Um museu para refletir sobre a dívida

Jorge Pereira Filho, Brasil de Fato, 19 a 25/5/2005
 

Cada argentino nasce, hoje, já devendo 4 mil dólares. Tradicionalmente ocultada pelos meios de comunicação hegemônicos, a história dessa triste sina comum a todos países latino-americanos (e subdesenvolvidos) virou um museu na Argentina. No final de abril, a Faculdade das Ciências Econômicas na Universidade de Buenos Aires, uma instituição pública, inaugurou o Museu da Dívida, para que os argentinos conheçam e reflitam sobre o impacto do endividamento externo na situação socioeconômica de um país.

O momento não poderia ser mais pertinente. Recentemente, o presidente Néstor Kirchner concluiu, com sucesso, uma renegociação que resultou na diminuição em 65% de todo o endividamento externo privado (cerca de 82 bilhões de dólares) da Argentina. A medida só não foi concretizada porque ainda está correndo uma ação judicial nos Estados Unidos aberta por dois fundos de investimento contra a operação. Mas, como cerca de 75% dos credores aderiram ao plano do governo argentino, a reestruturação está sendo dada como certa.

Os detentores dos títulos da dívida argentina aceitaram as condições do governo porque temiam que, caso a operação não tivesse sucesso, perderiam tudo. No final de 2001, o país parou de pagar os credores privados, no auge de uma crise socioeconômica que resultou na queda de dois presidentes, depostos pelos protestos populares.

Foi nessa época que surgiu a idéia de criar o museu. Enquanto os organismos financeiros internacionais criticavam a decisão, acadêmicos da Universidade de Buenos Aires começaram a planejar a inciativa para educar os cidadãos e pôr fim a esse ciclo de endividamento. "A dívida externa é um dos fatores que contribuiu para nossa crise, com graves repercussões sociais, como a fome e a pobreza", afirmou ao jornal Página 12 um dos autores do projeto, Simón Pristupín.

O museu parece ter agradado. Na primeira semana, recebeu cerca de mil visitantes. As intervenções tentam traduzir em uma linguagem compreensível os complexos problemas da engenharia financeira e a evolução da dívida externa que passou de 8 bilhões de dólares em 1875 (início da ditadura) para 191 milhões de dólares em 2004 - depois de oito anos de regime militar e mais oito anos do neoliberal Carlos Menem.

O tema, árduo, é tratado de forma criativa. Uma coleção de estatuetas de São Caetano, o patrono do trabalho, mostra como o crescimento do desemprego evoluiu na mesma medida em que a Argentina mais se endividava. Nas paredes, rostos de ex-presidentes e ex-ministros estão afixados para eternizar os responsáveis pela multiplicação da dependência argentina. Há, ainda, guias pedagógicos que fazem a supervisão de visitas de grupos de estudantes e trabalhadores. De acordo com o coordenador do projeto, o museu ainda reserva espaço para apresentações de filmes e peças teatrais que possam ajudar a compreender melhor o fenômeno da dívida externa.
 

Para mais informações, visite o site:
www.econ.uba.ar/noticias/museodeuda/Index.htm
 

Argentina | Dívida

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