Pobre país, com este jornalismo
O episódio da “confissão” que não houve na revista Época, e a reação do resto da mídia, com raras exceções, é mais um emblema da hipocrisiae do cinismo dos donosdo poder e dos seus sabujos
Da CartaCapital, número 356, de 24/8/2005


O burburinho que antecipou a publicação da entrevista de Valdemar Costa Neto à revista Época levou o presidente Lula a atrasar por algumas horas o pronunciamento que fez à Nação na sexta-feira 12. Segundo vários comentaristas supostamente bem informados, Lula queria ler a entrevista antes de fazer seu discurso. O interesse do presidente foi atiçado pela principal chamada colocada abaixo do título A Confissão: “Lula sabia do acordo de R$ 10 milhões com o PL”. 

A “denúncia” não apenas atrasou o discurso presidencial, como teve ampla e imediata repercussão em toda a mídia – desde sites na internet até o Jornal Nacional, passando pelos principais jornais do País no dia seguinte –, além de impacto sobre o chamado mercado, com reflexos no dólar e na Bolsa de Valores. 

Na edição de CartaCapital que circulou um dia depois de Época, a revista desmontou a suposta “confissão”. Em 30 de outubro de 2002, CartaCapital havia noticiado que quatro meses antes, em junho de 2002, Lula e José Alencar estiveram presentes em uma reunião na qual PT e PL selaram um acordo eleitoral com vistas à eleição presidencial. Um acordo político e financeiro no valor de R$ 10 milhões. Um acordo, então, dentro da legalidade, relatado em detalhes na reportagem assinada por Bob Fernandes. 

Um detalhe pitoresco: dias antes da entrevista de Costa Neto à Época, a assessora de imprensa do PL esteve na Editora Confiança, que publica CartaCapital, para adquirir dois exemplares da edição 213, que noticiou o acordo entre os dois partidos em outubro de 2002. 

A “confissão” publicada em Época seria motivo de pilhéria não fosse o impacto que causou. Uma denúncia que não é denúncia foi capaz de afetar o horário do discurso do presidente do País, mexer com os humores do mercado financeiro e ser notícia em todos os meios de comunicação – com especial ênfase nos veículos das Organizações Globo, de alto a baixo, que valorizaram a “denúncia” da revista da casa. 

É estranho, para não dizer suspeito, o comportamento da mídia depois de CartaCapital ter tornado público o episódio. Pouca gente o considerou e a maioria fingiu que não leu. Registre-se, de cara, uma exceção, o site Blue Bus, noticiário on-line sobre mídia e publicidade, que notou: “Fraude na revista Época, quem enganou quem? Das duas uma, ou o deputado enganou a revista ou a revista enganou os leitores”. 

Veículos especializados em mídia, como o site Comunique-se, ou jornalistas que acompanham o assunto diariamente em órgãos não especializados, como Nelson de Sá, dono de uma coluna chamada Toda Mídia, na Folha de S.Paulo, simplesmente ignoraram o caso. Ou seja, fingiram considerar que era um tema sem importância, diante de notícias como “Rádio Record anuncia novos nomes na cobertura esportiva” (Comunique-se) ou com o fato de o programa Pânico na TV ter colocado um ator chamado “Lula” no alto de uma plataforma e feito piada sobre o risco de ele “cair” (Folha). 

A notícia também passou por entre as pernas dos editores do Estadão, mas não de seu editorialista. Num texto intitulado “Ruim com ele, pior sem ele”, publicado no alto da página 3, na edição de sábado 13, depois de mais uma vez destilar preconceitos contra o ex-metalúrgico que virou presidente, o editorial lembra que a “denúncia” da revista Época havia sido noticiada anteriormente por Bob Fernandes, em 2002. E só. Haverá algum veto ao nome desta publicação nas páginas do Estadão? Ou ao diretor de Redação desta revista, que trabalhou por quase quatro anos na empresa, sempre com empenho e lealdade, tendo fundado e dirigido a edição de esportes do Estadão e o Jornal da Tarde? Cartas para a redação. Aliás, se viu ilegalidade no acordo noticiado por CartaCapital, por que o Estadão não publicou nada a respeito? 

A revista Imprensa, que cada vez faz menos jus ao nome, tratou o tema com desdém em seu portal na internet: “CartaCapital se queixa da concorrente por não receber os créditos das informações as quais a Época vendeu como exclusivas”. 

Um boletim informativo sobre a imprensa, Jornalistas & Cia, publicou uma entrevista com o autor da reportagem de Época, explorando “os bastidores da capa que elevou a temperatura da crise”. No texto diz-se que a publicação “foi seguida de um protesto da CartaCapital sobre ter publicado notícia semelhante em outubro de 2002, o que anularia a exclusividade de Época”. Texto mal escrito e ingênuo. Só podemos imaginar que Eduardo Ribeiro, jornalista sério, diretor da publicação, não participou da sua edição. 

Jornais, emissoras de tevê e rádio que repercutiram a entrevista de Época não corrigiram a informação depois que se demonstrou publicamente que “a confissão” era notícia velha, destinada, como parece, a “aumentar a temperatura da crise”. Apenas reafirmam uma tradição de soberba em relação aos próprios erros e de cumplicidade e corporativismo, exacerbada nestes dias em que o governo Lula é alvo de denúncias graves. 

A desculpa da revista Época, além de pífia, beira o cinismo. “A passagem na qual o presidente do PL narra a reunião que teve com o presidente e o vice-presidente da República, então candidatos, e dirigentes do PT é apenas um dos elementos da entrevista – e não seu principal foco. Tanto que a repercussão desta matéria deu-se em função da declaração de que Lula sabia do acordo envolvendo dinheiro”, disse Aluizio Falcão Filho, diretor de Redação. Como assim? Desde que a edição 213 de CartaCapital circulou, era do conhecimento público que Lula sabia do acordo. Presenciou o acordo. Instruiu José Alencar sobre como se portar em relação ao acordo. Será que Falcão não leu a reportagem de CartaCapital? Será, como sugere Blue Bus, que Costa Neto enganou o diretor de Redação de Época? 

O comportamento da revista das Organizações Globo também foi tema de dois textos do Observatório de Imprensa, um veículo especializado em media criticism, na internet. Um deles, intitulado “Receita de uma notícia requentada”, descreve o engodo e relembra que não é a primeira vez – muito pelo contrário – que uma notícia antecipada por CartaCapital é ignorada por seus concorrentes. 

Em outro texto, “Da arte de comer mosca e imaginar-se pitbull”, o editor do site, Alberto Dines, culpa “o corporativismo e a indolência” da imprensa pelo fato de uma série de notícias que ligam veículos de comunicação ao escândalo do Mensalão não ter prosperado. Depois diz que, “quando a CartaCapital, em 30 de outubro de 2002, contou parte da história sobre o acordo entre o PL e o PT, ninguém foi atrás. Nem a própria revista”. 

As duas acusações não fazem justiça a CartaCapital. Esta revista noticiou, com chamada de capa, o jogo de chantagem entre as editoras Abril e Três a respeito da publicação de informações sobre a entrevista da secretária Fernanda Karina à revista IstoÉ Dinheiro (edição 348, 29 de junho de 2005). Noticiou que o jornalista Gilberto Mansur intermediou um encontro entre Domingo Alzugaray e Marcos Valério. Noticiou as diversas suspeitas que envolvem o jornalista Leonardo Attuch, autor da entrevista, no episódio… Também não é correto afirmar que “nem a própria revista” foi atrás da história do acordo PT-PL na ocasião. Como já foi dito, em outubro de 2002, não havia indícios de ilegalidade no acordo. 

Sem perder de vista em momento algum que todos os envolvidos em corrupção, arrecadação ilegal de recursos, tráfico de influência e quantos outros crimes forem descobertos devem ser punidos, CartaCapital não compartilha do sentimento, visível em quase toda a mídia, de que esta crise é uma oportunidade sem-par para destruir o PT, sangrar Lula e enterrar para sempre o sonho de um governo de esquerda no Brasil. 


Original: http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirSecao&id_secao=13
 

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