Cuíca, frigideira e latinha de graxa
Osvaldinho vence o câncer e volta com disco novo, que resgata as origens do samba de São Paulo. Leia a matéria do jornalista Bruno Ribeiro, publicada no 'Caderno C' do jornal 'Correio Popular', em 22 de maio de 2005


Osvaldinho da Cuíca tem 65 anos e leva com orgulho o título de Embaixador Nato do Samba Paulista. Recentemente enfrentou um câncer na garganta que praticamente tirou-lhe a voz. A volta por cima foi bem ao estilo pregado pelo samba de Paulo Vanzolini: sem desanimar, sacudiu a poeira e entrou em estúdio para gravar somente sambas de autoria própria. É a primeira vez, em sua extensa carreira de quase 50 anos, que irá dedicar um disco exclusivamente a si mesmo. 

O repertório, como revelou o sambista, teve de ser adaptado ao "novo estilo de voz". Aproximando-se ainda mais das origens do samba paulista, Osvaldinho compôs e gravou uma série de sambas rurais com expressões usadas pelos escravos da região de Tietê e Pirapora e a presença acentuada de instrumentos como viola caipira, lata de engraxate, frigideira e batuque pesado. "Estou com voz de preto velho", disse, em entrevista ao Caderno C. O resultado poderá ser conferido em julho, quando chega às lojas o CD ainda sem título gravado pela novata Rio8. 

Até lá o público tem a oportunidade de ouvir a reedição (parcial) do melhor elepê de Osvaldinho da Cuíca: Preto no Branco, de 1984, que a Rio8 relançou no formato CD e botou no mercado, em comemoração ao cinqüentenário de carreira do artista. Além dos registros originais, há três inéditos, gravados em 1994, e duas faixas instrumentais, de 2004, quando o sambista estava em tratamento e não podia cantar. É no Balanço da Cuíca e Devagar, Devagarinho, as instrumentais que encerram o álbum, servem como verdadeiros tratados sobre a cuíca, instrumento que notabilizou o músico. 

Sambista, ritmista, passista, cantor e compositor, Osvaldinho da Cuíca começou no samba quando ainda era engraxate na região do Pátio do Colégio, em São Paulo. Batucando na latinha de graxa, para entreter a freguesia, tomou gosto pela percussão. Além da cuíca, adotou a frigideira como cartão de visita. Manteve, daquela época, o traje impecável: calças e sapatos brancos, além do chapéu de palhinha. "Eu queria trocar o meu chapéu por um modelo da Cury, que sempre foi meu preferido", diz, referindo-se a marca campineira. 

Além de integrar durante muitos anos o grupo Demônios da Garoa, Osvaldinho acompanhou Adoniran Barbosa, Geraldo Filme, Nelson Gonçalves, Germano Mathias, Cartola, Nelson Cavaquinho, Ismael Silva, Clementina de Jesus, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Toquinho e Vinícius de Moraes. A lista é interminável. 

Embora tenha atuado como percussionista em uma infinidade de discos, sua discografia pessoal é pequena apenas quatro discos solo. Todos, porém, magistrais, resultando uma obra enxuta e essencial. Osvaldinho é parada obrigatória para todos os que buscam conhecer a fundo o verdadeiro samba paulista. Preto no Branco, relançado pela Rio8, tem preço médio de R$ 20. 

Leia a seguir trechos da entrevista concedida pelo sambista, por telefone, ao Caderno C.

Caderno C Recentemente você passou por uma operação delicada, que prejudicou definitivamente sua voz. De que maneira você tem encarado essa nova realidade?

Osvaldinho da Cuíca O câncer maltratou muito, mas o samba me curou. Ao invés de ficar chorando na cama do hospital, eu continuei tocando minha cuíca. Esta voz cansada que a doença me deu, não me tirou o prazer de cantar; pelo contrário: agora estou com a voz que sempre quis ter, voz de preto velho. Tudo o que eu tive de fazer foi adaptar o repertório ao meu novo estilo de voz; por isso só estou cantando samba rural, samba de escravo. No meu próximo disco só vai ter esse tipo de samba.

O samba rural é o verdadeiro samba paulista. No entanto, quase não há registros dele. Por quê se conhece tão pouco do gênero que fundou o samba de São Paulo?

Osvaldinho da Cuíca Porque ninguém tem coragem de gravá-lo. Os registros param em Raul Torres e João Pacífico. Mesmo Geraldo Filme não gravou muita coisa de samba rural. Ocorre que as gravadoras são muito quadradas, não conseguem ver que o samba rural tem potencial para vender tanto quanto qualquer outro. E os artistas, por medo de arriscar ou por desconhecimento, preferem gravar sambas de linha carioca.

O que você acha dos projetos culturais, como o Samba da Vela? Eles têm colaborado para resgatar um pouco dessa história perdida?

Osvaldinho da Cuíca Sim, mas percebo uma reprodução do samba carioca, na linha da Velha Guarda da Portela. Os compositores dos projetos são ótimos, sem dúvida. Em São Paulo temos não só o Samba da Vela, mas o Morro das Pedras e o Projeto Nosso Samba. Em Campinas vocês têm o Cupinzeiro. Mas eles não fazem exatamente o samba paulista em sua essência. Infelizmente, o samba típico de São Paulo está morrendo.

Feito a frigideira, que também desapareceu das rodas. Você continua sendo o único ritmista a tocar frigideira, no Brasil?

Osvaldinho da Cuíca No Brasil e no mundo! A frigideira foi um instrumento marcante no samba paulistano; para preservar a história do instrumento, eu criei a ala de frigideiras na Vai-Vai, em 1976. Hoje não tem mais frigideira de ferro; só têm aquelas de alumínio, que são uma porcaria e amassam. Pra tocar frigideira não é qualquer um, porque o som dela se choca com o do cavaquinho. Agora estou investindo na caixa de engraxate. Eu apareci tocando caixa no programa Ensaio e algumas lojas de instrumentos musicais vieram me procurar; estão interessadas em comercializar caixa de engraxate com meu nome (risos).

Você é mais conhecido como percussionista do que como compositor. No entanto, tem uma produção razoável. Não lhe preocupa registrar a própria obra?

Osvaldinho da Cuíca Eu nunca me preocupei, queria só ajudar os amigos, gravar música dos outros; mas depois da doença comecei a pensar diferente: amanhã eu morro e não deixo nada? Como é isso? Já que ninguém grava meus sambas, eu mesmo resolvi gravar. Meu próximo disco só vai ter música minha, do começo ao fim. (BR)
 


Artes | Música

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