‘Jornais se mobilizam para mentir por meio de acusações sem provas’
 
Análise dos jornais de hoje (5/8) sugere um questionamento: como devemos chamar o jornalismo que, antes de checar a informação, confia em deputados corruptos ou checa no "vamos publicar para ver no que dá"?

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Por Gustavo Barreto
Da redação, 6/8/2005


O jornal O GLOBO solta matéria nesta sexta (5/8) dizendo que o Palácio do Planalto teria montado "uma operação triangular" para reagir às "denúncias de que o publicitário Marcos Valério se reuniu com dirigentes da Portugal Telecom" apresentando-se como "consultor do governo brasileiro". O "triangular" é Planalto, Itamaraty e embaixador do Brasil em Portugal (Paes de Andrade). Nesta reunião estava um ex-ministro de Obras Públicas português, António Mexia.

A tal "triangulação" - por que não simplesmente coordenação?! - teria descoberto que a reunião durou cerca de dez minutos, foi solicitada pelo presidente da Portugal Telecom e este havia sido o único contato do ex-ministro português com Marcos Valério. E é isso que nos traz esta brilhante matéria "investigativa". Só. Olhando assim, que título você daria? "Governo brasileiro nega envolvimento com reunião em Portugal"? Ou "Autoridades brasileiros desmentem denúncia de Jefferson"? O Globo decidiu por este: "Governo se mobiliza para desmentir denúncia".

Trata-se, então, de uma "mobilização" (em vez de coordenação, pois se trata de "abafar" um suposto escândalo) para "desmentir" (ou seja, é verdade, governo safado!) a "denúncia" (feita por Roberto Jefferson, sem provas - por que não acusação?). O único elemento que existe de verdadeiro é: houve a tal reunião. Que elementos jornalísticos, fatos, conexões, qualquer coisa!, dão a isto um aspecto de "denúncia"? Se Valério afirmou, por hipótese, que era consultor, teve autorização? Se ele realmente chegou anunciado desta forma, quem anunciou tinha autorização? Alguma escuta confirmando o status de Valério como enviado do governo? Alguma agenda? Foi paga alguma passagem, diária, táxi, almoço?

Nada.

O "fato" novo da matéria veiculada no Jornal do Brasil no mesmo dia é: "O deputado fluminense deu pela primeira vez detalhes da suposta negociação entre os PT e PTB com a Portugal Telecom". E aí começa: "renderia", "teria feito", "suposto acerto". A suposta matéria é isso: Jefferson versus notas desmentindo o caso. Outros jornais seguem a linha editorial. Certamente não se deve eliminar a hipótese de Jefferson estar falando a verdade, mas cabe perguntar: como devemos chamar o jornalismo que, antes de checar a informação, confia em deputados corruptos ou checa no "vamos publicar para ver no que dá"?

Da mesma forma que nosso jornalismo "investigativo" vai mal das pernas (e da cabeça), seria infantil, genérico, vazio e precipitado o título deste meu artigo. Ainda bem que foi apenas uma pequena paródia. Imagina se fosse por mal.
 

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Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ. Contato por e-mail: gustavo@consciencia.net


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