crônica
O Beto, o Caminhão e os Livros

por Helana Gurgel

1992 era a época da lambada e do Sexolândia. E o apogeu, obviamente, eram as participações do Beto Barbosa no famoso quadro do Domingão do Faustão, cheio de perguntas picantes sobre o outro sexo. Ficava a família toda reunida, de olhinhos ansiosos, esperando para ver qual era a letra da plaquinha que o Beto apertava rente ao corpo com a resposta. E depois de saber se ele ia ou não pro rala-e-rola com uma mulher feia de rosto, mas boa de corpo (afinal, era só apagar a luz né, Fausto!), o grande-figura-humana-mais-do-que-nunca-este-monstro-sagrado-da-música-brasileira ia dar uma palhinha pra gente. Aí vinham saltitando aquelas dançarinas cabeludas, que balançavam os quadris e chicoteavam ceramidas no rosto dos parceiros.

Depois tinham as Olimpíadas, as Vídeo-cassetadas e, finalmente, o Caminhão do Faustão. Nessa hora, eu ficava desejando mais que tudo ser sorteada naquela pilha de cartas, muito embora não tenha nunca enviado um rótulo sequer. Eu achava que se pensasse forte, milhares de envelopes meus se materializariam com as respostas posteriormente auditadas por um cara importante de terno – que a gente sabia ser pessoa grave, idônea, só por se vestir, assim, tão serião. Eu ficava, então, confabulando o que ia fazer quando dissessem meu nome e ganhasse o prêmio:

- Eu só quero o caminhão, só o CAMINHÃO.

Essa primeira opção, baseada no filme Falcão (estrelado e co-escrito pelo Stallone), não se mostrava a mais viável, já que ainda ia levar muito tempo pra eu tirar a carteira tipo D (passados quase 13 anos, ainda não conduzo nem carro de passeio). A segunda opção, bem mais exeqüível, era vender tudo e utilizar o dinheiro para comprar algo que eu realmente desejasse muito. Entretanto, àquela tenra idade, não tinha eu tantos sonhos de consumo, exceto um: a banca do seu Jairo. 

Desde pequena, a revistaria do Jairo era certamente a noção mais próxima que tinha de uma biblioteca. Morar no interior é de longe a pior maneira de inserção no meio literário: livro era, no máximo, o livro-texto da escola; livraria era banca de revistas, mal localizada nas bordas da praça central. Eu passava as tardes olhando para toda aquela pseudo-literatura disponível, mendigando com o olhar dois ou três exemplares e sempre recebendo um não da minha mãe – visto que aquilo era exagero, já tinha tantos em casa!

Foi pechinchando uma Mônica aqui, um Cascão acolá, que dei início ao meu vício pelas palavras. Já na capital, avancei nas edições da série vaga-lume e nos romances da dama Christie. Devorava os para-didáticos do colégio logo em janeiro (não só os meus, como o dos meus irmãos, que depois ficavam pedindo preguiçosamente resumos nas vésperas das fichas de leitura).

Os clássicos comecei a ler lá pelos 13 anos e, hoje em dia, para a minha vergonha, só leio assuntos relativos às minhas faculdades. É por isso que quando alguém chega com aquela pergunta descabida sobre o quê ando lendo ultimamente, respondo sempre que não leio nada – mesmo com quatro livros embaixo do braço. Para mim, leitura é sempre externa às nossas obrigações. É compromisso que a gente assume fora dos débitos escolares, ainda que esta seja uma dívida tão agradável de pagar.

ps: pra quem não percebeu, o título é homenagem disfarçada e plágio descarado do Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa. Queria, sim, que C.S. Lewis tivesse sido uma das minhas influências literárias da infância. Infelizmente, só vim a conhecer Nárnia em idade avançada, quando se perde aquela ótica bonita de criança
 

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