| rio de janeiro
O Rio que nós queremos
O médico Alexandre Pinto Cardoso, que tomará posse no próximo dia 20, como diretor do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), na ilha do Fundão, já se acostumou com uma cena triste: entrar num hospital público e ver pessoas sentadas no chão e em macas no corredor, à espera de atendimento. "É um drama. Chegam cada vez mais pessoas e não há condições humanas para atender a todos", conta. Segundo Cardoso, a curto e médio prazo, as soluções para o sistema de saúde carioca passam por três pontos: o reequipamento das emergências e dos postos de saúde, a maior atenção às campanhas sazonais e o combate às ocupações irregulares de encostas. "Nesta época do ano, é preciso prestar atenção no aumento dos casos de dengue", recomenda. "A falta de investimento em campanhas contra o acúmulo de água, assim como as moradias irregulares em morros, acabam provocando a disseminação de doenças como diarréia e leptospirose", alerta o médico. Antônio Ivo de Carvalho, diretor da Escola Nacional de Saúde Sérgio Arouca, também chama a atenção para a necessidade de desafogar os hospitais da demanda atual. "Nosso sistema de saúde está destorcido", critica. "Temos uma rede preventiva e de atendimento imediato muito precária. Se os acompanhamentos aos casos menos graves fossem feitos com mais eficiência, não seria preciso recorrer tanto aos hospitais". Para evitar a sobrecarga deste serviço, Carvalho recomenda a criação de unidades básicas de saúde próximas às comunidades, principalmente na Baixada Fluminense: "Assim, a população não precisaria recorrer ao Rio para resolver problemas menos emergenciais". Já o presidente do Conselho Regional de Medicina (Cremerj), Paulo Cesar Geraldes, reivindica maior controle sobre os gastos previstos para a área. Segundo ele, os governos usam a verba prevista no orçamento para um amplo leque de ações indiretas, alegando que o resultado final seria benéfico ao sistema de saúde. "O resultado é que faltam investimentos diretos e um sujeito com dor de barriga compete para ser atendido com alguém que levou um tiro", reclama o médico. Ações individuais fazem diferença Quem mora em Jurujuba, em Niterói, sabe. A distância do bairro de centros comerciais torna o uso do automóvel quase obrigatório. Mas o ambientalista Vilmar Berna, presidente da ONG Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais (IBVA), prefere deixar o veículo na garagem. "Ando de moto de cima a baixo. É menos poluente", diz. Ações individuais como esta são, para ele, as primeiras a serem tomadas. "Se for necessário usar automóvel, é melhor que seja com gás natural e motor regulado", sugere Berna. A visão não se restringe a ações individuais. O ambientalista diz que, com alguns ajustes, a indústria pode gastar menos energia, gerar menos resíduos e diminuir significativamente os índices de poluição. "O custo para implementar políticas ambientais é abatido ainda nos primeiros meses", garante. "Quem não aposta na ecoeficiência ficará defasado". Defensor constante dos manguezais e lagoas cariocas, o biólogo Mário Moscatelli costuma criticar a falta de atenção às bacias hidrográficas no Estado. "Na Lagoa Rodrigo de Freitas, o sistema de monitoramento permanente do espelho dágua e das galerias pluviais foi desmontado por falta de acordo entre governo municipal e estadual. Isso só mostra a incapacidade gerencial de ambos os lados", protesta. Além
da reinstalação desta estrutura - útil, por exemplo,
para antecipar casos de mortandade de peixes -, Moscatelli recomenda a
criação de um programa de gerenciamento lagunar para a Bacia
de Jacarepaguá. Outro ponto importante é a municipalização
do serviço de saneamento básico. "Mesmo sendo uma empresa
estratégica, a Cedae tem um déficit incomparável.
Se uma companhia deste porte não é bem administrada, estamos
matando a galinha dos ovos de ouro", afirma. Pessimista, ele resume a situação:
"Continuamos com o comportamento da época do pau-brasil: usar até
acabar. Ou isso muda, ou teremos que ir embora daqui", decreta.
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