Encontro Regional de Estudantes de Enfermagem do Nordeste

Por Rolando Lazarte, junho de 2005
 

Ontem à noite fui com a minha mulher ao prédio da Reitoria. Ela ia dar uma palestra com mais dois participantes, no encerramento do Encontro nordestino de Estudantes de Enfermagem. Eu já estou acostumado em ir a essas e outras atividades de Maria, em que não tenho — nem quero — outro papel do que o de acompanhante, companheiro. Palavra de fundas ressonâncias para mim e a minha geração. O desenrolar dos eventos acaba me colocando, como peça de um dominó, no lugar certo. Nesses ires e vires, a minha vida de aposentado ganhou novas cores, valores, lugares, amizades. Crescimento, recuperação e resignificação de vida. Reconstrução da minha pessoa e da visão do mundo em que vivo e do qual faço parte. Recuperação de esperança pela fé ativa dos jovens e velhos, das pessoas com que vou entrando em contato e descobrindo que faz sentido estar onde estou, ser quem sou, fazer o que faço. Havia um jovem lembrando meu filho mais velho, com o qual me pus a conversar enquanto Maria falava com Oswaldo, da comissão organizadora. O menino lembrava Leonardo, em mais de um aspecto. Não apenas a aparência física, alto, magro, mas a forma e a expressão do rosto, o olhar. Uma ternura nos gestos, uma paz interior... Jefferson é músico, guitarrista, e foi, como Leo, tocado por uma experiência de caronista que mudou a sua concepção da vida e das pessoas mais humildes, aparentemente “sem nada” para dar.

Falamos de reiki, da materialidade do espírito –aqui Maria participava da conversa também--, de budismo, e intercambiamos informações sobre pessoas e organizações que em João Pesoa e Recife distribuem gratuitamente os saberes sobre o cuidado da saúde própria e alheia. Falamos da Afya e o quanto fizeram para me curar da minha depressão, como me tornei reikiano lá, naquele convívio desinteressado e amoroso. Falamos das irmãs Efu e Ana, a primeira da Mary Knoll Sisters Mission, a segunda da Pastoral da Saúde. De como a consciência é matéria, o espírito é matéria, e a alma troca de roupa quando –lembrava Jefferson—o viver num mundo tão diferente daquele em que se criou, lhe faz mais atraente reencarnar para viver com valores mais adaptados aos tempos atuais. Nunca tinha pensado semelhante coisa, e as lembranças de Marx e Kosik e Paulo Freire, Affonso Romano de Sant’Anna  me trouxeram bons sentimentos. O auditório começava a se encher de jovens e não tão jovens, e na platéia cumprimentei um homem de pele escura que senti já conhecia. Reencontro é uma sensação que vêm me acompanhando nestas caminhadas com Maria. Nas distintas viagens inclusive fora do Brasil –México, Uruguai--, pessoas recém conhecidas me dão a sensação de já as conhecer de tempo imemorial.

Uma bandeira do Brasil, verde, azul, amarela, branca, adornava a mesa onde os microfones se alinhavam aguardando as palavras que enseguida começaram a se suceder e, como um quebracabeças montado com perfeição, memórias e esperanças começaram a desfilar em profusão. Evelyne, Maria, Itamar, o tal homem negro da platéia , trouxeram a realidade da  enfermagem desde a sua participação decisiva na construção do SUS, até o dia a dia do cuidado com o doente e o planejamento estratégico. A luta pela saúde como um direito vinha do passado como memória, meta traçada e alcançada, agora afirmada e consolidada pelas jovens gerações de enfermeiros e ativistas da saúde coletiva. O sentido do cuidar, que não envolve o se descuidar, nem ignorar para quem se trabalha e por quê se trabalha. O país que se quer. Os desaparecidos, as lutas antiditatoriais, a multiplicidade de papéis sociais do enfermeiro — tema da mesa redonda — a esperança feita realidade pelo trabalho persistente e consistente. Os desafios da mecanização desumanizadora, como bem colocou Evelyne. A necessidade de se amar a si mesmo para poder amar os outros. Mais além das palavras, pairava no encontro um adejar de asas, um rumor de anjos, para usar a feliz expressão de Peter Berger.

Uma canção de Zé Ramalho encerrou, com um grande abraço de todos os presentes formando um círculo no interior do auditório, um momento místico impossível de traduzir em palavras. Apenas sei dizer que emocionei-me profundamente, conversei com Itamar, agradecendo-lhe a lição de humanidade que tinha-nos dado, e, particularmente, vi-o emocionado também e lhe disse que eu sentia ter valido a pena ter sobrevivido. Não há um dia que esqueça dos desaparecidos, são meus queridos e queridas, companheiros invisíveis de que me acompanho, e que não compreende apenas as pessoas mortas à traição pelos carrascos militares e policiais nos anos de chumbo, mas também aqueles espíritos de luz com quem tive e tenho a graça de partilhar esta caminhada. Todos cantávamos juntos, balançando para os lados, e uma energia imensa preenchia a mandala que entre todos formávamos. Abraçamo-nos uns aos outros, e senti que, verdadeiramente, valeu a pena ter sobrevivido. A luta continua, a organização política e a consciência social estão vivas e atuantes numa nova militância estudantil que reaviva a minha fé e — tenho certeza — a de todos que queremos, como Zé Ramalho, um país decente, fraterno, justo, igualitário. De gente que vê o mal e a mediocridade e fala, faz. Não fica mudo. Se rebela. “Pode ser o país de quem quiser, mas não é com certeza o meu País”, o país do futebol, da corrupção, da mentira, do faz de conta. O meu país é outro. É o país desse abraço, dessa força coletiva interna e externa, desse homem e mulher novos que seguem sendo o sonho diário que nos move a prosseguir.
 

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Rolando Lazarte é sociólogo (Doutor em Ciência) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em “Saúde e Sociedade” da UFPB, autor de Max Weber: Ciência e Valores (São Paulo, Cortez Editora, 2001, 2ª edição). Contato: elzarat@yahoo.com.br


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