“O ano da França no Brasil”
Lógica da privatização no setor energético deixa quatro milhões de brasileiros nas mãos da iniciativa privada e transforma investimentos públicos de ambos os países em lucros do grupo francês EDF, controlador das fornecedoras Light e Norte Fluminense.

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Por Gustavo Barreto
Da redação, 28/5/2005


É com grande alegria que nós, brasileiros, assistimos às festividades do chamado “ano do Brasil na França”, culminando na emblemática imagem do presidente Lula no metrô da bela Paris, impressionado com as ainda mais belas imagens do Brasil, em exposições que tentam passar um pouco da nossa rica cultura. É mesmo de encher os olhos.

Por sinal, Paris‘a cidade luz’também é sede do Grupo Electricité de France (EDF), uma ex-estatal francesa tipicamente capitalista: os investimentos são públicos (e não só na França), mas os lucros são privados, tendo sido formalizada no Diário Ofical francês de 19/11/2004 sua constituição como sociedade anônima depois de 58 anos como estatal, já tendo conquistado mais de 40 milhões de clientes em todo o mundo e uma ampla infra-estrutura, tudo com dinheiro público.

O homem que presidiu a Light

Em maio de 2005, a Light completa 100 anos. Em 91 delesaté maio de 1996era uma empresa pública, sustentada exclusivamente com o dinheiro da população, por meio de impostos. A empresa foi privatizada por US$ 2,7 bilhão, com ágio zero. O consórcio vencedor era liderado pelo Grupo EDF e pela norte-americana AES.

Em 2004, comentava-se que a EDF estava saindo da América Latina. Um dos indícios era a venda de uma distribuidora em Mendoza, na Argentina, em meados de 2004. Outra ‘transferência’ noticiada neste ano foi o envio de divisas ao exterior por parte de três dirigentes e do ex-presidente da Light desde 1997, Michel Gaillard, entre outras irregularidades. Um pouco da história nos jornais:
 

“Em 1998, a Light comprou, em leilão de privatização, o controle da Eletropaulo Metropolitana, distribuidora de energia da Grande São Paulo, tomando um empréstimo de US$ 1,2 bilhão do BNDES. O restante foi captado no exterior por meio das subsidiárias. Com o negócio, AES e EDF tornaram-se também sócias na distribuidora paulista. Em 2001, EDF e AES desfizeram a sociedade. A empresa francesa ficou com o controle da Ligth e as dívidas das duas subsidiárias das Ilhas Cayman. Coube à AES o controle da Eletropaulo e o débito com o BNDES”. (Folha de S. Paulo, 6/3/2005)

“Para comprar a Eletropaulo, a Light criou duas subsidiárias nas Ilhas Cayman, que emprestaram US$ 1 bilhão de bancos europeuso BNDES financiou o restante. Em contrapartida ao empréstimo a Light emitiu títulos de longo prazo para as subsidiárias. Com isso, teria conseguido ganhos tributários que a PF considera indevidos. Segundo o inquérito, na crise cambial de 1999 a Light enviou recursos para aumentar o capital das subsidiárias que permitiriam abater a dívida com os bancos europeus.

Na mesma época, a empresa fez operação de compra de títulos argentinos e americanos que levou o Banco Central a notificar o Ministério Público Federal. Foi aí que o inquérito da PF começou. A investigação verificou que a Light enviou às subsidiárias recursos que permitiriam pagar a dívida com bancos europeus, mas não resgatou títulos. Para a PF, assim a Light teria brecha para enviar recursos sem tributação para fora, a título de pagamento da dívida remanescente com as subsidiárias”. (O Estado de São Paulo, 6/3/2005)

Michel Gaillard..
Em março de 2005, o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, classificou a situação financeira da Light como “uma tragédia” e afirmou que “a privatização de modo geral foi um paraíso de alavancagem de dinheiro”.

Em meados de 2002, o Grupo EDF já detinha 95% do capital da Light e 90% da Norte Fluminense. A área de concessão da Light abrange 31 municípios do Rio de Janeiro, incluindo a Capital, abastecendo mais de 4 milhões de clientes.

‘Mensagem de fim de ano’

Segundo o jornalista Ancelmo Góis, Gaillardque presidiu a Light desde a sua privatizaçãohavia se aposentado no começo de 2003, tendo aceito um “convite para dirigir uma ONG voltada para a energia” e, a partir de setembro do mesmo ano, atuar em uma “consultoria para negócios franco-brasileiros”. Com o dinheiro da evasão de divisas e da sonegação, a Light pôde ainda ser “socialmente responsável”, fazendo parcerias com ONGs como a Ação Comunitária do Brasil – cuja lista de parceiros da iniciativa privada dispensa comentários.

Gadonneix..
No final de 2004, o presidente do Grupo EDF, Pierre Gadonneix, em sua ‘mensagem de fim de ano’, destinada aos executivos do grupo no mundo inteiro, “avisou que a prioridade do ano que entra será a Europa. França, Inglaterra, Alemanha e Itália são as meninas dos olhos. A China é vista como ponto de grande interesse” (O Dia, 31/12/2004). No restante do mundo, segundo a carta, “os compromissos serão limitados”.

E estão sendo. A ano de 2005, como destacado, foi escolhido como o Ano do Brasil na França. Neste mesmo ano, um grupo estrangeiro da iniciativa privada tem a liberdade de decidir que este não será o ano da França no Brasil (e na América Latina como um todo), no que diz respeito a um dos mais elementares serviços públicos. Na cegueira em que se encontrava, a grande imprensa “não conseguiu” enxergar que esse tipo de situação aconteceria.

Realidade: o limite da propaganda

Mais uma vez (e ainda hoje), independentemente das evidências, a mídia continua a vender a imagem do mercado como ‘benevolente’ e ‘democrático’. Como destacam Edward Herman e Noam Chomsky, para os grandes meios “mecanismos de não-mercado são suspeitos, embora se permitam exceções quando empresas privadas necessitam de subsídios, socorro e auxílio governamental na realização de negócios do exterior”1.

O limite da propaganda ideológica é a realidade. E cá estamos, cariocas e fluminenses, com um dos piores anos que já tivemos no que diz respeito ao fornecimento de energia, com diversos ‘apagões’ e os insuportáveis ‘picos de luz’, principais responsáveis pela queima de computadores, tevês e outros aparelhos.

Fica evidenciado que o Grupo EDF deveria há muito ter sido expulso do país, voltando o controle da empresa às mãos do Estado brasileiro. Mas não há como parar por aí, porque experiências em outros países latino-americanos, tais como Argentina, Bolívia e Uruguai, nos mostram que não há apenas uma forma de re-estatização de uma empresa privatizada.

A mais pensada pelo mercadoquando é “admitida”é a simples retomada de controle do capital. A outra é exatamente a responsabilização da concessionáriainclusive criminalmente, se for precisopor todos os danos causados às estataisincluindo aqui funcionários públicos e da iniciativa privada, o que possibilitaria um gigantesco e justo acerto de contas com o passado. Na questão energética, um acerto de contas da França com o Brasil.
 

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Notas
.[1] HERMAN, E; CHOMSKY, N. "A manipulação do público – Política e poder econômico no uso da mídia". SP: Futura, 2003.

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Fotos
.1. Pierre Gadonneix: www.edf.com
.2. Michel Gaillard: Arquivo JB

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.Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ. Contato por e-mail: gustavo@consciencia.net
 

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