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“Favela: alegria e dor na cidade” retoma História e humaniza favelas cariocas
Da redação, dezembro de 2005


Foi lançado no dia 15 de dezembro, na Biblioteca Nacional, o livro “Favela: alegria e dor na cidade”, de Jorge Luiz Barbosa e Jailson de Souza e Silva. A obra tem o apoio da Editora Senac Rio, [X]BRASIL, Fundação Ford e Observatório de Favelas do Rio de Janeiro. Segundo seus autores, a publicação busca apresentar uma visão integrada sobre o processo de constituição das favelas cariocas e das representações sobre ela. O prefácio foi escrito por Paulo Lins, que você lê a seguir:

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Neste livro, Jailson de Souza e Silva e Jorge Luiz Barbosa apresentam-nos a temática da gênese da favela à luz da política habitacional brasileira, abordando desde o período imediatamente pós-escravatura e de início da reforma urbana do prefeito Pereira Passos até os dias atuais. Ao o lermos percebemos tanto os problemas sócio-econômicos que persistem quanto o surgimento de novos fatores que explicariam a permanência e a ampliação do processo de favelização no Rio de Janeiro. A favela sofre ainda os mesmos males e preconceitos presentes desde a época de seu aparecimento no jogo político de uma sociedade outrora escravista e agora racista e egoísta. Neste cenário, o Brasil apresenta uma das piores distribuições de bens materiais, culturais e de direitos do planeta, destacando-se nas estatísticas como um dos países que mais mata jovens negros e mestiços em todo o mundo. Que a nossa sociedade seja assim já é sabido, mas isso não pode deixar de ser repetido e debatido até que os direitos humanos sejam amplamente reconhecidos e respeitados.

A favela está aí de olhos acesos, barulhando, produzindo riquezas, criando recursos para driblar as conseqüências dos desmandos de um país injusto, sofrendo as mais diversas violências, sobretudo a gerada pela ausência dos direitos humanos.
 

Ao longo do período analisado pelo livro, vemos como o pobre foi subindo as colinas, construindo a zona norte, levando as taboas, as “caixas de papelão estendidas” e as folhas de zinco para fazer de um barraco o seu lara casa de família, a moradia onde se dormia em redes, esteiras, ou sobre um cobertor no chão de terra batida, ao lado e acima da estética parisiense do centro da cidade maravilhosa.

Entre os “trastes desconjuntados infiltrando-se na mata das encostas, seguia a pecha de insalubres, anti-higiênicos, capoeiras, ladrões, meretrizes de baixa classe e assassinos”, mas o que seguia, especialmente, era a vida sem os recursos básicos: que já era dura nos cortiços e nas casas de cômodos de uma cidade em crescimento e que se modificava desesperadamente com a migração regional e estrangeira.

A favela sofre os mesmos males e preconceitos desde a época de seu aparecimento no jogo político de uma sociedade outrora escravista e agora racista e egoísta
.No imaginário do resto da população, a favela era uma outra cidade, uma terra sem ordem, onde reinava a lei dos mais fortes, lugar de questões resolvidas no manejo da navalha. Era tida também, como o foram os cortiços e as casas de cômodos; como lugar sujo, ambiente de vagabundos e de baderneiros, sítio propagador de doenças e pestes. Justificando-se, assim, a necessidade dos cercos policiais e do envio de agentes sanitários em investidas inumeráveis a um local formado, em sua imensa maioria, por trabalhadores, lutando pelo direito de morar sem ter o apoio de nenhuma política habitacional concreta por parte do poder público, voltada especificamente para essa camada da população.

Este livro apresenta-nos as agitações políticas, os quebra-quebras nos trens da Central que, nos anos vinte, acontecem em um Rio de Janeiro de subúrbios sem calçamento, sem água, sem luz, e com o esgoto serpenteando as ruas a céu aberto. E como, paralelo a isso, as organizações de moradores vão surgindo, a favela vai tomando corpo e logo viraria também lugar-símbolo da cultura nacional, com o nascimento do samba (correndo também da polícia) de Ismael Silva, Noel, Brancura, Cartola, Hilário Jovino, Donga, Pixinguinha, João da Baiana...

Relata-nos desde a migração do nordestino fugido da seca; o regime de Vargas (autoritário e populista); surgem novos planos de políticas públicas com os mesmos erros, e agora intencionando o controle político-social e assistencialista em conluio com a Igreja Católica; passando pela formação e término dos Parques Proletários com todas as suas resultantes, incluindo o processo de organização social dos moradores de favela entre a década de 40 a 60. Sem esquecer ainda de destacar como, nos anos 50, cresce o contato com os políticos atrás de voto na favela.
 

Ao abordar a prática de remoção (que ainda hoje se apresenta firme nos discursos de alguns políticos e de representantes de alguns veículos de comunicação de massa), analisa como tal processo mudou para pior a vida de milhares de pessoas, tendo como suporte argumentativo, diversos depoimentos de quem viveu esse desastre.

Com o fim das remoções, com o enfraquecimento do regime militar e do milagre econômico, a favela passa pelo processo de urbanização. Chega aos anos 80 com organizações populares mais fortes, mas, concomitantemente a isto, a questão da presença de grupos armados entra como nunca na pauta de discussão, por conseguinte, se, por um lado, intensificam-se as investidas policiais, por outro, faz com que os movimentos sócio-culturais ganhem mais espaços, as ciências sociais fiquem mais atentas com o sistema de relações nas favelas, e a igreja, representada pelas pastorais, tome posição política mais racional.

Na favela nasceu o samba (correndo também da polícia) de Ismael Silva, Noel, Brancura, Cartola, Hilário Jovino, Donga, Pixinguinha, João da Baiana...
.Chegamos aos dias de hoje na leitura deste livro, entendendo o porquê de tantos fatores que nos levaram a essa situação, sabendo o que foi feito e o que deixou de se fazer, para tomarmos nova posição diante da pobreza, e certos de que temos recursos tecnológicos e materiais para diminuirmos as injustiças sociais. Ficamos cientes das políticas praticadas com os pobres brasileiros nos últimos cem anos, e assim podemos evitar que elas sejam repetidas (como o foram ao longo da História) nesse amanhã que está em nossas mãos.
 
Desse modo, fica fácil entender os caminhos propostos para entrar numa “nova cidade”, alcançar um outro futuro bem diferente de todos esses que já viraram passado com a mesma cara coberta pelas máscaras do populismo e do assistencialismo. Fica também palpável a doçura de se poder desfrutar da ação de “fazer da moradia a morada”, tendo a educação e a cultura como palmas de integração.
A obra valoriza, sobretudo, o humano
.Eis aqui um livro que se impõe tanto pelo seu processo de pesquisa, quanto pela vivência dos autores, pela quebra de estereótipos, pela análise apurada, pelo fácil entendimento, pela ausência de idéias mirabolantes impraticáveis e pela boa vontade que apresenta ter. A boa vontade que deveriam ter todos os livros, as teses, as propostas, os discursos, as falas: valoriza, sobretudo, o humano. Enfim, aqui está um belo texto que propõe uma “agenda de estudos para a construção de um novo projeto de cidade, democrático e fraterno, para o Rio de Janeiro”.
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Paulo Lins. Prefácio do livro “Favela: alegria e dor na cidade” (2005), de Jorge Luiz Barbosa e Jailson de Souza e Silva, coo apoio da Editora Senac Rio, [X]BRASIL, Fundação Ford e Observatório de Favelas do Rio de Janeiro.

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