cinema
Por que ver 'A Marcha dos Pingüins'?
Por Clarissa Taguchi, janeiro de 2006


Ver um documentário, na maioria das vezes e para a grande maioria, é chato. Mais chato deve ser um documentário sobre bichos, no caso pingüins, nos confins de um mundo tão gelado que apenas eles, os tais pingüins, decidem ir.

Não importa, se um documentário, seja ele qual for, ultrapassa as marcas de grandes bilheterias e chega a ser a segunda maior do gênero dos EUA, perdendo apenas para Michael Moore, que nesta altura do campeonato todo mundo já sabe quem é, deve haver um motivo.

Uma música com um singelo refrão se inicia, "I want to live in paradise, I want to live in the south...". Cantada por uma voz aguda, a canção remete ao gelo e a quase ausência de cores das paisagens na tela, ao mesmo tempo doce e suave, a voz talvez lembre o que a maioria dos espectadores espera: o filme foi montado como uma épica saga de amor protagonizada por pingüins-imperadores.

A primeira cena que os protagonistas aparecem, pequenos pontinhos transeuntes naquele infinito branco, mais parecem outra espécie, aquela sentada na poltrona chamada 'espectadores'. Logo tem-se início à saga e centenas de pingüins-imperadores de todos os cantos encontram-se enfileirados caminhando rumo ao centro do deserto de gelo. Pela dificuldade em encontrar um local seguro propício à reprodução, os pinguïns-imperadores decidem caminhar 100 quilômetros durante semanas e assim, depois de passar à prova do mais rigoroso dos invernos juntos, dar à luz a seus filhotes em meio aquele imenso deserto gelado.

A saga de uma família em meio às adversidades da Natureza não é apenas a única semelhança entre os pingüins-imperadores e a espécie, também bípede, de espectadores. Tanto os pingüins quanto os espectadores perceberam a necessidade de formar um núcleo familiar para criar seus filhotes. No deserto de gelo os ovos não agüentam mais que alguns segundos sem a proteção do calor de seus pais, então, depois de gastar toda sua energia colocando apenas um ovo, a fêmea volta os mesmos quilômetros para saciar sua fome e regressar com mais alimento para seu filhote.

Na espécie dos espectadores, a fêmea consegue, mas com muita dificuldade, alimentar sozinha seu filhote durante a gestação e amamentação, e em muitos casos ela conta com a cooperação de seus progenitores. Devido à fragilidade de seu filhote e o longo período necessário a sua emancipação – dependendo da organização social, os filhotes de espectadores tendem a emancipar-se entre 15 e 30 anos – as fêmeas tendem a procurar por parceiros que possam manter núcleos familiares sólidos.

Mas diferente dos pingüins, a sociedade de espectadores atual passou por inúmeras mudanças em sua organização familiar, no comportamento pré e pós nupcial, ameaçando inclusive à criação de uma estrutura familiar capaz de emancipar seus filhotes em seu devido momento. Mesmo modificando suas estruturas, as relações familiares da sociedade de espectadores ainda não foram capazes de concluir a maneira mais segura de cuidar de seus filhotes e assim dar continuidade a sua saga.

O cuidado repassado nas telas parece ser para os pingüins uma necessidade, assim como respirar. Há uma necessidade de voltar e alimentar seus filhotes, de voltar e deixar ir seu parceiro, há uma necessidade de um reencontro. Há uma crença de que suas parceiras irão retornar e há uma crença de que sua família estará viva para o reencontro. Essa crença, essa esperança na vida, talvez seja o ingrediente que tantos espectadores estejam procurando. Esta é mais uma semelhança junto às inúmeras outras semelhanças encontradas no documentário, a diferença é que os espectadores precisam observar para lembrar aquilo que vieram fazer na Terra, assim como os pingüins, que é apenas manter a vida.
 

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Clarissa Taguchi é idealizadora da Cia Ecológica e editora de Ecologia da Revista Consciência.Net 

Para saber mais, oficial:
http://wip.warnerbros.com/marchofthepenguins/
http://www.terrazul.m2014.net/article.php3?id_article=220

Texto publicado também na Revista NOVAE.


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