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Folha Online cria corvos Por Rolando
Lazarte, junho de 2005
Não posso deixar de expressar a minha indignação com a notícia estampada na Folha Online do dia 14 de junho de 2005, às 18h29, intitulada "Fim de anistia é passo 'importante' contra impunidade", diz Kirchner. Nesse 14 de junho, a Suprema Corte de Justiça argentina declarou inconstitucionais as leis de impunidade que protegiam os militares genocidas no país do Sul, leis arrancadas ao governo Alfonsín a ponta de fuzil. Fuzis apontados contra a população civil que, em volta dos quartéis sublevados contra os processos movidos pelo governo contra os torturadores, seqüestradores, ladrões e assassinos fardados, atirava pedras aos carrascos, quase vinte anos atrás. Passamos quase 30 anos insistindo em que se investiguem os crimes da ditadura. É uma hora de júbilo para a humanidade. Não apenas para os argentinos, não apenas para os movimentos de direitos humanos. Não apenas para a esquerda. A Folha Online, entretanto, frisa no parágrafo quarto do artigo em pauta que as tais leis de impunidade declaradas inconstitucionais pela Justiça argentina protegiam "centenas de militares no país - evitando que fossem processados por seqüestro, tortura e assassinato contra integrantes da esquerda entre os anos de 1976 e 1983, durante a ditadura militar." Numa hora como esta, é imprescindível evitar que oportunistas e aproveitadores de toda laia distorçam as informações, tentando levar água a seus moinhos. Em primeiro lugar, é necessário caracterizar com precisão quem foram as vítimas da ditadura militar: foi a humanidade, o conjunto da população civil. Não "a esquerda", como suspeitamente desliza o artigo que comento. Amedrontamento coletivo Foi uma das linhas de defesa dos genocidas, recuperada pela matéria que censuramos, dizer que o alvo da repressão ilegal foram ativistas e militantes de esquerda, como coloca o texto da Folha. Toda uma linha de defesa da matança e aterrorizamento da população, ainda hoje veiculada pelo jornal La Nación, reza por essa cartilha. Mariano Grondona, notório defensor da matança videliana, é um dos jornalistas que não perdem oportunidade de dizer que os argentinos fomos salvos pelas forças armadas de nos tornarmos um novo soviet. A Folha Online retoma essa linha, muito disfarçadamente, num estilo que lhe é bem peculiar. Mais insinua do que aponta, mais enlameia do que decanta. Não vamos permitir, os que somos sobreviventes - e todo argentino o é - da maior operação de amedrontamento coletivo em toda a história da América, que um diário qualquer, a serviço de interesses inconfessáveis, tire partido do sacrifício que nos foi imposto. A estratégia do terror Os alvos da repressão ilegal, dos campos de concentração e dos centros clandestinos de detenção que funcionaram durante a ditadura de Videla e Cia. foram as lideranças sociais (sindicalistas, jornalistas, mobilizadores, militantes de base), mas, em 90%, os fuzis do gloriosíssimo Exército Argentino apontaram para a população em geral. E aqui me desculpem todos os que inutilmente trataram de fazer sua a reivindicação da Justiça que hoje começamos a vislumbrar, porque há estudos insuspeitos, como o levantamento da Comisión Nacional sobre Desaparecimiento de Personas (Conadep), o informe da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH-OEA) e o relatório de 1997 da Opas/OMS (Organização Mundial da Saúde), que atestam o que digo. Na Argentina, a intimidação foi de massa. Evidentemente houve a seletiva, individualizada, mas o grosso apontou para pessoas que nada tinham a ver com qualquer movimento revolucionário ou organização popular, e que apareciam como alvejadas por acaso ou por acidente. Hipótese esta afastada pelos estudiosos da Opas/OMS, que revelam a estratégia do terror nas suas minúcias, qual fosse a de manter a população como um todo num estado de amedrontamento que impossibilitasse qualquer reação, qualquer organização de resistência. Atentos e vigilantes Em segundo
lugar, é necessário destacar que a ditadura militar contou
com um vasto contingente civil - embora certamente muito incivilizado -
de cúmplices e apoiadores: empresários, banqueiros, capelães
e bispos, jornalistas, intelectuais, estudantes, que tiraram proveito da
caçada humana hoje no banco dos réus.
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