Palavras ao vento (e ao povo)
Ausência de controle social democrático continua a permitir que imprensa produza livremente a realidade tal como deseja, como na repercussão do depoimento do ex-ministro e deputado José Dirceu à Comissão de Ética da Câmara Federal. Veja alguns exemplos de como produzir fatos de acordo com a sua vontade política


Gustavo Barreto, 3/8/2005
Da redação Consciência.Net
 

Foto: Agência Carta Maior..
O Portal UOL decidiu dar nesta quarta (3/8) grande destaque à seguinte manchete: "Dirceu tentou acordo para saldar dívida do PT e PTB, diz Jefferson" (02/08/2005 - 20h03). Clicando na matéria, muda: "Jefferson acusa Dirceu de articular acordo sobre dívidas do PT e do PTB". Na interna, ainda mais modificado: "um acusou o outro de ser mentiroso". O UOL insiste em chamar a acusação de "denúncia", mesmo que Jefferson não tenha trazido um único elemento que comprovaria o debate. "O ex-ministro adotou uma estratégia defensivista", interpreta a matéria.

Em tempo: o "tentou" do título é uma ponderação necessária no cenário econômico, já que a Portugal Telecom, empresa que estaria envolvida na suposta negociação da dívida dos dois partidos, é acionista minoritária do grupo Folha-UOL.

Apesar de "um ter acusado o outro de ser mentiroso", a matéria é quase toda de Jefferson, bem como a repercussão desta quarta (3/8). Dirceu não tem o benefício da dúvida - em quase toda a imprensa, diga-se -, sendo que o tom era de que ele teria se "esquivado de todas as acusações". Ou seja: é culpado até que se prove o contrário, mesmo que as acusações venham de alguém completamente desqualificado como homem público.

Diz a matéria:

"Sobre seu envolvimento em compra de apoio parlamentar, nomeação e indicação de cargos em estatais, caixa 2 no PT, manipulação da Abin e da Polícia Federal, empréstimos em bancos pelo PT, relacionamento com o empresário Marcos Valério, acordo financeiro com outros partidos para campanhas eleitorais, auxílio em obtenção de empréstimo e emprego a sua ex-mulher Maria Ângela Saragoça, José Dirceu foi taxativo. Negou tudo."
Quem não viu o depoimento poderá facilmente achar que Dirceu "foge de suas responsabilidades", mas nunca irá desconfiar óbvio: faltam quase todas as provas do que está sendo dito. Até agora, por incrível que pareça, Dirceu não pode ser juridicamente ligado a qualquer tipo de negociação. Alguém dúvida da eficiência da Polícia Federal? Nem a oposição mais rabugenta. Exatamente por conta disso, Dirceu se saiu muito bem em sua exposição no Conselho de Ética da Câmara Federal.

Dirceu, quando perguntado, confirmou indiretamente que considera a Revista VEJA "meio tucana". E foram exatamente dois tucanos (Gustavo Fruet e Alberto Goldman) que tomaram para si o discurso de VEJA na edição desta semana (3 de agosto). Entre outras insinuações, mas sempre sem dados concretos, a revista publica chamada na capa afirmando que o secretário particular de Dirceu teria sido autorizado a sacar dinheiro de uma conta de Valério. Dirceu, por sua vez, durante o depoimento desta terça (2/8), deu alguns fatos que colocam em dúvida a veracidade das informações. Muitas dúvidas, por sinal.

Sem elementos suficientes o..
'Correio' publicou "denúncia"..
Não se trata de defender A ou B - ainda mais um dirigente que praticamente acabou com a esquerda do PT e com o PT como partido de esquerda, juntamente com seu grupo político, na avaliação da própria esquerda do PT. É urgente, no entanto, tomar consciência do comportamento estrutural da imprensa. De uma acusação sem provas, a imprensa constrói, de acordo com seus princípios (?) políticos, uma bombástica "denúncia" e enche o país com manchetes sobre o assunto. Não há checagem. Nada foi verificado. A única fonte é um deputado que admite negociar R$ 4 milhões de forma ilegal para saldar dívidas do seu partido.

Veio de Jefferson, após a acusação que envolve a Portugal Telecom, a seguinte pérola: "Vou apurar melhor os fatos desta reunião para depois apresentá-lo à opinião pública". Apurar? Para quê esperar tanto?! Isso é (imagino) coisa de deputado, porque já na manhã seguinte estava na Folha, Globo, Jornal do Brasil, Estadão, Correio... e por aí vai.

Não escrever sobre o comentário de Jefferson seria uma omissão da imprensa. Mas dar destaque de primeira página a uma acusação de financiamento ao PT e ao PTB, mediada pela cúpula do governo federal (!), sem qualquer elemento ou prova, é no mínimo irresponsabilidade. Será verdade? A questão, novamente, é o pré-julgamento que ninguém, muito menos a imprensa com sua função social, tem o direito de fazer. Se não for verdade, haverá pedidos de desculpas em editoriais, ou nas primeiras páginas? Sabemos a resposta.

O nível de corrupção atual, ao que parece, é realmente grave. É possível mesmo que o governo federal tenha algum envolvimento, seja conveniente com alguma coisa etc. Mas veio de Lula um raciocínio que faz a lógica da imprensa excessivamente partidarizada, aquela que promove confusão de fatos em vez de informar. Diz ele, em entrevista recente: "A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentira para justificar aquela primeira que falou".

Ao aprofundar a questão, temos uma "lição": ninguém, por mais honesto que seja - e não estou fazendo juízo de valor no momento -, resiste ao tiroteio da imprensa. Esta infelizmente continua a mesma, com muita calúnia e pouca checagem de informações. Quando erra, destrói reputações. E quem paga pelos erros? Aqui reside o cerne da questão.

Produção de fatos

A fábrica de mentiras possui muitas táticas que passam despercebidas, até porque é uma fábrica antiga, com muita experiência. Em algum nível, podem ser também deficiências da categoria e, em uma porcentagem menor ainda, incompetência mesmo. Veja alguns exemplos.

1. Um boato, dito por algum assessor com intenções "não-declaradas", pode virar um "fato" que, por sua vez, vira notícia de destaque e papo de barzinho. Surge nos jornais como "Segundo a revista X apurou..." Essa você mesmo pode fazer em casa. Exemplo: a fofoqueira do 206, que já nasceu fofoqueira, disse que o seu Roberval, do 405, está sendo traído por sua mulher, a Euclésia. Então, que conste no jornalzinho do prédio: "Segundo a Tribuna do Condomínio Palmeiras apurou, seu Roberval está sendo traído por sua mulher, Euclésia". Sugestão de título: "Seu Roberval é corno, afirma fonte".

2. Duas pessoas "suspeitas" de alguma coisa, estando no mesmo lugar (ou até na mesma cidade) em um determinado dia, se transformam automaticamente em duas pessoas que estiveram lá para conversar a sós e, pior, para falar sobre o mensalão ou financiamento ilícito de campanha. Mesmo que o horário não bata e que ninguém tenha ouvido a conversa. São culpados, até que provem o contrário. E não vai ser provado, já que manchetes são espaços apenas para acusações grosseiras, nunca para ponderações feitas com bom senso.

3. Esta é uma variante do tópico 2. Uma visita oficial de uma empresa que tenha funcionários corruptos (e não são poucas) a um governo que tenha funcionários corruptos (e todos têm, em qualquer país) vira, automaticamente, um encontro de acerto de contas de um esquema de corrupção meticulosamente planejado em pleno Palácio do Planalto, pelo mais alto escalão do governo federal. Nessa hora, na ânsia por provar uma tese, ninguém pára para pensar que aqueles funcionários estivessem tratando de outros assuntos, tal como sustentam.

4. "Fulano negou tudo" ou "Fulano nega que tenha articulado caixa 2". O leitor comum mal sabia da acusação - ou toma contato com o tema pela primeira vez por meio da manchete. O acusado vira culpado por negar e pelo fato de ser político (que no Brasil "é tudo ladrão", já que "são todos iguais").

5. Jornalistas são deuses e, como tais, onipresentes. Desta forma, podem esquecer uma das necessidades jornalísticas mais elementares, que é a de ouvir os envolvidos na denúncia. Até porque possui toda a "verdade" em suas mãos. É a panfletagem que, sem o devido controle público, só faz aumentar. Ouvir o acusado é muito perigoso, já que a publicação pode ter a "desagradável surpresa" de que a acusação é falsa ou parcial. Alguém que recebe uma denúncia contra o PT ou contra o governo, faz a checagem e descobre que a acusação é falsa pode se tornar, a esta altura do campeonato, um jornalista que "desperdiçou" mais um ataque ao alvo prioritário.

6. Um corruptor é um legítimo corruptor desde que cite algum alvo prioritário. E este corruptor, por menos crédito que mereça - já que não se trata de uma pessoa muito ética - estará sempre dizendo a verdade quando afirma que está falando em nome de um ministro, presidente de partido ou dirigente de estatal. No momento da denúncia, ninguém pára para pensar que a citação de fulano ou beltrano pode ser uma tática do corruptor para conseguir o que quer. //
 


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