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Og
Por.Luis
Fernando Verissimo, 18/8/2005, n'O
Globo
Meu amigo Og, o Extraterrestre Hipotético, esteve na Terra pela primeira vez com uma missão científica para estudar a possibilidade de usar miolos humanos como fertilizante no seu planeta. O projeto não deu certo mas Og se encantou com uma carioca chamada Dedé, a única que não se horrorizou quando ele contou como fazia sexo — algo envolvendo escamas retratáveis, suas dezessete orelhas e um pouco de creme chantilly — e tem voltado regularmente para vê-la. A última visita do Og ao Brasil coincidira com a posse do Lula. Na ocasião, eu lhe explicara o significado daquela eleição no contexto político brasileiro, seus antecedentes etc. O Og agora está de volta. Contei o que estava havendo. Ele sacudiu as cabeças e comentou. — Eu sabia que isso ia acontecer. — Você sabia? — Estava na cara. Olha, até acho que o governo Lula durou muito. Eu não dava um ano para ele ser derrubado. Vendo aquela festa da sua posse, aquele entusiasmo do povo, comentei com minhas antenas: esse aí não dura um ano. — Por que você pensou isso, Og? — Não era óbvio o que ele iria fazer? Para começar, mudar o modelo econômico. Imagino que ele não tenha esperado dois dias, depois da posse, para anunciar que não garantiria o superávit primário com mais sacrifícios do povo brasileiro e que suas prioridades seriam desenvolvimento e programas sociais, danassem-se os interesses contrariados. Estava claro que os primeiros a reagir seriam os banqueiros. Não duvido que banqueiros descontentes com o dinheiro que têm perdido no governo Lula estejam por trás desses problemas, agora. Junto com os americanos. — Não, Og. Os... — Também estava na cara que, com aqueles cinqüenta e tantos milhões de votos e depois daquela apoteose na posse, o Lula tinha cacife político para escolher as alianças que quisesse, para governar. Não precisava perder tempo com siglas menores a conchavos mesquinhos. Estava autorizado pelas urnas e pelo apoio popular a fazer as reformas que bem entendesse. E é claro que as forças conservadoras não iriam agüentar tanto sucesso de um governo popular, com tantas mudanças em tão pouco tempo. Estava na cara! Quando finalmente consegui que o Og me escutasse, contei que não acontecera nada daquilo. O que acontecera então? — Pois tinha um tal de Delúbio... — comecei. E quando o Og ficou sabendo da possibilidade de o Severino Cavalcante acabar na Presidência da República, disse que desta vez ia embora da Terra e não voltava mais. — Me leva?
— pediu a Dedé, aninhada nos seus quatro braços.
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