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sorriso da aeromoça
Por Mino
Carta, 15/8/2005, no Comunique-se
E lá vem quem pergunte por que CartaCapital explora o defeito físico do banqueiro Daniel Dantas, aquela abnorme orelha direita acometida de elefantíase, característica da imagem que dele costumamos publicar. Ironia, pessoal, ironia. A apontar uma das especialidades do personagem, a escuta telefônica. Seria como se, digamos, vestissem o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira com trajes de aeromoça. (O computador faz milagres.) Não passaria de lance irônico, para acentuar o fato inegável de que o professor exibe com freqüência um sorriso capaz de precipitar a inveja dessas prestativas ajudantes de vôo. Apesar do sorriso, Bresser-Pereira sabe praticar o tom da invectiva. E na terça, 9 de agosto, assina na página 3 da Folha de S.Paulo texto veemente a invocar, sem mais delongas, o impeachment de Lula. O ex-ministro não é Joana D’Arc, ou Zinedine Zidane, para citar dois que ouvem a voz de Deus e executam Suas ordens. Bresser-Pereira ouve é a voz da sociedade civil. A qual, segundo entende, clama por justiça pronta e imediata. Didático, o articulista ensina que a sociedade civil habita as redações ‘de uma mídia livre e atuante’, empenhada em divulgar a ‘corrupção generalizada em que se envolveu a cúpula do governo e do PT’. É uma visão bastante peculiar. A mídia livre e atuante, além de estar financeiramente quebrada, é exatamente a mesma que apoiou o golpe de 1964 e o golpe dentro do golpe de 1968. E se entregou, sem maiores resistências e com raras exceções, à autocensura durante a ditadura. E lutou contra a campanha das Diretas Já. E promoveu Collor para impedir a vitória do Sapo Barbudo. E fez de Fernando Henrique Cardoso o demiurgo dos conservadores do Brasil com o mesmo intuito. E celebrou o engodo eleitoral de 1999 e a quebradeira que se seguiu. Não foi capaz, porém, de evitar a ascensão de Lula em 2002. Na ocasião, a sociedade civil não se deixou manipular e pela primeira vez na história do País ganhou, de fato, o candidato da oposição. Bresser-Pereira sabe disso, ou pelo menos sabia. Não recusou, contudo, papéis importantes nos governos de José Sarney e FHC. Mandava naquele o ministro das Comunicações, Antonio Carlos Magalhães, recordista em distribuição de benesses sob a forma de concessões de tevês e rádios a parlamentares de todos os calibres. Liderava o ‘centrão’ Robertão Cardoso Alves, franciscano convicto na certeza de que é ‘dando que se recebe’. Quanto ao governo fernandista, o segundo mandato foi comprado por um ‘propinão’ mais lauto que o ‘mensalão’ e o caixa 2 funcionou em pleitos diversos, conforme se apura nestes dias. Não é que Bresser-Pereira esteja isolado, a invocação do impeachment já partiu de outros cantos, até de jornalistas da mídia livre e atuante. De todo modo, neste momento comparar Lula com Collor é impossível. A CPI da corrupção collorida, é bom lembrar, acabaria em pizza não fossem os documentos trazidos pelo motorista Eriberto. Faltavam provas, e ele as apresentou. Provas contra Lula, até agora, não há, de sorte que reclamar impedimento não somente significa desconhecimento de um fundamento do Direito, mas também configura a hipocrisia do adversário político açodado.
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