Fundamentalíssimo
_____________________________
Como o interesse da revista Consciência.Net é expor da maneira mais inteligível, compreensível e clara os temas e discussões contemporâneos de maior importância, resolvemos fazer uma leve adaptação da ótima definição histórica de fundamentalismo presente no Dicionário do Pensamento Social do Século XX, de William Outhwaite & Tom Bottomore, com editoria brasileira de Renato Lessa e Wanderley Guilherme dos Santos, Jorge Zahar Editor. (Renato Kress, junho de 2005)


O termo fundamentalismo começou a existir nos Estados Unidos como referência a uma variedade de protestantismo conservador. Ultimamente essa palavra teve seu uso ampliado para incluir variedades do islamismo e do judaísmo conservadores e abrange o tipo de catolicismo militante e dogmático encontrado no movimento Opus Dei, tratado pelo best-seller O Código DaVinci, de Dan Brown.

O fundamentalismo cristão originalmente tinha a ver com fundamentos da crença especificamente designados que incluíam a infalibilidade da Bíblia, bem como a concepção imaculada do Filho pela Virgem e a expiação dos pecados. Como movimento, o fundamentalismo representa uma importante reação ao protestantismo liberal. Os protestantes liberais aceitavam uma abordagem altamente crítica da Bíblia e adotavam uma hermenêutica flexível, com tudo o que isso implica a respeito de modernização e relativização. Do ponto de vista liberal a cristandade havia deixado de ser uma revelação única e final entregue à humanidade na Bíblia, sendo antes uma consciência do Divino em evolução, lado a lado com outras fontes espirituais geradas por outras modalidades de fé.  Um liberalismo desse tipo seria necessariamente um movimento, em geral numa direção cada vez mais afastada da ortodoxia enquanto o fundamentalismo se via como um defensor da “fé revelada de uma vez por todas aos santos”.

É típico dos fundamentalistas ater-se à verdade literal e à historicidade precisa da Bíblia, e bem assim à autoria mosaica do Pentateuco como de certa forma indissoluvelmente ligado ao literalismo. Rejeitavam Darwin, bem como as modernas explicações científicas sobre as origens do cosmo e a compreensão habitual do registro dos fósseis. Boa parte do protestantismo inglês, mesmo o de tipo conservador, absorveu a evolução e a moderna cosmologia, ainda que tenha havido algumas tragédias intelectuais, como por exemplo a do destacado biólogo marinho Philip Gosse, que teve de derrubar, com o uso de astúcia, suas próprias provas. Mas nos Estados Unidos se desenvolveu uma interpenetração mais estreita, especialmente no Sul, de conservadorismo moral, fundamentalismo e defesa da moralidade. Talvez isso se devesse, em parte, a haver mais espaço nos Estados Unidos para a criação de redes de instituições fora dos centros educacionais importantes, controlados pela intelligentsia liberal (e seus aliados no clero liberal).

Assim, embora a causa fundamentalista tenha sofrido um revés em 1925 devido à publicidade adversa que se seguiu ao julgamento de John Scopes por ensinar ilegalmente a teoria da evolução, ela conseguiu reforçar suas defesas institucionais e ressurgiu mais ou menos uma geração depois, em aliança dos diversas modalidades de conservadorismo moral, teológico, cultural e político. Em algumas áreas, os fundamentalistas ganharam influência suficiente para garantir que o “criacionismo” fosse ensinado nas escolas ao lado de outras explicações. (O próprio criacionismo é muito variado, indo desde a visão padrão de Deus como Criador até uma periodização baseada no Livro do Gênese, chegando a uma adesão rigorosa dos livros do Gênese I e II.)

Vale a pena enfatizar que o perfil do público e a coesão interna do fundamentalismo tem sido reforçados por transmissões religiosas em televisão e rádio e por escolas “cristãs” que ajudam a criar uma “estrutura de plausibilidade” capaz de tudo abranger. Uma influência como a que os fundamentalistas alcançaram através da participação na Maioria Moral implicou alianças inéditas com conservadores de outros tipos de fé.

Muitos comentaristas encaram o fundamentalismo como apenas uma reação e como uma instância daquilo que Steve Bruce chamou de “calças curtas culturais” (1990). No entanto essa visão é excessivamente parcial para com a compreensão liberal da questão. Os conservadores religiosos podem estar engajados em uma forma de luta cultural, mas operam com facilidade no mundo comercial e técnico sem que seus vizinhos notem qualquer estranheza ou atraso marcante. De qualquer forma, a principal denominação conservadora, os Southern Baptistes (Batistas Sulistas dos Estados Unidos), está se expandindo onde as denominações mais liberais estão diminuindo, e o pentecostalismo é parte de um movimento universal que faz um progresso espantoso na América Latina (compare-se, aqui, TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO), no Caribe, em partes da África, na Coréia do Sul e na chamada Faixa do Pacífico.  É interessante que o pentecostalismo seja apenas incidentalmente fundamentalista, em vez de partir da premissa fundamentalista. Os pentecostais tratam a Bíblia de maneira conservadora, mas sua raison d´être gira em torno dos dons do Espírito Santo, da cura e do exorcismo.

O fundamentalismo na Europa também parece ser apenas incidental, quer seja parte do pentecostalismo ou de formas mais antigas de pietismo, egangelismo e revivalismo. Isso significa haver camadas de conservadorismo religiosos – por exemplo, no oeste da Noruega, no nordeste a Holanda, no norte da Jutlândia, no norte da Escócia e na Irlanda do Norte – que não colocam o fundamentalismo na linha de frente da sua luta cultural. Existe um centro intelectual, com ramificações internacionais na Universidade Livre de Amsterdã; e existem partidos políticos pequenos em boa parte do norte da Europa dedicados à Moralidade religiosa tradicional. Movimentos paralelos de conservadorismo religiosos tem surgido em anos recentes dentro da maioria das igrejas estabelecidas, e em alguns destes têm ênfase carismática. Mais uma vez, porém, seu conservadorismo está mais ligado à atitude devocional e à disciplina moral do que a um ponto de vista da Bíblia regidamente conservador.

Evidentemente, o fundamentalismo cristão é apenas u elemento em um movimento maciço no sentido das versões conservadora e evangélica da fé. Corre paralelo a um movimento comparável no mundo islâmico, mais particularmente entre os Xiitas. Em um certo sentido, o islamismo é inerentemente fundamentalista dada a ênfase na perfeição da Palavra de Deus, corporificada de forma definitiva no Corão. Ao lado disso, com um dos “fundamentos” do islamismo, encontra-se a promoção do Islã e da lei islâmica como um modo de vida completo, agrangendo o Estado onde quer que o poder e os números o permitam. As ambições teocráicas do islã foram um contraste agudo com a modesta atividade dos grupos de pressão dos protestantes conservadores.

No uso contemporâneo o muçulmano “fundamentalista” ou está ligado a um dos movimentos conservadores ou então se caracteriza simplesmente pela militância e o fanatismo. Com toda certeza esse tipo de militância é parte de uma reação à libertação de muitas sociedades cristãs em relação ao colonialismo muçulmano, principalmente “otomano” e ao avanço da cultura e do colonialismo ocidentais, incluindo-se nesse avanço a secularidade e o pluralismo através das fronteiras do mundo islâmico. 

David A. Martin, no Dicionário do Pensamento Social do Século XX.
 

_____________________________
Renato César da Costa Kress é brasileiro, poeta, escritor e nasceu no Rio de Janeiro no ano 82. Concluiu seus estudos secundários no Colégio Cruzeiro - Deutsche Schule. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro Consciência, sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro este que começara a escrever dois anos antes. É co-fundador e co-editor da revista eletrônica www.consciencia.net, e membro do I-Latina.org (www.i-latina.org). Atualmente cursa a faculdade de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Contato por e-mail, clique aqui. Para outros textos do autor, clique aqui.

Publicidade

.

------------------------------------------
Visite também:
—>.Busca no site
—>.Agência Consciência.Net
—>.Café da Manhã
—>.Cartas
—>.Mapa da revista
—>.Principal

------------------------------------------
Consciência.Net