos ali para comemorar as vitórias que tivemos na justiça e que vão dar possibilidade de prosseguir a demarcação dessas terras.

O assunto mais discutido em nossa Assembléia de Yvy Katu foi novamente a situação da terra. Nos revolta saber que a Funai tinha decidido não mais mandar grupos para identificar as terras indígenas até julho do ano que vem. Isso é um absurdo, as lideranças indígenas presentes na Aty Guasu exige da Funai que crie com urgência Grupos de Trabalho para identificar nossas terras. E nos reunimos por regiões para dizer quais são os tekoha que precisam ser demarcados. Foram dezenas de terras tradicionais descritas e que queremos que a Funai demarque. Mandamos essa relação para a Procuradoria e para a Funai. Esperamos que se cumpra a Constituição que nos garante essas terras.

Denunciamos aqui que os fazendeiros espalharam a notícia de que estávamos retomando terra, só para dificultar ou impedir nossa reunião. A polícia federal veio lá e viu que era tudo mentira. Também procuraram usar patrícios nossos para espalhar medo e ameaças. Falaram até o preço que estariam pagando pela cabeça de lideranças nossas e de nossos aliados.Tudo isso é terrorrismo que estão procurando fazer para impedir a luta pelos nossos direitos. Mas não deixamos que isso atrapalhasse nossa Assembléia.

Nosso povo e as fronteiras

Outro assunto que discutimos foi sobre a nossa realidade do povo Guarani, num e noutro lado das fronteiras. Seja na fronteira ou não nosso direito à terra deve ser garantido e demarcado porque  nosso povo ajudou a definir os limites, esteve presentes nas lutas para conservá-las, muitos morreram, no entanto, tomaram nossas terras, estamos divididos pelas fronteiras. Queremos que demarquem nossas terras e que sejamos respeitados em nossos direitos de  viver como povo conforme garante a Convenção 169 da OIT.

Muitas vezes querem negar nosso direito dizendo que somos “índios paraguaios”. Somos Guarani, Avá/Guarani, Kaiowá/Pay Tavyterã, Mbya, que vivemos há milhares de anos nesta grande região onde se formaram os países do Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia, e queremos viver com dignidade e ser respeitados em nosso grande território tradicional.  Para fortalecer nossa luta em garantir nossos direitos convidamos para nossa Assembléia nossos parentes que vivem no Paraguai, que nos falaram sobre as dificuldades que passam. Fizemos um documento dando apoio a eles. Sabemos que são os mesmos fazendeiros brasileiros que  estão ocupando as terras também do lado do Paraguai, destruindo o que resta da mata, inclusive nas terras indígenas

Celebrando nossas lutas e resistência

Sempre quando nos reunimos sentimos com força que não estamos só. Buscamos força dos que tombaram lutando pelo nosso povo. É o sangue de milhares de nossos guerreiros, sábios, ñanderu e caciques que nos dá força e a certeza de que vamos vencer um dia. Nesta Aty Guasu fomos informados e conversamos sobre a  celebração da memória de um grande líder do nosso povo na resistência, que foi Sepé Tiaraju, que liderou nossos guerreiros contra os exércitos de Espanha e Portugal e foi morto em 1756.

Para falar sobre isso esteve conosco nosso parente Guarani Mbya Mauricio, que mora no Rio Grande do Sul. Depois que explicou todo o significado daquela luta e o que elas tem a ver com as nossas lutas de hoje, decidimos que assumir a realização de uma grande Assembléia Continental Guarani – Nemboaty Guasu, em fevereiro do próximo ano, no local em que Sepé Tiaraju foi morto. Também queremos lembrar a memória das nossas lideranças que morreram lutando pela terra e vida do nosso povo, dentre os quais Marçal Tupã’y, Marcos Veron, Dorival Benites.

Nosso direito à educação escolar diferenciada e de qualidade

Os professores indígenas estiveram conosco discutindo sobre os problemas e avanços que tem conseguido nas escolas indígenas e na implantação de currículos, calendário com tempos e conteúdos específicos. Mas ainda tem muitos desafios pela frente.

Por isso enviamos carta ao Ministério da Educação, Secretaria de Educação do MS e municípios, pedindo que respeitem e valorizem os professores e as escolas indígenas, que continuem e ampliem a formação dos professores indígenas e que respeitem nossa autonomia na construção de projetos e programas desde as aldeias até os cursos de nível superior.

Realizamos mais essa importante Assembléia fortalecendo nossa união e buscando mais amigos e aliados na região, no Brasil e no mundo, para que possamos ter nossos direitos respeitados, especialmente a terra.
 


Fonte: Comissão de Direitos Kaiowá Guarani; Conselho Estadual de Direitos Indígenas do Mato Grosso do Sul; Aty Guasu/contribuição de Heitor Paî-tavyterã Laso /Lista literatura Indígena.

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