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Aviso de incêndio Por Mayron Régis, jornalista, janeiro de 2006
Havia aqueles que, no entanto, lendo a frase nada estalava na mente. Eles forçavam um sorriso meio sem-graça, pedindo pelo amor de Deus para que ninguém lhes perguntasse sobre o quadro ou sobre a frase. Sim, o máximo, responderiam. Quem responde não sei ou que duvida da Frase cunhada pelo porta-voz de uma geração idealista como a dos anos 60 paga com o inferno existencial dos chatos descrentes ou o inferno existencial dos cínicos. Responder que não sei ou que duvida não implica que os respondões sejam chatos descrentes ou cínicos - talvez só a desconfiança de que a universalidade apontada no discurso de John Lennon significasse algo para a cultura anglo-saxônica, cansada de conflitos, não para um país ainda imaturo e imberbe como o Brasil, no qual conflitos sobram, explicitamente ou disfarçadamente. Aquiescer o discurso, não de John Lennon, presente no nosso cotidiano e na mídia que conflitos só nas telas de cinemas ou em jogos eletrônicos – o cinema americano se infantilizando nos anos 80 como forma de se refazer do estrago feito pela geração de Coppola e Scorcese na década anterior e a febre da violência sanguinária dos jogos eletrônicos na década de 90 - é empurrar os problemas sociais, ambientais e econômicos com a barriga empanturrada com os excessos da cultura de massa. Empurrar para onde o excedente de trabalhadores que ficam desempregados a cada ano pela modernização da economia? Que funções na sociedade capitalista servirão a esses desqualificados tecnológicos? Empurrando para bem longe, onde podem ocupar áreas desocupadas e desestruturadas, serão chamados para funções de pedreiro, de empregada doméstica, de garota de programa, gari, vendedor e policial militar. Morando na periferia e trabalhando na cidade que vive dos e para os negócios, estes trabalhadores levarão e voltarão com notícias de ambos os lados da ponte. Sofrerão por se dividirem em mundos completamente desafeitos um em relação ao outro. Sofrerão por não serem puros-sangues onde moram ou puros-sangues onde trabalham. Ideologicamente se afinam com seus patrões. Culturalmente se afinam com os mais pobres. Numa época em que o culto ao e o desejo do corpo arrebatam toda a sociedade, pela prática ou, simplesmente, pelo voyeurismo, o exemplo da garota de programa é paradigmático da relação capital-trabalho como externa George Steiner em seu texto “A viagem crepuscular de Walter Benjamin”: “...a prostituta encarna fantasias arquetípicas de Eros, de intimidades a serem “colhidas” e “é também o agente emblemático na polêmica marxista sobre a escravidão do capitalismo em seu aspecto mais indecente...”. Ampliaríamos essa análise para outras personagens que zanzam de um espaço para o outro da hierarquia social se identificando ora com um ora com outro, esse zanzar esquizofrênico de acordo com as vantagens recebidas no traquejar das relações. Simplificaríamos
muito a discussão afirmando que um empregado defenderia seu patrão
ou o sistema só pelas gratificações ou pelas vantagens.
Não é bem assim. Muitos crêem, do fundo da alma, que
uma pessoa, uma empresa ou um sistema político-econômico tem
super-poderes o bastante para mudar as suas vidas. Obedecem as ordens e
saem repetindo as mesmas ordens como se fossem suas. Nesses casos a ideologia
do poder está acima de qualquer lógica individual. Bem acima.
Profissional das passagens, a garota de programa, ou prostituta, além de ser uma profissional do sexo também é uma profissional midiática. Os seus contatos vão do estudante de segundo grau até o ricaço. Aquele ou aquela que não está na lista vai estar futuramente. O senhor tímido que pouco fala e nunca se atreveu a dizer o nome, nem esse escapa da sua mira. Esse poder comunicativo favorece em seus negócios, pois, sem mais delongas, cativa com um carinho ou com uma palavra amorosa quem está refratário. Contudo, ela não está imune a se envolver em confusões do tipo que se envolve quando os olhos estão vendados e os ouvidos estão surdos para qualquer aviso. Uma prostituta se interferiu na possível morte do personagem de Tom Cruise em “De olhos bem fechados”, filme de Stanley Kubrick. Amanheceu morta, de overdose, provavelmente, provocada pelos seus patrões que cobraram um preço bem alto pela intromissão. Em cena contracenada com Sidney Pollack, Tom Cruise, que salvara a prostituta de outra overdose, no começo do filme, indignado ouve “Ela era só uma prostituta”. Foi cobiçada como uma pedra preciosa e aqueles que a cobiçaram e a consumiram não se apiedaram: seu fim foi o de “uma prostituta”. Vida real,
o Ministro do Interior da França nomeou os jovens que tacavam fogo
nos carrões de escória. Moradores das periferias, a França
tem periferia, estes jovens são descendentes de argelinos que se
mudaram da sua terra natal na década de cinqüenta. Desempregados,
o único jeito de levar a vida é assaltar e traficar. Contudo,
depois da morte de dois jovens que fugiam da perseguição
da polícia francesa, a “escória” resolveu virar a mesa, de
um jeito inaudito. Queimar carros, trezentos a noite toda, sinalizaria
uma coisa de moleque, daquele tipo que manda para cucuia tudo e todos sem
pensar duas vezes. Nada disso. Incendiar carros: o melhor aviso de um outro
incêndio que se aproxima, um incêndio de maiores proporções.
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