Para o PT voltar a ser PT
"Este é o momento dos fortes, que sabem que a luta pela transformação é cheia de erros, mas também está prenhe de autocrítica e de capacidade de mudança. Pensam que o PT está explodido, desmaiado, morto. O PT não está explodido, nem desmaiado, nem morto. Está reorganizando suas forças", disse o presidente interino do PT, Tarso Genro, no último sábado, 27 de agosto. Ele tem a difícil tarefa de garantir um processo democrático de refundação do PT, que começa com as eleições diretas para a presidência do partido, em setembro. Nesta reportagem especial, a Revista Consciência.Net reúne alguns dos fatos mais importantes da segunda quinzena de agosto de 2005 que envolvem a recente crise da legenda.

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Da redação, agosto de 2005

Imagem: Helana Gurgel..
O presidente nacional do PT, Tarso Genro, parece estar à vontade em seu novo cargo, apesar de esta ser, reconhecem muitos integrantes da legenda, a pior crise em 25 anos de partido. Genro disse na terça 23, em sabatina realizada pela FOLHA, que o atual quadro político coloca em xeque a eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mantendo o discurso autocrítico - postura vista com ressalvas por parte da direção petista -, afirmou que, atualmente, não saberia dar argumentos para que um eleitor vote no partido nas eleições de 2006. "Apesar de dizer que a discussão da candidatura petista ao Planalto não deve ser feita agora, citou o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (SP), e o prefeito de Aracaju (SE), Marcelo Déda, como bons quadros para o posto caso Lula não dispute a eleição", escreve a FOLHA.

Crítico em relação aos rumos da política econômica, o presidente do PT disse ainda que o ministro Antonio Palocci (Fazenda) não receberia seu voto numa disputa interna para uma eventual escolha da candidatura presidencial do partido para o ano que vem. Genro classificou de ''comum'' e ''frustrante'' a política econômica, embora admita que traz credibilidade e governabilidade ao Planalto. "Como defendo uma transição econômica, o Palocci não seria meu candidato. No próprio partido haveria muita resistência a ele", repercutiu o JB da quarta 24.

Integrantes do PT têm feito um movimento para convencer Genro a manter sua candidatura à presidência do partido. Na quinta 25 foi a vez dos governadores petistas Jorge Viana, do Acre, e Wellington Dias, do Piauí, além do senador Aloízio Mercadante (SP), durante almoço em São Paulo. Tarso tem falado em "ruptura com a antiga direção", mantendo "o enorme capital político que possui o Campo Majoritário", o que tem sido interpretado como uma exigência da desistência do deputado federal José Dirceu. Este, no entanto, não abre mão de participar da chapa por entender que "seria uma punição antecipada" das acusações que sofre. "Não vou aceitar pré-julgamentos", repete Dirceu insistentemente.

Momento de reorganizar

"Um partido envergonhado, em fase de reorganização, mas não morto", descreve o JORNAL DO BRASIL do domingo 28 citando Tarso. Um discurso incisivo de Genro marcou o ato em defesa do governo Lula, realizado no Diretório Municipal do PT de São Palo, que reuniu cerca de mil pessoas na Casa de Portugal, no centro da cidade, descreve o jornal.

Tarso continua: "Temos vergonha sim dos nossos erros, daqueles que saíram da ética partidária. São companheiros que erraram e vão ter de pagar. Mas não é a essas pessoas que são endereçadas as críticas e o circo político, armado em torno da crise. Estes senhores que agora cercam politicamente o nosso governo são os mesmos que governaram este país por 500 anos e só aumentaram as desigualdades".

Demonstrou, no entanto, esperança: "Este é o momento dos fortes, que sabem que a luta pela transformação é cheia de erros, mas também está prenhe de autocrítica e de capacidade de mudança. Pensam que o PT está explodido, desmaiado, morto. O PT não está explodido, nem desmaiado, nem morto. Está reorganizando suas forças".

Alternativa socialista

Na quinta 25, o também candidato Plínio Arruda Sampaio, ligado à esquerda do partido, esteve no Rio de Janeiro para ato em defesa de seu nome à frente da legenda. Também presente na reunião, o pré-candidato ao governo do estado do Rio Vladimir Palmeira defendeu que não é todo Campo Majoritário que está envolvido no escândalo e atribuiu à ''cúpula encastelada'' a origem da crise, observou matéria do JORNAL DO BRASIL da sexta 26.

Bem humorado, o candidato contou que Fidel Castro, chefe de Estado de Cuba, o repreendeu por críticas que fez ao PT. E defendeu políticos da legenda que sofrem acusações na imprensa: "Apure-se até o fim, mas sem destruir imagens públicas". O deputado federal Chico Alencar (RJ), nome mais forte da legenda no estado, alfinetou: "Nós estamos combalidos por pessoas nefastas como diz o cartazinho", disse, referindo-se ao cartaz empunhado por uma militante com a mensagem: ''Dirceu é uma pessoa nefasta''. Alencar tem feito campanhas com o "Bloco de Esquerda" e levantado o lema "Para o PT voltar a ser PT".

"A máquina do campo majoritário, até então imbatível, começa a fazer água", escreve o JORNAL DO BRASIL do domingo 28. Chico afirma que uma das linhas de investigação para o dinheiro que apareceu na cueca de um militante aponta para a possibilidade de ter havido uma tentativa de "azeitar" a máquina, usando o caixa dois. "O nosso lado também tem um problema. É o desencanto da militância que, além de não se sentir motivada para votar, não acredita mais na possibilidade de uma ressurreição ética", lamentou o parlamentar.

Na sexta 26, o deputado federal André Costa (RJ) desligou-se do partido. Ele disse que sua decisão foi pautada pelo ''descaminho ético-político'' de integrantes do partido e o distanciamento do governo das propostas de esquerda. "São duas grandes frustrações: o desvio ético do partido e a estratégia de poder adotada pelo governo, e não uma estratégia para o País". Segundo o JORNAL DO BRASIL do sábado 27, o deputado havia se aproximado da esquerda do partido nos últimos dias.

Plínio: "Gandhi não foi nem vereador na Índia"

Plínio deu entrevista à FOLHA na segunda 22. Comentou que havia defendido que Lula usasse sua candidatura em 1998 para difundir os ideais socialistas, sem recorrer ao marketing. A proposta foi enterrada na reunião de 21 de julho de 1997. Para Plínio, esse foi o marco do pragmatismo que levou à transformação do PT "numa poderosa máquina eleitoral". Disse que o governo Lula prestou um desserviço à esquerda no país - "Lula é refém do poder" - e avisa que não apoiará a reeleição do presidente.

Admite até a possibilidade de deixar o partido, dependendo do resultado da eleição interna em setembro, e atacou a política econômica: "Um dos termos padrão do Consenso de Washington é o confidence building, é você construir a confiança. Então, qualquer coisa que você mexa na política econômica afeta o confidence building. E essa é a mentalidade do Palocci, a mentalidade de 90% do staff do Palocci". E exibiu à repórter da FOLHA Catia Seabra, em esmaecido papel, o original de um texto seu de 1963 "como prova de que as demandas sociais e o discurso são os mesmos, o PT é que mudou".

Catia especulou que, se Lula tivesse seguido os conselhos de Plínio, talvez não tivesse sido eleito. Bem humorado, respondeu: "O Gandhi não foi nem vereador na Índia". Plínio argumenta que, mesmo que Lula nunca tivesse sido eleito, teria feito um grande trabalho. "Cheguei a dizer uma vez: 'Lula, o Brasil não precisa de um presidente, o Brasil precisa de um líder' - o grande líder nacional, o grande líder popular, um cara que conte para o povo as coisas, um tipo Mandela, um tipo Gandhi, um tipo De Gaulle...", lembrou. E Lula, sabia disso tudo? "Camões dizia: não tem perdão o capitão que devendo prever não previu".

Boaventura de Sousa Santos comenta crise

O sociólogo Boaventura de Sousa Santos publicou artigo na FOLHA DE S. PAULO do último domingo (21/8) fazendo uma breve e densa análise sobre a crise pela qual passa o país, com foco na crise da esquerda e do PT. "(...) o Brasil entra penosamente em um novo período político, um período que podemos designar de pós-lulismo. É ainda cedo para definir o legado histórico do lulismo enquanto forma de governo. Para já, ele parece ter constituído o mais inquietante disfarce histórico do neoliberalismo nos últimos 20 anos, ou seja, a conversão mais elaborada, ainda que talvez involuntária, do mais lídimo representante dos oprimidos (pela sua trajetória e pelo seu peso eleitoral) em um gestor atípico da globalização neoliberal", escreveu o português, no artigo "Pós-lulismo progressista".

Ele define: "Todos as crises políticas são processos de emergência e, por isso, não podem ser vistas apenas pelo seu lado negativo. O primeiro elemento positivo é que as próximas eleições brasileiras serão talvez as mais livres e transparentes da história recente da democracia representativa, não só no Brasil como no mundo".

Sobre a reforma universitária, com Tarso Genro à frente do Ministério da Educação: "Considero a reforma universitária levada a cabo por Tarso Genro uma das mais progressistas do mundo". Como pontos que justificam essa afirmativa, ele enumera:

  • "depois de anos de abandono exigido pelo neoliberalismo, retoma-se a prioridade da universidade pública na construção de um projeto de país";
  • "vincula-se a escola pública de nível médio ao ensino público superior e impõem-se marcos regulatórios claros para as instituições privadas de ensino";
  • "instituem-se novos padrões de financiamento para a universidade e constrói-se concretamente a autonomia";
  • "assume-se plenamente a necessidade de bolsas para alunos de baixa renda, começando com as bolsas do Prouni, seguidas do sistema de quotas para afrodescendentes e índios";
  • "criam-se novas exigências de qualidade, ao estabelecer mínimos de doutores e mestres entre os docentes";
  • "põe-se um travão à globalização neoliberal da universidade ao estabelecer um limite de 30% à participação do capital estrangeiro nas empresas de educação superior".
E conclui: "Nenhuma reforma assentou em um diálogo tão profundo com a sociedade civil como essa (...)".

Sobre Tarso Genro e o PT: "Um partido que gerou políticos da estatura de Tarso merece olhar o futuro com confiança. Mas tal só ocorrerá se o PT controlar a pulsão fraccionista de molde a fazer dela gérmen da diversidade na união, e não fator de fragmentação em lutas fratricidas pelo poder".

Boaventura finalizou a análise fazendo uma revelação: "Há muitos anos, em Brasília, em conversa com o presidente Fernando Henrique, que respeito apesar das muitas divergências políticas que nos separam, eu tentava contrariar o slogan, então (e hoje?) muito atual, "a esquerda é burra", invocando a alta qualidade política de Tarso. O comentário de FHC, para o qual não pediu confidencialidade, espantou-me: "Desse eu teria medo, mas descanse, Boaventura, o PT nunca o indicará". Para o bem do futuro progressista da sociedade brasileira, desejo ardentemente que ele tenha se enganado." Na íntegra, o original da FOLHA.

Tarso: breve perfil

Tarso Fernando Herz Genro nasceu em São Borja (RS) em março de 1947. Começou sua carreira política em 1968 elegendo-se vereador pelo MDB em Santa Maria (RS), cidade onde se formou em direito. Já no PT, foi eleito vice-prefeito de Porto Alegre em 1988 e prefeito em 1992 e 2000. Foi derrotado nas duas vezes em que disputou o governo gaúcho: ficou em quarto lugar em 1990 e em segundo em 2002. Informações da Folha de S. Paulo de 22/8.

Jaques Wagner comenta crise

Em entrevista ao jornal O GLOBO do domingo (28/8), o ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, disse que "alguns do PT adentraram nos caminhos tradicionais e viciados. Esta não é uma crise nova. Mas é mais chocante porque ela introduz um elemento de onde esperava-se as mudanças, que é o PT". Segundo Wagner, Lula teria dito que, caso perceba que o PT perdeu muito politicamente com este episódio, "mesmo que as condições não estejam boas", poderia se candidatar "para fazer a disputa do que foi o nosso governo, do que é o PT". Wagner interpreta: "Seria uma candidatura para recuperar o PT".

Sobre o processo de eleições internas do partido, Wagner avalia que "não há bom senso do conjunto das forças políticas do PT, no momento de tamanha turbulência, em manter seu calendário como se nada tivesse acontecendo. Acho que numa situação dessas o PT tinha que dar um salto e perceber que há algo maior que a árvore, há uma floresta para enxergar". O repórter então pergunta: "A luta é autofágica?" E Wagner: "Chega à beira da esquizofrenia". Com este argumento, ele propôs o adiamento das eleições diretas para a direção do PT.

E dispara: "Não estou preocupado em saber se o erro maior foi de Delúbio, de João Paulo Cunha, de Marcelo Sereno. Todos se contaminaram". Wagner finaliza com uma imagem: "Mal comparando, é como se o PT fosse um filho dele [de Lula]. Aí quando o filho dele tem 25 anos e estava no melhor momento de sua vida, entrou na faculdade e se drogou. Quando ele diz que foi traído é como se ele dissesse que educou um filho para isso e para aquilo e ele acaba fazendo coisa errada".

Palmeira critica "tecnocratização" do PT

Ícone da esquerda do PT, Vladimir Palmeira, 60, pré-candidato ao governo do Rio, defende em entrevista à FOLHA DE S. PAULO do domingo 21 a renúncia imediata de todos os deputados petistas que receberam recursos das empresas de Marcos Valério e a proibição de que eles usem a legenda para se reeleger. Ele fez análise sobre os erros do PT, "que se transformou num partido como os outros", e diz que a tecnocratização imposta por São Paulo se sobrepôs a modelos democráticos de administração, como o de Porto Alegre. Para ele, o caso de Santo André foi emblemático. "Aquele era o modelo de tecnocratização que foi imposto à maioria de nossas prefeituras. Deu no que deu." A entrevista foi feita por Antônio Gois, da sucursal do Rio.

O deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ) saiu em defesa de Palmeira. Para Biscaia, o voto no ex-deputado seria a única maneira de resgatar a história do PT no Rio depois de intervenção da direção nacional em 1998. "Estamos lutando por Palmeira. Ele foi afastado pelos que geraram esse quadro", disse no JORNAL DO BRASIL do domingo 28. Ele reconhece que as perspectivas para o partido em 2006 são negativas sobretudo se o Congresso aprovar o voto na legenda. "Dirigentes se envolveram nesse processo intolerável de corrupção. Não há dúvidas de que as dificuldades serão imensas em 2006". Biscaia avalia ainda que as eleições internas do PT de 18 de setembro é que vão nortear os rumos do partido daqui em diante. "São 800 mil filiados. Destes, 200 mil petistas vão decidir. Se eles quiserem isso que está aí levarão o PT ao fim".
 

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Pesquisa e redação de Gustavo Barreto, especial para a Revista Consciência.Net


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