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A terra é o sentido da vida para os Guarani Por João Roberto Ripper, do Rio de Janeiro (RJ)
A terra não tem função de acúmulo. Não é para ser usada para monocultura, venda do excedente e ampliação para latifúndio. Quando tiramos a terra dos Guarani, tiramos literalmente o chão dos pés deles. Ficam sem norte e sem reza. Perdem a noção do sentido de vida, se matam. Como não acumulam, não lutam e não guerreiam. Diversas teses tentaram decifrar a "passividade" desse povo. Mas, no Mato Grosso do Sul, a década de 90 foi uma virada de recuperação cultural e de retorno à terra; lideranças indígenas partiram para o confronto. O resultado foi a recuperação de muitas áreas sagradas, com vestígios de casa de reza, mas sobretudo o uso do argumento irrefutável sobre a recuperação de algo que, um dia, lhes pertenceu de fato e permaneceu sendo espiritualmente deles. As crianças guarani do Mato Grosso do Sul morrem semanalmente, por desnutrição, por falta de terras. É um trabalho de limpeza étnica. Os rituais Vejamos como são os rituais desse povo. No alto, as estrelas parecem astros leves e sensuais, exercendo a dança da solidariedade no céu, voluntárias em manter o equilíbrio, a beleza e a harmonia com a lua, nas noites que iluminam as danças e os cânticos das aldeias Kaiowá. Cá na terra os índios cantam, dançam e brincam, até o amanhecer quando, então, se despedem do espetáculo, como as estrelas, para que o sol seja novamente o dono da festa. Mas não foi sempre assim. Há mais de 20 anos essa nação indígena sofria com a freqüência com que seus jovens guerreiros e mulheres se suicidavam. Desde 1986, foram registrados 310 casos de suicídio, a maioria de moças e rapazes, sem horizontes ou perspectivas. Mas o retorno dos indígenas às suas antigas terras vem reduzindo drasticamente os casos. "Hoje, o Kaiowá ou luta ou morre. Onde ele conquista sua terra sagrada de volta, ele não se mata", resume o cacique e pajé Marcos Veron, 68 anos, da Aldeia Takuára. O Mato Grosso do Sul é o Estado que possui a segunda maior população indígena do Brasil: são cerca de 56 mil índios divididos entre várias etnias: Guarani Kaiowás e Nandeva, Guató, Terena, Kadiuei, Ofaié. Há 200 anos, os Guarani chegaram a ocupar 25% do Mato Grosso do Sul, possuindo cerca de 8,7 milhões de hectares. Atualmente, formam a maioria da população indígena, principalmente os Kaiowá, que se distribuem por 28 pequenas áreas indígenas demarcadas pelo governo. O processo de criação das reservas indígenas no Mato Grosso do Sul teve início no final da década de 20, quando os Guarani começaram a ser expulsos de suas terras e a ser usados como escravos em fazendas de cultivo de erva-mate. O governo brasileiro, nas décadas de 30 e 40, removeu os indígenas para oito reservas demarcadas, de pequenos espaços - cerca de 1,5 hectare por pessoa. Atualmente os índios ocupam menos de um por cento das antigas terras. Hoje, o Mato Grosso do Sul é o Estado com a maior concentração fundiária do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 50 mil propriedades rurais detêm, pelo menos, 20 milhões dos 35 milhões de hectares. Segundo
o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), existem ainda cerca de
quatro mil Guarani Kaiowá desaldeados nas periferias das cidades,
às margens de rodovias, sobrevivendo do artesanato e subempregados
em fazendas. Entretanto, são povos que ainda mantêm a noção
do seu território sagrado, que se estende ao norte, até os
rios Apa e Dourados, e ao sul, até a Serra de Maracaju e afluentes
do Rio Jejuí.Todos esses aspectos estão documentados nas
fotos desta página.
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