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Veja Q Porcaria n.2 - 2006
Boletim de crítica de mídia da Revista VEJA, editado pelo jornalista José Chrispiniano.


Semana passada, esqueci de colocar o link para a carta de Luís Antonio Giron (da revista Época), de 04/10/2005, sobre o caso dos i-pods distribuídos pela assessoria da cantora Maria Rita e a atitude da Veja em geral, e de Mario Sabino e Sérgio Martins em particular, no caso. É ótima.

Meditações sobre o jabaculê

- Esqueci também, e não vi nas correções da revista, que todo o princípio do artigo da semana passada de Tales Alvarenga sobre Cuba, que Maradona perdeu peso na ilha, está factualmente errado. Maradona perdeu peso porque fez uma operação no estomago na Colômbia, não por conta de suas estadas em Cuba. Pô, para que a revista paga a checagem de fatos?

Tribunal do Santo Ofício

- Maior número de mensagens recebidas da edição, a matéria sobre o centro de São Paulo teve sete manifestações de leitores publicadas. Todas a favor da revista. As duas cartas em defesa do Padre Júlio Lancellotti são institucionais: dele próprio e da Arquidiocese de São Paulo.  Não é possível que esta proporção reflita as 93 mensagens recebidas pela revista. Veja segue censurando a reação pública as suas matérias, para se dar razão. Depois dizem (ver edição anterior) que Narciso não acha feio o que não é espelho...  Algumas das cartas publicadas são aquelas manifestações raivosas que muitas pessoas das classes média e alta em geral disfarçam, mas que soltam de vez em quando, de ódio e incompreensão contra os marginalizados (pobres, travestis, viciados, menores de rua), e quem se propõem a defender seus direitos ou simplesmente compreendê-los. É a política do banimento, do desaparecimento para bairros que podemos ignorar, a repressão absoluta como norma educativa. Quem acha que o padre usa seu trabalho social para se “promover”, como o leitor Paulino Murillo Filho, pensa que o mundo é feito apenas de Big Brothers, Dudas Mendonças, e “marketing social”. Muito triste. 

- A resposta da revista à carta da Arquidiocese: “Veja foi se queixar ao bispo- mas ao de Roma, que deve ter outra opinião a respeito das peraltices políticas do padre Júlio Lancellotti.” Pelo grau de sandice vaticana desta resposta, dá para imaginar quem deve ter sido o autor.

Duda...

- Veja traz na capa matéria sobre Duda Mendonça. Importante matéria e investigação, inclusive sobre o estilo de vida novo rico de Duda. Chega a ser quase cômico ver a bola preta que alguns membros do governo, do comando do PT e associados estão recebendo no clube da boa vida da elite brasileira do qual acharam que poderiam fazer parte tranquilamente. Porque escrevo isso? A matéria tem uma boa parte dela sustentado no off de alguém que teve sua campanha feita por Duda, e foi governador, ao menos entre 1998-2002. Off é uma discussão complicada, porque o sujeito e as empreiteiras cujos nomes não são revelados saíram lisos do mesmo crime da matéria que levaram Duda e a campanha de Lula para a capa. Fica para qualquer outro jornalista de política identificar quem deve ser e o que está por trás desta história, já que para eles com estas informações é até fácil.

- Duda ser a capa, o destaque, é justo. Agora, nem uma menção em 114 páginas ao desenrolar do caso Eduardo Azeredo e suas ligações com Marcos Valério é dose.

- O que é a erosão da credibilidade... Até em matérias internas sobre o PSDB, fico desconfiando da Veja. Fiquei com a impressão que entre Alckmin e Serra, Veja está com o segundo. Pelo olho da matéria: “Governador paulista tenta ganhar à força a vaga de candidato tucano à Presidência.”, pela charge que a acompanha, e pelo texto, assinado por Fábio Portela, não mencionar o principal ponto fraco de Serra, sua promessa de terminar o mandato de prefeito de São Paulo. Mesmo assim, fica a curiosa frase: “A aliança de Serra e Aécio acuou Alckmin, que acreditava que a competente boa gestão no governo de São Paulo seria suficiente para garantir o apoio do PSDB às suas pretensões presidenciais”.  Não basta ser “boa”. Nem “competente”. É “competente boa”. O cenário faz-se de barulhos justos e silêncios injustos. Silêncio sobre a Febem, aditamento das obras do Rodoanel, sufocamento total da Assembléia Legislativa, manipulação de avaliações escolares, o anúncio várias vezes desmentido pela realidade de desmantelamento do PCC etc...
 

- Veja pode fazer uma matéria séria sobre o risco de proliferação nuclear no Irã. É difícil achar alguém que discorde nesse assunto. Mas prefere usar termos como “o louco da bomba”, criando simplificações, caricaturas e preconceitos. É a tosquice enquanto estilo jornalístico. Se o público do Jornal Nacional é o Hommer Simpson, Veja deve imaginar que o seu é o Sr. Burns. 

- Veja promove uma nova ética, no perfil sobre a Monja Coen, e na matéria sobre o padre Júlio Lancellotti. É guia espiritual, new age, de esquerda, ou lida com pobres? Tem que morar na rua, não pode ter internet, trancar a porta ou ganhar dinheiro etc... Que nem quando criticava sindicalistas por terem celulares.

- As páginas amarelas entrevistam o economista Paulo Guedes, formado na Universidade de Chicago, berço do neoliberalismo, e administrador de investimentos. Depois de levantar a bola para um representante, ainda que ele não goste do termo, da direita política, o senador Jorge Bornhausen, esta semana é um pensador de direita na economia. Por enquanto, isso dita o ritmo do espaço e a pluralidade passa longe. É um pensador inteligente Paulo Guedes, e se você for ver, que força e interesse o pensamento dele representa, é tão escancaradamente o capital financeiro internacional, que são quase transparentes suas declarações.
 

“Nicho eleitoral
A estratégia de comunicação do Palácio do Planalto é centrar as baterias nas classes C, D e E – para não deixar que elas pulem do barco lulista. É para essa turma que Lula vai falar preferencialmente. O governo desistiu, pelo menos por ora, da classe média para cima.”

Esta nota, a primeira da seção Radar desta semana, não tem nada de errado. Só coloquei aqui porque eu me espanto como o PT, principalmente o paulista, é burro de repetir certos erros de estratégia como esse. Aliás, os outdoors do Governo Federal espalhados pela cidade são pura propaganda com dinheiro público, e é pauta mais que justa para os jornalistas questionarem isso. Aliás, todo o conceito do que deve ser a comunicação pública, àquela feita por um governo, está distorcido no Brasil, misturada com auto-propaganda.

- “A estatal Petrobras usa dinheiro dos contribuintes e de seus 160.000 acionistas para financiar a queda do estado de direito e a violação da propriedade privada”. Assim começa a matéria maluca sobre o que Veja, baseada em uma “truculata” (o termo pensata não cabe...) de Denis Lerrer Rosenfield (cada um tem o guru intelectual que merece), considera ser ilegítimo: a estatal anunciar na revista Sem Terra, ligada ao MST. O texto, assinado por Carlos Rydlewski, caricaturiza o movimento para questionar o anúncio, considerado uma “afronta” aos acionistas da empresa (cujo maior, e quem acaba definindo a política de publicidade, é o governo). Bem, já eu acho um absurdo a Petrobras sustentar uma ficção como o time do Flamengo, que não tem patrimônio (já sei, fora sua torcida...), só dívidas com o governo que o sustenta como um balão de ar quente. Também poderia reclamar da revista Veja ter recebido em 2003, ano difícil para o setor de mídia, R$ 1,2 milhão de reais da Petrobras, que então, já gestão Lula-Gushiken, comemorava seus cinqüenta anos na revista que tanto a criticou como estatal monopolista. Os grandes beneficiários da propaganda governamental nunca foram os veículos alternativos, mas os grandes da mídia. A caixa preta destes recursos, montada e mantida por interesses dos grupos de comunicação, é uma das principais fontes dos valeriodutos e dudadutos da vida política nacional. É importante a definição de critérios e transparência para os gastos, e qual a função, da publicidade governamental. Como está hoje, é tão “n” dar 160 mil para a revista Sem Terra, quanto 1,2 milhão para a Veja. Mas isso é uma discussão séria e às claras, uma que os donos da mídia e os políticos são os menos interessados que aconteça.
 


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